No fundo do cérebro, a parte mais distante da vista, como um poço: coisas vivem na mesma escuridão, densa, não as distinguimos mais. Assim são os privilégios: foram dados, usados, facilitaram, e, de repente, alguém diz basta… no more / uaiiiii! Que gritedo! claro, conscientemente, vou lutar por eles, quero de volta. Não perdoamos quem nos arrancou, não esquecemos, esbravejamos. “Dizem alguns que nossas paixões mais violentas e a arte e a religião são os reflexos que vemos no sombrio buraco no fundo de nossa mente quando o mundo visível se torna momentaneamente obscurecido” (p.211)
GOSTO de pensar que estou montada nas costas do mundo. Estou prestes a compreender; terror, medo indefinido, – alguma coisa na qual vacilo em fincar um alfinete e rotulá-la com o nome de beleza. Alguma coisa que não consigo dizer por medo, sinto, mas não digo: venturas e desventuras. Não perdoar, se defender (lembro quando me despediram da Garagem de Arte, sumariamente, ah! Como esbofetear o amor, foi assim), e, neste momento, sem índole violenta, apenas aceitei o fogo… Os erros políticos, os acertos soam assim. Não quero ver o absurdo, mas quero de volta o velho amante traidor. De volta os atores a se balançarem e decidirem por mim. Nunca será tarde ” jogar pedras na Jenny” como cantou o Buarque. Mas, que desperdício de tempo! Elizabeth Menna Barreto Mattos – outubro de 2022 – Torres
Não pode ser visto por inteiro ou ser lido do começo ao fim. Os papéis, as cores, a música, a voz se vai. Caminham pela imaginação e são nuvens. “A verdadeira duração da vida de uma pessoa, não importa o que possa dizer o Dicionário da biografia internacional, é sempre uma questão controversa. Pois se trata de uma tarefa difícil, essa de cronometrar o tempo; […] p.200 Virgínia Woolf Orlando – Uma biografia
Nada parece mais fácil e equivocado como a certeza: palavras são redes, as fotos, montagens. A verdade, apenas as vantagens… Que chegue domingo: a pressão vai terminar, e vamos ter que voltar a trabalhar, a trabalhar e pensar tudo outra vez.
ainda sou cruel e seca, pesada: nenhuma vontade de perdoar / e as facadas sangram em mim, não sangram nos outros porque detesto sangue, não apunhalo. percebo as leviandades / as crueldades equivocadas: as pessoas se permitem! e, tenho vontade de anvançar… a convicção não deve ser apenas emocional. acaba sendo. o outro vira diabo porque nos afetou, arrancou uma estabilidade, acertou numa regalia que me era de direito. não é, mas, acredito nisso ou naquilo, a estrutura por traz importa – com ataques e mordidas defendo o quintal, controlo a floração…, esta energia de guerra espicaça por dentro.
tenho raiva da impotência por ela, a raiva, ser assim, irreversível. tenho raiva porque o bolo não ficou com aquele gosto esperado, mas outro… tenho raiva por ter fugido e por não ter aguentado sobreviver ali, naquele quarto, com aquela sacada, naquele momento seguro. foi inseguro, e, invasivo, escorregadio, perturbante. avaliei. contraditória observação. tenho raiva porque me dou conta / tenho certeza que está no fim. não quero a doença, mas justo ela, a doença atiça a coragem, a tal generosidade, reaviva o sentimento, porque quero viver. ufa! tenho raiva do que não fiz, até dos sonhos que viraram pesadelo, das sobrecargas, descargas, do medo. danado do medo! vou chutar a porta, derramar água fervente na cabeça das pessoas, dizer nomes feios, os piores, e a verdade. vou olhar no olho do outro, e dizer a verdade…, mesmo que seja mentira, sem lógica, a minha verdade está no meu olho, na minha percepção, ele que revire / revide… palhaçada esta doçura carnavalesca / abençoada literatura, e, abençoados sejam os amigos de fé, não o sucesso alheio… Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2022 – Torrres
Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas às urgentes perguntas Que te fiz. Deixa-me ser feliz Assim, Já tão longe de ti como de mim. Perde-se a vida a desejá-la tanto. Só soubemos sofrer, enquanto O nosso amor Durou. Mas o tempo passou, Há calmaria… Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria Matar a sede com água salgada Miguel Torga
E me perguntas, debruçado da tua vida guerreira, ativado pelo amor e pela fé:”Como tu estás toureando os teus moinhos? Estás bem?”
Respondo, meu amigo: sinto que a vida te surpreende, e eu me alegro. Inexplicavelmente debruçada, eu também, na tua vida… Devo estar ótima. Tua carta devolveu…, não sei explicar ainda, vou com cautela, medrosa. Devolveu um elo da corrente. E veio com ela, incríveis margaridas frescas! Obrigada. Tua carta devolveu… Sempre me senti agraciada por isso ou por aquilo, sempre foi preciso força forte para retomar o acordar, e eu consegui empurrar um dia depois do outro, exatamente neste ritmo. E sigo neste ritmo. Arrumo a casa, limpo, troco os lençóis, seguidas vezes, caminho com a pretinha três vezes ao dia, e luto pelos bons odores. Escuto piano, limpo os livros, luto com a poeira. E o que te contar? Em desordem, em desordem as gavetas, o armário, as estantes. Em desordem a vida e eu por dentro. Quase oitenta anos e sigo sem mudar a criança, sem me empenhar, sigo estacionada, iludida. Como sugeres, escuto um pouco mais da história do outro, um pouquinho. Não o suficiente. Um egoismo latente de sobrevivência, eu acho. Penso e me fortaleço quando leio o que escreves e quando tu me escreves: atravessas o campo com a coragem que te é particular, o brilho natural E tua força! Mágico e perfeito. Dizes: “há lições de reaprender e a escutar (não ouvir) por dentro, emocionar, perceber como as pessoas são excepcionais e nunca termos dito a elas por não termos nos dado conta.” E o que precisamos, de verdade? Deste olhar, desta escuta, deste atravessar a prepotência de tudo saber, de tudo ordenar…,apreender. És uma daquelas pessoas que eu gostaria de ter tido mais perto. O JCKC me enternece sempre. Grande e poderoso, generoso e atento, amoroso. Por ele meus melhores sentimentos. Acompanho de perto / de muito perto, e, abraço, beijo, sempre que possível. Teremos, ele e eu, outra vida para chamar de nossa / complementar, o primeiro pedaço foi intenso.Quem sabe? Tua amiga R, consegue, na carta, descrever o sofrimento, ou mais ainda a estupefação, com coragem, fé: outro mundo, sem espaço para covardia, outra dimensão. E estas ‘transformações’ lhe trazem o novo e a esperança, incrível! Não importam as vaidades, o estreitamento e a presença da dor, ela acredita. Caminha noutra dimensão, domina o sofrimento, esgrima com a possibilidade… Ler sua carta foi me ajudar a redimensionar o raso do meu dia / ouvir, escutar e comparar. Tudo que eu possa reclamar será ridículo e risível. Parabéns a ela! Um ser humano em dimensões particulares. Contigo, meu amigo, aprendo a me querer mais, estranho poder, eu abro os olhos: no começo do meu processo lamento, lamento ter me deixado ficar em desânimo, lamento não ter tido coragem para amar o L., por exemplo, mas eu me consolo por sermos amigos. Quero mais vida, mais tempo, mais desdobramentos. Mais fé. Já te contei que deveria ter entrado para o convento, mas vês, rezo sempre, mas não estou mais envolvida com o ritual / poderei ajudar e salvar e ser generosa? Teria sido uma boa freira? Passaram os anos e não sei quem sou. Parece idiota isso. As pontes importam, as referências, e, volto a te ver/enxergar com brilho, inteligencia e força, o verdadeiro atleta guerrilheiro. Obrigada por teres me escrito. Eu te devia uma carta / um cuidado, eu acho. Tenho tido muita dificuldade para escrever. O importante ficou irrisório, e os meus assuntos preferidos importam tão pouco! Estou aqui a conversar/pensar comigo mesma. Os filhos preocupam e salvam, e me cercam como escudeiros. Os netos, aventura. Planos de morar em Recife! Acertar detalhes,e o medo. Sempre tenho medo.Talvez seja hora de tratar o medo e viver a vida. (risos) Aos oitenta? Um ano e dois anos de vida vida deve fazer a diferença. Esta dimensão de inteiro importa. Explode completitude. Será? Enfim, meu querido, que estejas bem! Acolhido, cercado, entre os teus. Pronto!Eu desejo. Claro, não conseguiremos beber um café na rodoviária, e já não posso fazer longas caminhadas. Preciso encontrar o caminho de ser eu e entender a mim mesma antes de explodir: um vascular, um ginecologista, um dentista, um cabeleireiro, um vestido novo, um sapato bonito, um dermatologista. Uauuuu! Um caminhão de dinheiro! Irei a Porto Alegre na outra semana. Tenho dificuldades de deixar a Ônix / somos amigas, e atentas, nos /com seus já catorze anos caninos, não imaginas como cuida da véia! Um beijo, dois beijos e melhor sorriso porque eu te sinto. Beth Mattos (chove, chove, chove)
Colorido no branco descansado, ventoso outono! Descanso descansado na pausa: expectativa. Neste momento ensolarado, as chuvas estão quietas. Ah! Necessárias como o sol! Dia enfarruscado na tosse, garganta complicada, humor espicaçado: coisas da idade ventosa: de eu com eu! Travesseiros na janela, respiram… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2022 – Torres
Eu me apresso para escrever, não esquecer, não largar, segurar a certeza de que venceremos! Beth Mattos
sinalizo devagar porque, porque, porque sendo filha, e caçula…bem, o dizer desmerece, eu me encolho…ela reina: eu me enterneço. Beleza faz chorar -, vou dizer que pode ser saudade, quem sabe? EMB Mattos
Pedi a uma jovem senhora que me enviasse um livro, acabava de lançar. Ingenuidade minha, nada profissional, o que fiz, uma talvez, provável, não, improvável amiga. Respondeu onde eu poderia encontrar o volume! Na Panvel e nas livrarias (claro!)! Já com um laço de fita natalino! Claro! Nunca li nem vi o livro, nem sei como de fato ela escreveu/ ou escreve. Passou. Deve ser poderosa, já três volumes.
Marco fez toda a diferença na minha vida. Do desastre, das dores que eram imaturas e jovens! Ele me salvou do espicaçado daquele casamento: desastroso, mas a vida é mesmo cheia de sopresa, erro e acerto. O futuro, os filhos! Elas, as crianças, me ajudaram a sobreviver. Eu escolhi os filhos! E foi isto. Nunca consegui deixou de ser eles, do meu jeito. Sem pieguice. Agarrei a vida, e foi tão bom viver! Então, eu entendo o começo. Claro que G foi o mais importante, tivemos os meninos. Depois seguimos, cada um na sua calçada. E não conheci Roma, nem Veneza, nem Modena: não aprendi a falar italiano, nem espanhol. Cismada com o francês, e sem inglês. Teimosa em todas as escolhas. Nada com Porto Alegre, necessariamente carioca porque vivi ali o mais importa: meus filhos nasceram lá e estudei e trabalhei. A primeira etapa. Depois veio o Sul, o segundo casamento, consciente e a minha filhota gaúcha que virou pernambucana. Uma roda girando. E querendo ser eu, eu, eu como tinha sonhado ser, a escrever.
A superfície permanece. Palavra incrível! A mania de profundidade: voltar para a superfície é objetivo. A casca conta a história da fruta, toda a maturação, e precisamos contar? Pois é. Fica-se a medir isso e aquilo, o trajeto, o feito é o agora. O espelho da casca, a ciência do antes, da preparação. É agora Ficamos com o invólucro. Certo quem se deu conta rápido: vestiu comeu amor e se fez depressa para estar no palco, agarrou as possibilidades todas e não fez mimi… Agarrou, agarrou. Não dá pra choramingar muito, do definitivo, o agora importa. Contar ou descrever os parceiros significa muito, as tais escolhas necessárias. Os filhos necessários. Os netos necessários, os preferidos escolhidos. Gosto de jasmim, gosto de margaridas, das hortênsias, e dos cravos e das frutas, dos morangos que a Joana comprou, das risadas da Valentina. Do tempo. Desenho as ausências do Pedro. E sobre esta pedra está o segredo fechado. Quero me curar logo e fazer mil coisas. Vontade de me mudar pro apartamento de Porto Alegre e começar a ser gaúcha. Que a filha pernambucana aprove. Minha mãe tinha uma história de pernambuco naquela pele transparente de tão branca e na bravura. Sem medo a minha mãe, corajosa até o final, foi um acidente, não foi morte. Ela conversa e explica…
4. Horrível dor! Vontade de arrancar a garganta! Teimosa, escrevo. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2022 – Torres