No caminho

Sentada diante da tela brilhante do computador penso o poema de Eduardo Alves da Costa

No caminho com Maiakovski.

Penso a repetição marcada dos versos que fazem/são música, e alertam. É terrível acordar amedrontada pelo fazer do outro que atropela. Difícil apagar o sentimento covarde. Eu cedo ao grito que surpreende, ao imutável trivial reprimido. Ao verdadeiro escondido. Desejo apertado, e logo já não é mais. Sei que não devia ser/fazer assim, mas não digo nada. Silêncio permissivo, opressor. E já sem coragem, eu me escondo. Esvaziada me acostumo a tanta coisa proibida, a tanto desejo fatiado, tanta explosão desnecessária! E o passo/andar/ caminhar estancam. Estou no quarto pequeno esquecido. Sem memória cinzenta ou azul. Esqueço de querer, de lutar, de desejar. Abstraída, retraída, lenta. Medrosa. A massa humana conduz, e a mesmice regulada. E deste tempo passado já não consigo mudar nada.Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2013 – Torres

No caminho com Maiakovski

“[…] Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[…]”

 

POETA

Não acabarão nunca com o amor

“Não acabarão nunca com o amor, nem as rusgas, nem a distância. Está provado, pensado, verificado. Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço juramento: Amo firme, fiel e verdadeiramente.”

Vladimir Maiakovski

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“Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky (em russo: Владимир Владимирович Маяковский; (★ 19 de Julho de 1893Baghdati – † 14 de Abril de 1930Moscou) foi um poetadramaturgo e teórico russo, frequentemente citado como um dos maiores poetas do século XX, ao lado de Ezra Pound e T.S. Eliot, bem como “o maior poeta do futurismo“. Wikipédia

ACERTOS

13 de setembro 2013, sexta-feira de calor, muito calor! Se apertam as estações. A primavera se esconde… Penso. Se eu pudesse apenas conviver com acertos, encontros, risadas somando certezas, seria fácil. Estou curvada, pronta para abrir a última caixa. Pedras azuis.  Apoio a cabeça no inalterável: nasci. Sou parte deste fluxo, deste mar. E a onda vai quebrar nas pedras, ou se desmanchar na areia, isto é eterno. Seguirei acertando, ou errando. Opções. Serei vista pela maneira como as faço, ou deixo de fazer… Queria mesmo é começar de novo, tornar a ser criança e reviver quem eu era com toda a sabedoria que só uma criança inocente pode ter. Queria ser o que fui antes de me ensinarem como é a vida. Encher as mãos com amoras azuis. Lambuzar os dedos, os braços. E com o vestido já pintado de azul correr em direção ao mar, banhar-me, e saciar esta fome incerta. Transformar  escolhas em seguidos acertos. Elizabeth M.B. Mattos

Sem bússola

Fragilidade que pesa e arrasta. Pelo rio navego sem bússola, nem rota. Sem texto. Leve, solta. À deriva no tempo, no sopro preguiçoso da espera. Sol! Chuva miúda na tarde comprida. O passo oscilante sacode o barco, sacode angústia. Espera. Pensa. Dia, noite, hora e luz, na moita, se escondem. Já correu… Novidade surgida, moda admitida, a vírgula, silêncio ou metro medido, quietude do nada. Sem antes nem depois, amanhã. Navega no rio, no mar, no deserto chorado. Vida lisa, incólume, sem cheiro. Beijo, abraço, inquieto apelo. Sem bússola, nem rota, sem texto. Elizabeth M.B. Mattos -2013

Mormaço de setembro

O céu entra no mar cinzento. A terra fica redonda. Ondas na beira das calçadas. Estranhamente cinzento este céu derramado na areia. Volto para a lagoa num passo cansado, dolorido. Calor. Este mormaço de setembro se disfarça, engana com fantasia de primavera. A chuvarada pesada se anuncia. Amoreiras carregadas, não de amoras azuis ou roxas, mas carregadas de frutinhas verdes e avermelhadas dançam nesta brisa. Volto para casa.

Empilhar, entulhar

 

Encaixotar, embalar. Enrolar. Varrer. Deixar vazio. Guardar. Selecionar. Excluir. Rasgar. Este ritual  oprime. A gaveta remexida. A presença escondida. A surpresa! Toda a saudade. A escassez oprime. Oprime o desejo contido. A cópia, o modelo estereotipado. Oprime o diabo do espelho. O vestido manchado. A manta azul no cabide. Os chinelos. A escova de dente. O pente. A lata dos chocolates. As fitas na mesa. Oprime o segredo. Oprime a preguiça. Incapacidade, ilusão frustrada, a idiota vaidade. Este mesquinho egoísmo e esta opaca inconsciência. Oprime não ter compreensão, nem o espetáculo inteiro, só o palco. A palavra dele, a voz, o cheiro, a roupa, a ausência, o silêncio, os remédios, o casaco xadrez. Por que não aceitar com prazer o que terminou? Não olhar o fogo, e deixar para traz só as cinzas deste  incêndio. E o ponto final.

 

 

 


 

Angústias

Grandes pintores, artistas, grandes angustias. Contínua vontade de acertar. As dificuldades existem, mas como escreve Van Gogh “Mas estas dificuldades estão mais dentro de nós mesmos que em qualquer outra parte”.

“23 e dezembro de 1888

Agradeço-lhe muito a carta, a nota de cem nela incluída e também a ordem de pagamento de cinqüenta francos. Eu por mim acredito que Gauguin tinha se desanimado um pouco com a boa cidade de Arles, com a casinha amarela onde trabalhamos, e, sobretudo comigo. De fato, tanto para ele quanto para mim, aqui ainda existem sérias dificuldades a vencer. Mas estas dificuldades estão mais dentro de nós mesmos que em qualquer outra parte. Em suma, por mim eu acredito que ou ele vai decididamente partir, ou ele decididamente ficará aqui […]”(p.940

Vincent Van Ggh – Cartas a Théo – LPM Pocket

Telas de Van Gogh :  as flores e os sapatos. E  as outras telas são de Paul Guaguin,- as mulheres nativas.
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Soberba

Entre a luta de poder e não fazer, eliminar. Seguir em frente. Caminhar sem se voltar. Entender antes de perdoar. Socorrer aquele corpo espedaçado… Velar. Quebrar a cadeira, o vaso, a janela… Depois consertar. Esquecer o tempo de lavar, dar de comer. Recomeçar. Limpar, arrumar, dobrar, cansar, ficar, e ainda assim olhar pela janela… Esquecer o tempo de plantar, regar e podar! Escutar, estremecer. Não duvidar! Altruísmo, soberba, egoísmo, estoicismo infeliz. Sátiras palavras invertidas. Deixa o diabo correr, quero as asas de anjo pra voar e me perder…

Unhas pintadas

Realidade. Estar no coração de um dia de verão, como no interior de uma fruta, olhando para as unhas do pé, pintadas, para o pó branco nas sandálias, vindo de ruas quietas e sonolentas, sentir a expansão do sol por baixo do vestido, no meio das pernas, ver a luz polir os braceletes de prata, sentir os cheiros da padaria, do pãozinho de chocolate, ver os carros passarem, cheios de mulheres louras como as fotos da Vogue, e logo enxergar a velha criada com o rosto queimado, com cicatrizes, cor de ferro, ler sobre o homem esquartejado, e ali, à sua frente, perceber o corpo pela metade de um homem sobre rodas, enquanto o perfume do coiffeur canta a realidade.” (p.146)

Anaïs Nin – Diários Não Expurgados (1934-1937) – LPM Pocket

De Anita

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“Genética

Embora eu devesse não me sinto outonal.

Não amarelo meus pensamentos. Não caem minhas ilusões.

Sou como um fruto maduro preso a um galho,

E que se recusa a ser colhido

Embora eu não devesse me sinto primaveril.

Brotam em mim botões de alegrias que renascem até nas tempestades,

No frio que vem das invernias.

Embora eu não devesse, renasço até nos pantanais

E ali consigo ficar mais frondoso.

É porque a semente que me fez nascer,

Creio de uma planta rara, especial.

Então,  sou como as flores que renascem em todos invernos, primaveras, verões

Que vicejam mesmo sendo tempo outonal.

Torres, 03 -09 de 1982″

Anita de Athayde Menna Barreto Mattos

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