Envelhecer é como entrar na floresta do lobo mau, da bruxa, do feiticeiro, na floresta conhecida do medo. Sem caçadores, sem saída. Mata verde, escura. O ponto final, sem reticências. Enfim! A cada quarta-feira de cinzas o desânimo. Sede, ritmo interior, fantasia, música, o grito, tudo desaparece. Grotesco desânimo. Não sinto as pernas, doem os braços. Cerveja, vodca, gasosa, água? Não sei o quanto bebi. Cantei. E hoje envelheci. O samba da loucura terminou. Não é mais carnaval. Sem máscara não sou pessoa, sou esquecida, mal humorada, desleixada, abandonada. Engasgada. Triste. Não estou no bloco. Esqueci a letra, não escuto a música. Onde foi mesmo meu último carnaval? Esqueci. Eu me esqueci de tudo neste sono pesado de envelhecer. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2014 – Torres
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Língua estrangeira
Torres, segunda-feira, 10:30, 3 de março de 2014.
Todas as histórias têm personagem ativo, bonito, bom e generoso. Giolo corresponde ao ideal. Paulista carioca de olhos castanhos. Educado. Conhecemos-nos em São Paulo, ponte aérea para o Rio de Janeiro. O voo atrasou. Passageiros de todos os horários conversam… Meia noite o embarque. Guardo o cartão com endereço. Mesbla. Meia hora depois, no segundo voo, descemos no Congonhas. Giolo estava lá. Passamos a nos ver. A urgência presente da próxima despedida. Retorno, em breve, definitivamente, ao Rio Grande do Sul. Amigos do Leblon, de Ipanema, Copacabana, Humaitá, histórias da rua Viúva Lacerda apagados. Recomeço mais uma vez. Apaixonar, tecer planos, não. Dançamos, rimos juntos. Não velejamos. As conversas sobre música, alegria, dia ensolarado. Noites longas. Eternidade. A pintura, o nanquim, o ambiente da Aliança Francesa tem o cheiro do pecado adolescente. Se eu conseguir dimensionar maturidade. Integrar o antes com o agora, modelar vida, urgência. Retomar casa perdida, quarto rosado. Sair em busca dos castanheiros. Esquecer jacarandás, trepadeiras, ou quintal. Assim, se reproduz o que foi outrora interrompido. Sair de casa. Conversa fechada em quatro portas. O violão, o piano, o poema. A leitura de Herman Hesse, A erva do diabo, ou Freud, Kirshnamuti. Huxley, Saul Bellow. Visitar filmes de Glauber Rocha. O sorriso certo em língua estrangeira. O idioma um escudo, tanto quanto a arte, o desenho, a tinta da cor o significado correto. Em português tropeço, na outra língua, a estrangeira, o perfeito. O melhor esconderijo. O indizível. Expectadores de nossas próprias histórias, estrangeiras.
CARNAVAL ou Natal?
Domingo, 10:30, 2 de março de 2014, Torres.
Dias ensolarados na fresca deste novo verão depois de chuvas violentas, e calores abrasadores. Acordamos cedo e fizemos boa caminhada. As pernas reclamam, e a pontada que sinto nas costas persiste. Consegui cavoucar o jardim, e lavar as janelas. Separei algumas roupas. E até passei os lençóis. Exausta, estiquei as pernas para folhear as revistas. Penso em assinar um jornal visto ter tão pouco entusiasmo por televisão. E me pergunto porque não sentar e acompanhar os festejos carnavalescos? As festas de carnaval iluminam ruas, cidades inteiras, como se fosse Natal. As pessoas se preparam 324 dias para dançar, libertas. Rezam atrás dos presentes natalinos. Dois acontecimentos anuais que se avolumam no calendário competindo com os jogos de futebol. Carnaval pode ser o melhor tempo de ser livre. Natal a mentira mais convincente. E o futebol traz o sentido de pertencimento, fazer parte do grupo certo, do clube certo. E os ídolos de todos estes eventos aquecem o coração mendigo de todos. Nestas ocasiões fazemos parte de uma crença, de um som, de um movimento, de uma vitória. E se não fazemos parte do grupo, estamos do outro lado, ao lado do que protesta com silêncio. Ou pedras. Ironia e calúnia. Ou intelectualizamos eventos. Crítica e sentimento de superioridade. Os intelectuais com seus escudos, armaduras defendendo castelos. Espiando!Elizabeth M. B. Mattos -2014 – Torres
Fragmentos carta e outra carta
Sábado, 11 hs, Torres, 1 de março de 2014.
Nasceu a neta carioca. Deslocamento. Angústia, depois excesso.Tempo restrito a ninar, observar, e me deslumbrar. Os bebês são fortes, frágeis, entregues, e autoritários. O calor me consome.
Volto a te escrever na temperatura amena e florida, recheada de amoras, e mimosas cheirosas, buganvílias. De Torres. Quero teu abraço, igual ao que me deste no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagori. Quando estás perto tenho certeza que o tempo não me venceu. Fico saboreando a lembrança. Gotas de prazer. Fazes-me falta.
Em terra gaúcha soube da morte de Maria Coussirat Camargo. Aos noventa e oito anos. Imagino que guardou até o fim a enérgica posição de guardiã da obra, e do amor de/por Iberê. Cercou a exclusividade. Altruísmo evidente. Maria desenvolveu autoridade para determinar o que podia, ou não, ser feito. Assim vivem os artistas sob proteção dos escolhidos, e amorosos companheiros.
Até que ponto o tiro que matou um homem foi determinante para o retorno ao Rio Grande do Sul. Penso em Iberê Camargo. Ou foi a doença? Anoto, escrevo até a exaustão. Organizo. Sucesso dos carretéis, a valorização, a obra na vitrine. Como, exatamente, aconteceu? Investigo. Será que a prisão determina, fortifica? Histórias a serem contadas, ou esquecidas. Sinto saudades do amor. Teu abraço me conforta.
“A Louise Colet
Quarta-feira, 11h, Croisset, 14 de outubro de 1846.
[…] Trabalha, medita, medita acima de tudo, condensa teu pensamento, sabes que os belos fragmentos não são nada. A unidade, a unidade, tudo aí está! O conjunto, eis o que falta a todos de hoje, tanto nos grandes quanto nos pequenos. Mil passagens bonitas, mas não uma obra. Cerra o teu estilo, faz um tecido mais leve que a seda e forte como uma cota de malha. Perdão por estes conselhos, mas queria dar-te-tudo que desejo para mim.”
In: Correspondance: première série (1830-1846). Nouvelle édition augmentée. Paris: Lous Conard, 1926. p.375-377.
Tradução de Roberto Acízelo Quelha de Souza, in Uma ideia moderna de literatura textos seminais para os estudos literários (1688-1922). Fragmento da correspondência entre Gustave Flaubert a Louise Colet
Senhora Iberê Camargo
Maria Camargo, mulher de Iberê Camargo morreu. 
Pensei nela durante a viagem do Rio para Porto Alegre. Estava de alguma forma perto de mim. Companheira apaixonada e fiel. Ocupou-se com esmerado cuidado do homem Iberê, tanto quanto do pintor. Participei durante 30 anos da vida deles, fui testemunha desta intimidade e fidelidade. Vários pontos nos uniam. Rio Grande do Sul, arte, amizade com o escritor de Pioneiros e Bandeirantes, meu sogro, Vianna Moog, viver no Rio de Janeiro. Foi na Aliança Francesa de Botafogo que nos conhecemos pessoalmente, 1974. Maria na luta contra a doença que o matou… Maria divide injustiças e justiça quando do famoso “acidente” que os levou de volta a Porto Alegre de Nonoai. Organizou por data de chegada minhas cartas de três décadas com o pintor. Lutou para que a Fundação Iberê Camargo saísse do projeto idealizado por Iberê e pelos amigos para a realidade. E também assumiu a publicação de GAVETA de GUARDADOS. Maria pediu que devolvesse os originais do livro para entregá-los a Massi. O fato foi constrangedor, e me afastou. Flávio Tavares e eu interrompemos o trabalho, mas isso já é outra história… Na viagem desta lembrança penso que deveria ter sido menos rígida, menos apaixonada pela questão, talvez, mais generosa. A rigidez interior alardeia ciúme, ou foi a morte de Iberê que desintegrou amizade, gerou silêncio.
Ela, como Iberê, não gostava dos meus cabelos brancos.
PALAVRAS
Carta, gente, memória, tempo, mar, silêncio, tinta, lápis e repetições, não são palavras expressivas, mas minhas. Será? Como se escolhe a cor de uma fruta, de um vestido? Um perfume para ser cheiro. Água, luz, escuridão, neblina. E esta escolha se perde porque nunca pensei em palavras, volteios sobre elas. Arandelas! Expressar. Expressivo sorriso escondido que eu vejo nos teus olhos! As palavras se puxam, ou travam com nossa falta de habilidade, ignorância, desconhecimento. Elizabeth M.B. Mattos
Na ponta dos dedos
Estupefata! Não com a possibilidade de não vires porque uma bomba sempre pode cair em terras aleatórias. Estupefata com a descoberta deste meu novo egoísmo, e desta racionalidade. Tardia observação tão bem manifestada me surpreende. Surpreende porque volta com renovada carga de culpa, e responsabilidade. Então foi somente minha a culpa de não ter visto, nem acreditado nos teus esforços dirigidos ao amor. Aliás, como tudo o mais, no que se refere tua longa narrativa sobre unilateral encontro infinitas possibilidades de amorosidade antes desconhecidas. Como pude não perceber? Então devo acreditar que não te amei com tamanha intensidade e sofrimento! Seguro esta bola de fogo penitentemente. Desapareceram idas e vindas furtivas, esperas amorosas, e também o para sempre. Nunca te ocorreu que o racional chega meio ao choro e decepções de encontros frustrados? Uma carga de defesa natural? Palco de desejo e possibilidades anulado. Fantástico teres imaginado, volteado, ou pavoneado sobre vivermos juntos! Não compartilhas sequer da virtualidade. Tua carta surpreende, não por não teres chegado, mas por duvidares, afinal, do que denominávamos nós. Tenho apreço pelas tentativas. E paradoxalmente ainda te espero. Não neste verão atípico, agora, mas amanhã, ou em qualquer futuro. Assim, seguramos o amor na ponta dos dedos. Elizabeth M.B.Mattos – fevereiro 2014
Experiências caminham
Pessoas incomuns, meus pais. Cultivaram estranhezas porque sem medo, avançaram sem medo, plantaram árvores, escreveram livros, criaram filhos, e sempre tiveram cães, mais de um… e amor de amor. Adoro esta foto. Eram bonitos. Humor. Acreditavam! Pura beleza a lembrança e a imagem, esta foto! Os tormentos são todos meus! Incêndio no coração. Que saudade! E.M.B. Mattos – Porto Alegre – 2014
Namoramento
Por que não entendo nada de casamento? Porque faltou piscar o olho, namoro, rompimento, e volta. Encontro, discussão, voz. Tempo. Em tempo, e fora da hora. Do encantamento. Faltou coragem. Só covardia no sentimento: Antônio, José, Artur, Julio, Carlos, Fernando, Roberto, Alberto, Pedro, Francisco, Manoel, Antônia, Fernanda, Roberta, Julia, Carla, Marcela, Renata, Albertina, Francisca. Namoramento, amores, casamentos.
Esquecido na gaveta
Talvez um trabalho comunitário pudesse me encantar quando jovem… Despida de vaidade, afeita aos sacrifícios, numa vida mais monástica, voltada para o outro, ou apenas monástica no ritual que produz beleza. Abnegação, pitada de heroísmo. No entanto vivi na boca do turbilhão. Hoje a solidão, a quietude tem uma vontade despida. Descanso somado a nostalgia natural do envelhecer.
Um beijo esquecido na gaveta me acorda, mas logo estou dormitando.
