Luiza

13 de outubro 2013 – PORTO ALEGRE –

Respiro, absorvo o sorriso da palavra, depois sinto o abraço magro, e, mais tarde, lentamente, desdobro teu sorriso. Desenho o corpo, a cabeça. O sulco na folha, ah! este esforço de traçar…sem lágrimas.

Despetalar, desfolhar, desmentir, desvendar, andar. Arrancar a tristeza. A dor que aperta, espeta, arde… Isolar, constranger porque alheio, estrangeiro, imposto. Vou fechar os olhos e ser feliz. Eu posso! Perdoa! O pedal da máquina de costura toca – toca: saia, calça, blusa, e também pinta a sala de seda, renda, linho, percal, tule, e todos os carretéis nas cestas redondas. As linhas se bordam, se misturam nas agulhas italianas. Sou eu que alinhavo, costuro, bordo, e danço em volta da mesa, feliz! Nenhuma lágrima menina! Só palmas! Vou acender um cigarro.

Para Fernanda

Criar um espaço como pessoa, como criatura, tanger o real. A casa na rua X, a cidade no estado K, o estado num país W, eu no tempo. O tempo nos carrega. Somos labaredas informes. Escrever, ou tentar escrever meticulosamente com a ideia de reter, repetir, fazer existir alguma coisa precisa. Seguir, perseguir esta coisa: amorasazuis. Verdade desenvolta! Arrancar uma parcela, um fragmento de memória, ou uma amostra do que poderíamos ser. Ou a escrita deste livro, ou daquela nova leitura, novo olhar. O corte, o molde para nova costura. A escolha do tecido. Com palavras fundir a possibilidade, deixar um rastro, o traço, as ranhuras de um esforço. Escrever como signo, como marca. Como uma conversa solta, e ao mesmo tempo, nossa. Escrever como encontro. Compreensão. Escrever como aprendizado. E possibilidade. Lugares estáveis, permanentes, enraizados, pontos de partida, nascentes.  Todas as frutas azuis daquele bosque, daquela árvore serão colhidas e preparadas para ser consumidas no grande grupo glutão! Bem, tais espaços precisos não existem, e porque não existem são questionados. Não há evidência. Não pode ser incorporado ou apropriado. Imagino…

 

Cansaço com poema

Hoje estou cansada. Cansada. Penso enquanto me debruço nas estantes. Um livro aqui, outro perdido,  este achado.

Como escreve Jacques Rigaut, ‘Et même quando j’afirme, j’interroge encore.’ (E mesmo quando eu afirmo, eu ainda interrogo). Peço perdão pelo meu cansaço porque não digo, nem penso, escorrego. Pela audácia dos desabafos nos parênteses. São parte da chuva. Das trovoadas de sexta-feira. Presa! Sufocada! Um dia de textos lidos, estantes remexidas, e um poeta reencontrado. Perguntas sem música, só letras. E Brecht nesta pausa.

E um poema:

Elogio da Dialética

(Bertold Brecht de uma seleção e estudo de Arnaldo Saraiva – Coleção Forma)

“A injustiça avança hoje a passo firme,

(Hoje? Ou foi sempre assim espedaçada esta tal justiça?)

Os tiranos fazem planos para dez mil anos.

(Tanto o roubo, maior o plano! Tanta a ganância maior o jardim, que já é parque. O quintal, o mundo inteiro. Sem limites.)

O poder apregoa: as coisas continuaram a ser como são.

E em todos os mercados proclama a exploração: Isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:

Aquilo que nós queremos nunca mais alcançaremos.

(Desânimo, desespero, cansaço, e passo pequeno! Cansaço!)

Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.

O que é seguro não é seguro.

As coisas não continuarão a ser como são.

Depois de falarem os dominantes

Falarão os dominados.

Quem pois ousa dizer: nunca?

De quem depende que a opressão prossiga? De nós.

De quem depende que ela acabe? Também de nós.

O que é esmagado, que se levante!

O que está perdido, lute!

O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?

Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

E nunca será ainda hoje.”

Como escreve Jacques Rigaut, ‘Et même quando j’afirme, j’interroge encore.’ (E mesmo quando eu afirmo, eu ainda interrogo). Peço perdão pelo meu cansaço porque não digo, nem penso, escorrego. Pela audácia dos desabafos nos parênteses. São parte da chuva. Das trovoadas de sexta-feira. Presa! Sufocada! Um dia de textos lidos, estantes remexidas, e um poeta reencontrado. Perguntas sem música, só letras. E Brecht nesta pausa. Elizabeth M.B. Mattos – 2013

Sem resistir

Há qualquer coisa de misterioso para além da carne, irredutível pela carne. Talvez porque só se possui realmente dum ser aquilo de que se conseguiu impregná-lo, e o esforço que se faz para extrair da espessa crosta que é a carne, o mistério do espírito que procuramos, não consegue mais que levar-nos de volta à posse de nós mesmos. Só os amantes sabem que possuir é apenas uma palavra, e nisso consiste o desespero.” (p.35)
Presença de Anita – Mário Donato – Livraria José Olympio Editora S.A.

Peça de seda

Este é o primeiro parágrafo da novela Presença de Anita de Mário Donato. Que rede perfeita…

O ar cinzento e fino, a tarde lívida e seca, nenhum aceno na distância, a vida parada, o mundo ausente, assim. As histórias tinham os braços caídos e os lábios entreabertos, na mansa expectativa das coisas que é inevitável aconteçam, vindo de dentro para fora, num movimento vagaroso e sem reflexão, como o desdobrar-se duma peça de seda para o enxoval duma noiva cujo amado, ela não sabe, morrerá amanhã.”

Bons textos tocam música.

Farofa com banana

Camarões flambados, não, posta de congro. Champions, alcaparras, camarões ao molho, pirão. Siri na casca, limões… Cheque ou cartão? Nada. Filé com pimenta, com alho, ou batatas? Fritas ou cozidas, melhor douradas. Que fome! Será que chega logo! E quente? É longe o Santo Antônio! E o Barranco? Aqui bem perto só  camarões. A Vivenda tem charme, mostra, explica, mas não aceita cartão na portaria, nem cheque praiano, então… Pois é. Carnes. Disco os números, converso, pergunto, interpelo. Nada. Nada funciona. Maquininha aqui em casa, não mesmo. Já sei. Supermercado: alface, brócolis, cenoura, tomates. Quem sabe palmito. Pão fresco. Um vinho. Limões. Água com bolinhas. Azeite. Que preguiça faminta! Não vou. Espero a fome passar. Pondero. Aperto a vontade. Sinto frio. Vou cozinhar. Inventar. Já sei. Farofa com banana, arroz com linguiça, tomate pelado, alho e rapidez. Bastante manteiga. A farinha de mandioca virando, revirando. Cheiroso! Aquele aroma de infância chegando. O almoço vem campeiro. Azeite e pimenta. Ovo estrelado. Sem tomate, sem alface, sem laranja, sem couve nem feijão. Queijo, goiabada. Um pedaço de pão. Azeite, pimenta…

E a cerveja. Elizabeth M. B. Mattos – setembro 2013 – Torres

Deslocamentos e vagares

 

Escrever tem apelo, permanência, explicação e resposta. Se posso me inquietar com o que faço, por que faço, ou posso fazer… significa, escrevo. A resposta se estende, alonga, espreguiça. Apaixonar, entregar, mistificar, orar, acreditar, querer, rejeitar, estabelecer, ficar. Sorrir. Ou caminhar. Descrever. Abrir os olhos para olhar. É você a importância da presença. Deste silêncio que me importa. Livre me completo na ideia, desenho seu rosto. Vai ler, vai sorrir, vai compreender, ou vai me perguntar o motivo? Aguada resposta. Estar aqui ou ali, saber, esquecer. Isso Importa? Escreve, escreve. Prometo ler o livro, o rascunho, as laudas todas. Entra sem sair. Bebe o café, o copo d’água alternado. Mastiga devagar o gomo ardido.  Abre a caixa dos bombons.  Mais água. E volta para ler as cartas. Devagar, voltando, recomeçando… Folhas e folhas amontoadas, impressas. Manuscritas, bilhetes. Deslocamentos, lugares velhos. Cinzentos. Aqueles azuis, como as amoras.  Lembrança vermelha.  Estupefata! Música sorrateira de pássaros, ou de vento, chuva. Pode ser garoa. Estou/sou o concerto de sussurros. Se o piano atravessa a  sala, o dedilhado me acalma.  Enfiada na poltrona, contida no copo conhaque tricoto a manta arco-íris em ponto arroz.

Chove na lua de ontem

Desapontamento. Constatação. O que sabemos afinal sobre as pessoas? O que diabos sabemos sobre qualquer pessoa?  Descartável fruição. O imediato. Impossível descortinar a história enquanto se vive, não tem forma. Procissão incipiente de palavras e coisas. Se te vejo, ou revejo, imagino pressinto é no vazio, na ideia oca de querer te ver. Estranho átomo! Presente fugaz. Desejo, brilho, e tudo que sinto já não é mais. Vapor, sorriso. Amontoado de palavras que ficaram sentadas naquele sofá. Desacorçoadas, atentas, mas amolecidas. Lua cheia, risadas, e a voz solta costurada no fim de noite. O tempo não é externo – é interno. Chove na lua cheia de ontem. Elizabeth M.B.Mattos – Torres – setembro 2013

O passado volta

Ventania, um uivo. Árvores se dobram, a água da lagoa se agita crespa. Pelas frestas da janela entra o vento. A luz treme como se fosse apagar… Os aparelhos fora das tomadas, menos a geladeira.  A ventania entra no meu corpo. Como se a tempestade pudesse estar mais perto, e o vento mais forte. Não vejo o mar. Queria estar no meio de um tempo diferente… Nos dias mansos da fazenda, compridos, amigos. Cheiro de terra, feijão com arroz e batatas. No vento o silêncio da felicidade do abrigo. Acendia-se o fogo no galpão. As velas no entardecer.  O banho aquecido em tachos, e conversas misturadas com risadas. De concreto este galpão, chão de terra batida… E o galpão de concreto armado. E o dia seguinte, outro dia de fazeres. Café forte, chimarrão no vermelho do amanhecer. A cerca pequena entre casa, e campo. Cinamomos, eucaliptos. Açudes a serem feitos, as curvas de nível necessárias.  O risco do pomar.  Cartas, sesta, rede. E a labuta com bombachas.
O vento que sopra aqui chega lavado em Miguel Pereira. Vocês vestem os casacos, e se enroscam nas mantas azuis.  Aquecem a sopa, conversam baixo, enquanto a televisão discute com teu pai. A voz deste vento que grita assusta. Quero o Rio Grande do Sul, a casa perto do açude. O marido. Penso nas ovelhas, cães e frutas maduras. Engraçado! As tranças do casamento se torcem! E todos nós estamos de mãos dadas neste tempo de ser feliz! Todos! Os namorados perdidos, os maridos, os filhos deles, os nossos. Estamos protegidos no sonho desta luz de lembrança, e longe, aqui na serra carioca. O vento sopra forte.  Congela os dias.  O sono me agarra traiçoeiro.  Apago as velas, e conto aquela história de fazer vocês dormirem… A minha história. Elizabeth M.B. Mattos – 2013

 

 

Inverno no inverno

Porto Alegre. Cidade gelada. Inverno gelado. O gelado que se concentra na ponta do nariz, nos tornozelos, nas pontas dos dedos. A energia se concentra na boca do estomago: chocolate quente, chá, leite, café, sopa. Tempo das cobertas. Dos abraços apertados. Aconchego. As manhãs seguem sendo as melhores horas do dia. O almoço, a refeição mais longa, embora todo o prazer se concentre no café preto com pão e manteiga. Fruta, mel, pão quente, leite morno. E café preto. E notícias. Planos. Quando a cidade acorda estamos com a certeza de fazer… Caminhar. Aquela sensação de tempo espichado pela luz, sem sombra. A cidade me pertence, organizo os sentimentos enquanto levanto as cortinas, abro as gavetas, estico os lençóis. O movimento é conselheiro. Estou feliz, respiro. Elizabeth M.B. Mattos