Hoje estou cansada. Cansada. Penso enquanto me debruço nas estantes. Um livro aqui, outro perdido, este achado.
Como escreve Jacques Rigaut, ‘Et même quando j’afirme, j’interroge encore.’ (E mesmo quando eu afirmo, eu ainda interrogo). Peço perdão pelo meu cansaço porque não digo, nem penso, escorrego. Pela audácia dos desabafos nos parênteses. São parte da chuva. Das trovoadas de sexta-feira. Presa! Sufocada! Um dia de textos lidos, estantes remexidas, e um poeta reencontrado. Perguntas sem música, só letras. E Brecht nesta pausa.
E um poema:
Elogio da Dialética
(Bertold Brecht de uma seleção e estudo de Arnaldo Saraiva – Coleção Forma)
“A injustiça avança hoje a passo firme,
(Hoje? Ou foi sempre assim espedaçada esta tal justiça?)
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
(Tanto o roubo, maior o plano! Tanta a ganância maior o jardim, que já é parque. O quintal, o mundo inteiro. Sem limites.)
O poder apregoa: as coisas continuaram a ser como são.
E em todos os mercados proclama a exploração: Isto é apenas o meu começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais alcançaremos.
(Desânimo, desespero, cansaço, e passo pequeno! Cansaço!)
Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será ainda hoje.”
Como escreve Jacques Rigaut, ‘Et même quando j’afirme, j’interroge encore.’ (E mesmo quando eu afirmo, eu ainda interrogo). Peço perdão pelo meu cansaço porque não digo, nem penso, escorrego. Pela audácia dos desabafos nos parênteses. São parte da chuva. Das trovoadas de sexta-feira. Presa! Sufocada! Um dia de textos lidos, estantes remexidas, e um poeta reencontrado. Perguntas sem música, só letras. E Brecht nesta pausa. Elizabeth M.B. Mattos – 2013