Preconceito

Preconceitos: alfabeto, regional, cor, sotaque, ideia, floração, cerca em círculo. Apertado azedo, e complicado. Divergência em coquetel: beleza, fluído, estupefação, trabalho. Diferença explode em nuances alegres, trágicas. A ser descoberto, o mundo.

– Não posso comer. Não vou pentear o cabelo.

Janelas fechadas, segregam.

– Não sou voraz.

– Fecho os olhos, mas voto, aperto, teclo.

Caótica escrita. Corrompemos o corrompido. Crianças se espantam… indecisas, encolhidas. Preconceito. Elizabeth Menna Barreto Mattos – Porto Alegre – 2014

Ciranda Cirandinha

Torres com vento, vento nordeste, aquele vento já grudado na infância da praia agreste. Conversa com mar marrom. O vento sacode areia na peneira azul do pescador. O vento dá voltas, volta inteiro para trás!

Copo vazio. Cabeça transborda luzes natalinas. Reiteradas  notícias, duvidosas, assediadas. Estupefação! Velho medo. Desconhecemos o vazio desta novidade televisiva. O revólver, o estupro, outras flores esmagadas…

Uma xícara de chá, depois a raiva. Certeza pequena. Mentira, realidade, e mais vento. Estupefação. Teremos ministro? O que é mesmo que acontece? Quem é esta senhora raivosa que se apresenta positiva? Vamos recortar personagens, todos, recontar a história, fechar a repulsa, recomeçar modesto, singelo, sem prepotência. Cantaremos CIRANDA cirandinha vãos todos cirandar!

Silenciar

A escrita se desfaz, desaparece, aos poucos, silenciamos. Não faz sentido o dito, tão pouco! A corrente amigável se desfaz, lenta. Desaparece, estamos isolados. Um dia menos, outro, menos ainda. Conversas não dizem, não falam mais… A televisão, música, e a leitura. Muito? Não. Pouco, quase nada, porque não existe o outro. Há que fazer acontecer o encontro, a roda, a ciranda da música. E o amigo, quieto do outro lado fica mudo. Jogo frenético das cartas, do game? Computador, olhos parados. O que posso mesmo fazer neste dia de mormaço? Tantas outras gavetas para remexer, ordenar. E depois? Entregue ao som do minuano – primavera. Forte pelas frestas. Elizabeth M. B. Mattos – TORRES

Mariana Alcoforado

Cartas de Mariana Alcoforado (1640-1723)

No ano de 1669, surgiu em Paris um livro intitulado Lettres portugaises traduites en français (“Cartas portuguesas traduzidas para o francês”), publicado por Claude Barbin, o editor de La Fontaine e de Mme. De La Fayette.

Fragmento da Terceira Carta:

(…) Sentir que eu estava com você era tão maravilhoso que eu não tinha como imaginar que um dia você estaria longe de mim (…). Prefiro sofrer mais do que esquecer você. Será que isso depende de mim? (… Não invejo sua situação, e você me dá pena. Desafio você a me esquecer para sempre. Orgulho-me de tê-lo conduzido a um estado tal que somente comigo você experimente o prazer perfeito; e sou mais feliz do que você, porque tenho mais ocupações. (…) Sua ausência cruel, e talvez definitiva, não diminui em nada o êxtase do meu amor. Quero que o mundo inteiro saiba dele, não faço segredo, e me sinto feliz por ter feito tudo o que fiz por você, ainda que contra todo o tipo de decência. (…)

(p.43-44) Editora Imago, 1992. Cartas de Amor de Mariana Alcoforado, Coleção Lazuli. Tradução e apresentação Marilene Felinto.

Gaveta de memórias

Meu amigo:

Sinto falta das tuas cartas… Difícil encontrar o outro! Silêncio, o não vivido. Escrever, dizer, ouvir, entender, mas palavras não ultrapassam a experiência. Nem uma palavra, nem uma só tem sentido, ou explica. Dizes amor e ódio! Não há amor, não há ódio, não há amigos, não há inimigos, não há fé, não há paixão, não há bem, não há mal…O que nos dissemos não conta, o fato é o que vivemos.

Ao te escrever volto às cartas que não chegaram! Penso no que não apreendi…Por tanto tempo estivemos perto, estando separados! Irônico e generoso.

Não escrevo a tua história…Tu escreveste esta memória. A traiçoeira memória!  Desenhos, personagens, palavras, a doença. Tuas memórias pelas minhas…O último azul: três solitárias figuras. O código. Porto Alegre te devorou. A solidão te queimou. As cartas contam do desespero. Maltratei nossa correspondência…A história que tenho para contar não tem começo, escorrega.

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Elocubrações

A mesma história: com cada pessoa, diferente.

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O novo não pode vir de uma vez, tem que vir, assim, em pequenas porções: pitadas.

Sou arisca, não sou tímida, afirma Beatriz, mas sou mansa. Lenta.

Dá uma trabalheira ser feliz! Se não me atendo, eu me perco, e constato: o incompetente é invejoso e mau.  Mas, e o inimigo? Qualquer coisa, ou pessoa, ou ideia que esteja me paralisando, ou tirando meu foco de mim.

Os brincos

As coisas têm valor no uso. Naturalmente. Ou não importam. Troféus não importam. Num gesto cansado,  alucinado, abandonei os óculos naquela esquina, na casa roxa da esquina. O alinhamento da vida com o que de fato se pode e deve fazer… Há despedidas, constantes adeuses para nunca mais, perdas, ou desencontros, desacertos. Um peso estranho ao tempo, sem espaço, sem concreto. Levo uma mala, uma única mala. E tudo fica pra trás, em caixas. A espera… Cheiro do recomeço, que afinal, é um começo. Não existe voltar. Assim, o bom seria retomar o hoje esticado na rotina de tirar o pó, lavar, esfregar, polir. Escovar. Usufruir daquelas quatro horas precisas, diurnas, sem sono. Colocar os brincos. Mas nunca mais pude usar os brincos! Longe de ser o peso do ouro, os brilhantes, o trabalho do ourives. Apenas os brincos que  me encantaram, alegraram ! A luz do aniversário. Desapareceram. Deveria ter sido cuidado, perfeito, foi atabalhoado, estreito, desencontrado o dia deste aniversário. Cansado. Tenho quebrado as coisas. Como as quatro taças de licor que o vento derrubou, estupida ventania! Minha tumultuada volta para Torres! Tudo fora do lugar. Perdida. Destruída, a recomeçar. Afetos medrosos. O brinco, bilhete, a moeda, restava pouco! E fora do lugar. Outra vez coloco em prateleiras  sentimentos. Outra vez achada, encontrada. Tão difícil! As caixas escondem, tudo aparece e desaparece. O que escrevo faz sentido, e logo já não faz nenhum sentido. Estrangulamento, estranhamento. Não vou ao encontro do fato, desapareço, eu também, nas caixas, nas estantes.

Elizabeth M.B. MATTOs – novembro de 2014- Torres

Estacionada

Enquanto sonho  no meu sono repasso detalhes: o que perdi ontem, ou o que de fato não consegui fazer? Por que sonhei este sonho? Os equívocos, minuciosamente detalhados. Como posso, tão serenamente, aceitar perda, vazio, e sorrir disfarçando. Desconectar. O sonho me desperta. E a noite não termina. As cores estão guardadas para o amanhecer. Este desencontro com a beleza me inquieta. Não faz sentido, não há motivo para se deixar ficar parada no mesmo lugar, no entanto, este lugar existe, o de estacionar. Estupefação da imobilidade. Como se neste mundo hoje de hoje, neste meu mundo que é o de todos nós, não fosse possível, de jeito nenhum, controlar imobilidade. Não irei a Feira do Livro, a exposição de Iberê Camargo. O fazer acontecer se esvazia na impossibilidade de pegar o lápis, o caderno, o livro. Seguir. Os objetos, o dia derruba minha vontade, a coragem, mais ou menos assim, estou sem freio, sem controle, e nesta corrida contra o tempo, estacionada.