Sonhos de felicidade

“A sensação de sermos unos com a natureza animal, vegetal e mineral, e a sensação de mergulhar nessa sensação, não é de todo degradante. É bom sentir pulsar dentro de nós toda a nossa vida, e simultaneamente buscar aquela existência superior cuja realização só nos é possível sonhar ou pressentir!

Não permitas que considerem fantasmas os dois grandes polos do homem, a verdade e a felicidade; quando sonhamos sonhos de felicidade, é certo, já a termos conquistado.

A satisfação de uma paixão absolutamente pessoal é embriaguez ou prazer: não felicidade. A felicidade é algo duradouro e indestrutível; caso contrário, não seria felicidade. Aqueles que gostariam de perpetuar a embriaguez, e de incluir nela a felicidade, andam atrás do impossível. (p.153 Diário Íntimo, George Sand – 1852)

 

Alerta

Há que ser competente para usufruir da loucura!

Deixa a desordem onde está. Esgota a dor, meu amigo.

Não existe intervalo entre perigo, e ação.

Reage. Um grito de força, e um gemido no intervalo, e depois, devagar, aceitação. Elizabeth M.B. Mattos -dezembro de 2014-

empilhar verbos

Torres, 2 de dezembro de 2014.

Meu amigo:

Corrupção, morte, matança, e roubo de carros fortes: dinheiro, demérito. Roubo. Depois a seca prejudicando o café, sim, a exportação. E a questão da água. Assalto a caixas eletrônicas! O fato é real. Nem politicagem, nem história de quadrinhos, nem mentiras, nem verdades, pura safadeza.

Não lembro mais o que deveríamos, ou poderíamos ter conversado. Dezembro sugere presépio, gratidão, perdão, e árvore com enfeites, pacotes. Brilho, longas noites de pirilampos. Neste dezembro bilhões e trilhões de dólares! Não vamos cumprir a meta fiscal, não vamos dizer a verdade, vamos escamotear, mentir um pouco mais, dançar outra valsa. Emagrecer: descer e subir a rampa.  É o que se vê, ou não se define, o cenário de Natal. Escândalos, corrupção, lidas domésticas. Espanto. Explode coração. Esta aflição cotidiana vai mapeando a serra, este mar . Um ano de metades: metade do esforço, do foco, do envolvimento.

Arrasto os olhos no Meu Michel: “O verdadeiro motivo eu não quero escrever. As pessoas devem tomar muito cuidado ao usar a palavra motivo.”  Amós Oz. A narrativa se transforma, bordado de realce em Israel, opressão, divisão. Medo e solidão. Onde está esta coisa emparedada da alma? Esquisito mundo! Caminhos bloqueados. Jerusalém, um retrato. Ou nos encolhemos, ou afrontamos, ou apenas seguimos… Estamos divididos em susto, pânico, coragem. Entre o vivo, e a voz. Estou, outra vez, a empilhar verbos! Elizabeth M. B. Mattos – dezembro – 2014 – Torres

Estremeço

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Se me perguntas por olhos azuis, estremeço. História ao avesso da vida. Armadilha de respostas idiotas. Os azuis, aquarela aguada na história da vida do outro: o famoso, o importante, ou o poder. Alguma coisa quebrada, espatifada é o motor. Voz mansa, clave de sol, sedução. Jocosas conclusões, inesperadas saídas. Camuflado. Um vício. Sobrevida pisoteada, perigosa.  Escamoteado presente. Emancipada fama. Abraço gelado. Se também espreitas a morte, cuida! Atenta ao brinquedo de brincar a vida do outro. Importa quem importa. Valores invertidos numa caça esquisita de pessoas desavisadas. Se me perguntas por olhos azuis, estremeço.

Castanho, risonho, apaixonado. Estendeu-se soberbo, sério. Expectativa. Abraço, resposta, a terra, uma história..

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Misturadas

TORRES outra vez! E, Luíza  visitando a mãe, Torres 2014.

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Ida ao Rio de Janeiro, depois de 10 anos no Rio Grande do Sul,1990.

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Flávio Tavares, Torres, antes de publicar Memórias do Esquecimento.

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Recorte de jornal, 1964.

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França, Paris, Chateau Chambord com Claude Bonjean.

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Roberto Menna Barreto Mattos, Suzana Mattos e Marcelo Coufal, Anita de Athayde Mattos.

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Fazenda Santa Branca, Rio Pardo, Rio Grande do Sul:

Luiza e Margit

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Magia

Arrumo / limpo os livros: separo doações (os que não lerei dos que me esperam… Há tempo no tempo de ler  reler. Sol cinzento. Abro o livro  dos livros: “Tenho grande falta de habilidade manual, lamento- o. Seria mais perfeito se as minhas mãos soubessem trabalhar. Mãos que fazem alguma coisa de útil, depois mergulham nas profundidades do ser e dali extraem bondade e de paz. O meu padrasto ( a quem chamarei aqui pai, pois foi ele que me educou) era alfaiate. Tinha uma alma profunda, um espírito verdadeiramente mensageiro. Por vezes dizia, sorrindo, que a traição do erudito principiara no dia em que um deles representou um anjo com asas: é com as mãos que se sobe ao céu.” Louis Pauwels e Jacques Bergier – O despertar dos mágicos. Revolução e encantamento. Por onde andam estes mágicos? O feijão pode ser caldeirão de magia, a cozinha laboratório, eu me demora  picar colorido e a me deliciar com o som do piano, deve ser Mozart e seus exercícios. Elizabeth M.B. Mattos – 2014 – Torres

Ao nosso lado

Esta coisa da ausência não se explica. Ausentes sempre têm razão: são os que não contrariam o trabalho do amor. Se pensamos a vida parece que sempre estivemos separados daqueles que amávamos mais: talvez seja porque basta um ser querido viver ao nosso lado, para que ele se torne para nós menos querido, ou menos necessário. Os errados são aqueles que estão ao nosso lado.  Contradição. Necessidade nunca preenchida…Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2014 – Torres

Cinzento

Gosto deste cinzento, desta chuva miúda que se apresenta lenta, modesta. Calçada molhada, a poeira descansa. O verde das folhas veste matizes amareladas, lustrosas. E o silêncio, cheio das vozes agitadas da passarinhada, me agita por dentro nesta gramática canhestra. Gosto do cinza, e do preto daquelas nuvens.

Eu estava lá

Talvez eu tenha estado lá com a ambição juvenil de mostrar teu engano, que as coisas não se resolveriam daquela maneira, não com lógica, evidências, ou comparações. Avanço afetivo, soluções chegam com as constantes novas versões…A repetição. Construímos enigmas sobre as questões fundamentais da vida e da morte (tempo, amor, permanência), sobre questões para as quais não temos a resposta. É esta falta de resposta mesma que nos anima a ir em frente. Pelo que sabemos até agora, precisamos dos enigmas para continuar a viver. É uma maneira de estruturar a vida e dar-lhe sentido. Flutuando, ou não, eu estava lá.

Desculpas

Cada um à sua maneira, feliz. A sua maneira soluções, e alegrias. Retorna-se ao começo. Retoma-se ao erro, ao acerto. Arrancar, extirpar equívocos. Reconhecer a Zuleica, o Fernando, a Mariela. Com vagar e paciência, olhar, esmiuçar: o reflexo no espelho. Diário, relato, memória possível! Atenção particular à surpresa, à ruptura, ao imprevisível visível. Ao desejo oculto, ao perdão. Trilhar, e reconhecer trajetória íntima, virtual, ou do outro… Reconhecer corpo,  idade específica do problema. Nada fácil. Respirar é difícil.

Mergulhar na rotina, na disposição cotidiana. Lugar, morada, jardim. Cães, filhos, ou amigos. Irmãos tios, primos, desconhecidos: a infância. Fingir desconhecer, não reconhecer, não repousar dentro de si mesmo: abismo pessoal. Sofrer antes do sofrimento chegar. Pausa. Parêntese. Ponto depois de tantas virgulas. (Generosidade). Não recuar, não fugir. Não perder o hoje, reconhecer a mão que pede socorro. Matemática com todas as operações que ainda não aprendemos. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2014