Histórias nas fotos

Cada imagem um enredo cheio de entrelinhas, reticências. Exclamações interrogações. O quadro que aparece nesta foto é do pintor Carmélio Cruz.  Óleo sob papel. E minhas crianças: Ana, Pedro e Joana. Viúva Lacerda Humaitá Rio de Janeiro.

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Fazenda Santa Branca – Rio Pardo – Rio Grande do Sul.

Pedro com Luiza, minha caçula, 1986

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Aqui já é Santa Cruz do Sul – Avenida Léo Kraeter , a casa. Escapa o número. Linha Santa Cruz do Sul, a ser verificado os detalhes. A memória que não se garante, volteia. Billy na foto com Luiza e o carrão do Pedro. Cães, sempre muitos cães, e a frota.

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2015-12-14 13.47.082015-12-21 15.35.362015-12-21 15.32.18O bom das fotos é não ter ponto final. A cada uma delas uma história que completa no olhar. Elas tem som, cheiro e movimento. Isso é incrível. Esta última foto minha já foi tirada em Torres Rio Grande do Sul. Elizabeth M.B.Mattos Torres

Sem intenção

Não tenho intenção de ser irônica. É isso mesmo que quero dizer. A frase quer dizer isso mesmo que já disse. Estou velha, e não vou me apaixonar. Não tenho mais tempo para dizer o que não quero dizer. Ou fazer o que, absolutamente, não quero fazer.

Uísque não é a bebida certa. Um limão cortado ao meio, gelo, água. A farofa com passas…  Vou beber água com mais limão, sem açúcar. E entender o silêncio. Vou pegar o ônibus da meia noite. Mais silencio. E não vou emagrecer. É tarde. Não vou me apaixonar, e você sabe o motivo. Vou chorar um pouco. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2015 – Torres

Uma fresta “in amorando”

Sou dura por dentro. Sobrevivente pode ser uma boa explicação… Perdas calejam as mãos, o coração também. Esqueci a memória… Harmonia é uma boa palavra.

O que faço? Sigo amorando, lendo. Devagar, voltando, amassando as letras. E tenho um cachorro. Este ter é pesado, ansioso, preocupado, amigo. Gosto de pão com manteiga, café preto. Converso pouco. Durmo bastante, e cedo.

Há palavras, senhor juiz, que não deveriam jamais ser pronunciadas, palavras que são a justificação de uns e a condenação de outros.”

Em Carta ao meu juiz: “O tempo passa. Subo. Abro o primeiro volume das Memórias de Talleyrand. Possuo uma biblioteca completa de memórias e correspondências. E não por acaso. No fundo, sei o que procuro encontrar aí, e não é algo que me orgulhe. Ao descobrir as fraquezas dos grandes homens e suas pequenas covardias, sentimos menos vergonha de nós mesmos.” George Simenon

Ainda existem aveleiras. Gostei dos dois livros.

O mar tomando banho

Estou esperando a chuva, espero o vento. Enquanto espero ouço piano. E sinto prazer com as cordas… Vou beber um cálice de vinho. Vou dizer as bobagens da vergonha. Vou dançar, vou beijar, abraçar. Correr na chuva, voltar molhada, roupa encharcada. Vou escandalizar. É saudade do amor. Vou beber vinho, água gelada, vinho. E passear outra vez com a Ônix pela lagoa. Voltar pra praia e ver o mar tomando banho… Elizabeth M.B.Mattos – Torres 2015

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Moda pode ser…

A moda é o corpo. Postura. Certeza. E o cuidado. Olhar perspicaz. Inserir e destacar. Roupa invisível. Valoriza pernas, cintura, seios, pescoço, pés. Valoriza altura, esconde, surpreende. Roupa embeleza o sorriso, o estar feliz na própria pele. Prazer, conforto. Alegria faz moda… não é só isso, mas pode ser. Elizabeth M.B. Mattos / 2015

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Não te escuto

Não, não é incrível a vida. É a vida. Clichê. A gente se esgueira, se acomoda, tem tremores nas pernas, nas mãos. A gente a trata com carinho, adestra, se apega a ela. É a vida. Existem os corajosos e aqueles que se acomodam. É tão menos cansativo se acomodar…

Bloqueada. Amarrada. Amordaçada.

Desnudado é  tão pior! Permissividade, embate, perplexidade.

Ao vivo,  a saltar do visor, imundice.

Não encontro Papai Noel, nem  vestígios natalinos. O Brasil nos engole. E já não sei se é limpeza, ou imundice. Não consigo respirar.

Sem palavras, sem visões. É muito ruim o que acontece.

Como posso te mandar rosas? Beth Mattos / Elizabeth M.B. Mattos / Torres

Rubem Fonseca proibido

Cheguei com três ou quatro livros comprados na Livraria Travessa. Aquela compra da pressa, da gula. Logo constato o absurdo do preço. Enjoo deste meu  excesso. Não sou leitora voraz, mas consumista. E, fora de moda se penso nos digitais enfileirados nas nuvens…  A conversa travou o prazer no tropeço dos livros de Rubem Fonseca. Desprazer do grupo. O chope perdeu o gosto, mas bebi mais dois apressada. Escutei. Não contestei. Embora impulsiva, arrebatada, sigo lenta, insegura. Não disse nada. O livro Romance Negro e outras Histórias ficou guardado, como todos os outros.

Lembrei de Lucia McCartney. Impressionante. Atravessei noite envolvida com Feliz Ano Novo, um de 1967, outro, 1975. Ritmo trilhado exibido erudito. Ranço encontrado na leitura que flui? E eu lá me atrevo a dizer da genial forma de puxar o tapete da burguesia, da acomodação e da malandragem?  Encosta o leitor na evasão sedativa ou alienante não só  da música, mas constata: ”Escritores e leitores, por saberem que não são eternos, evadem-se, nietzscheanamente, da morte. Quando se lê ficção ou poesia está-se fugindo dos estreitos limites da realidade dos sentidos para outra, a que já disseram ser a única realidade existente, a realidade da imaginação.” Mas aqueles livros não eram ficção, mais retrato. A surpresa da afirmação, Rubem Fonseca é péssima leitura.  Não esqueço. Não gostavam do escritor, do texto, ou do homem Fonseca? Já não lembro. Confundo nomes, datas e geografia. Foi mesmo no Rio de Janeiro?  Guardei a advertência. Quero respostas.  Ser delegado de polícia, concursado, morar em Brasília? Por que não Rubem Fonseca? Escritor de bastidores? Superficial? Erudito exibido? Vou investigar. Descubro, tardiamente, ando gostando muito das novelas curtas, das crônicas e dos contos. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2015 – Porto Alegre

O prazer está na inteligência

No prazer o vagar é particular ao sexo, ao uso dos cinco sentidos. Não se deve reduzir o entendimento de prazer, mas alargar. O sexo na premência fugaz de um encontro, ou atropelo da procriação, ou mesmo esquecimento do corpo no tempo, não está pleno. Nestes casos, talvez, a solidão seja o motor. Prazer não é apenas dividir, mas acumular energia. Intriga esta questão tão mal resolvida do excluído do prazer, ou do privilegiado.  Balançar o mundo pelos olhos do outro, e não pelo que sentimos pode ser armadilha. No discurso monótono e solto traçamos a ideia precária de prazer. Diminuto e desconhecido sentimento de felicidade. Privilégio? Bebemos café, tomamos água, e a conversa esconde desejo. Prosaico sentimento. Afinal, quem são os excluídos do prazer? Deste prazer prolongamento do ato sexual.  Do prazer do morango, da cachaça, da seda. Do prazer como requinte. Deste prazer libido. Prazer sexual que necessita ser cultivado. O sexo não deve seguir apenas o instinto. A sexualidade necessita da mesma tenacidade usada para desenvolver o intelecto. O prazer está na inteligência, no potencial de cada ser humano. O uso da inteligência nos qualifica, e o uso da sexualidade nos ilumina. Desenvolver sexualidade, usar sexualidade, saber que o prazer depende desta possibilidade intelectual, da complexidade, da interioridade do homem, e está vinculada a inteligência não é incompreensível. Talvez o prazer seja limitado pela própria necessidade de sobreviver, não de viver. O excluído do prazer se abandona na mesmice. Não conhece o limite do eu, e do próprio corpo. Não cobiça, apenas sobrevive. Não sonha o sonho do que poderia vir a ser. Não há plenitude, mas deformação. Esquece o conhecimento interior, pessoal. Preservar sexualidade, ou desenvolvê-la é como reconhecer o sentido de vida. O prazer não é alívio imediato de tensão. Não tem função mecânica.  O gozo não se faz trancado em segundos, ou minutos.  Não é apenas necessidade física. O gozo transforma o homem. Atravessa a inteligência e aguça a sensibilidade. O sexo não é paliativo como o álcool, o cigarro. É requinte. Completa o desenvolvimento mental e físico do ser humano. Com este aprendizado e cuidado, o homem aprende a se respeitar por inteiro. Enriquece sua relação com o corpo. O excluído do prazer pode estar bloqueado pela necessidade primária da sobrevivência, ou excesso de poder. A inteligência fica focada apenas no trabalho mecânico, não pensa os sentidos. De agir exacerbado desconhece limites físicos naturais, e desconhece o prazer.

Desenvolve barreiras naturais que o impede de enxergar a si próprio. Este distanciamento impossibilita a visão do que está de fato acontecendo. Não sei quem eu sou, conheço apenas o homem que caminha na multidão. Trabalha surdo a sua própria voz. Obstruído com o ruído do mundo. Obcecado pelo movimento e pela voz do comando. E, se está surdo ao olfato, ao gosto, perde o prazer.  O sexo se esconde dele mesmo. Olha sem ver, chora sem sentir, come sem fome nem gosto. Fala por falar, vive por viver. E faz sexo.  A despreocupação com o que pensa o outro sobre o mundo, sobre como deve ser feito não é alienação, mas parceria com o prazer. Com o Eu individual, completo. A inteligência aflora, e desenvolve o potencial sensitivo. O luxo do prazer. Ócio inteligente, necessário.  O sexo pensa sexo, o olhar pensa visão, o nariz pensa cheiro, a boca pensa gosto, o corpo pensa corpo, o homem se pensa.  Seres especiais convivem, e sabem do corpo e da alma, e do prazer. A sensibilidade precisa ser aguçada, trabalhada em parceira com a inteligência. O ofício, o fazer desenfreado que o homem chama trabalho pode ser apenas fuga.  Não comunga com o prazer solto, aberto. Livre.

O poder, às vezes, substitui este olhar ocioso de prazer. O que é externo se torna pernicioso. É o poder entendido como resultado final. Um poder esvaziado. Apenas comando.  Sem odor, sem toque, sem audição, sem o olhar que molha o corpo. O divino do sexo é o prazer lento da descoberta contínua, e sem pressa. Nós dirigimos corpo e mente.

Aquele que possui a sensibilidade criadora para se fazer homem, encontra na inquietude, o prazer completo. Carrega consigo o conhecimento essencial para a explosão da sexualidade, e simultaneamente, da longevidade. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2015 – Torres

Reagir

O desânimo agarra silencioso, forte. Não é depressão, mas tristeza aguda. Não é apenas a  lama que avança, nem o apito do vento, ou esta chuva cortando. Talvez o efeito de estações desarrumadas. É novembro, sinto frio, e  medo. Às vezes sinto medo. Elizabeth M.B. Mattos – 2015 novembro