Elias Canetti

Eu a vigiava, como ela a mim, e quando se está tão próximo a alguém, adquire-se uma sensibilidade infalível para todas as emoções do outro. Por mais que eu estivesse empolgado por suas paixões, jamais teria desculpado um tom falso. Não era presunção, mas sim a intimidade, o que me dava direito à vigilância, e eu não hesitava em interpretá-la tão logo pressentia uma influência estranha, inusitada. (p.187)

A Língua Absolvida História de uma Juventude

jogo de paciência

Depois de pensar que devo escrever todos os dias eu me vejo jogando paciência na tela do computador. Jeito estranho de passar o tempo. Nem um livro, ou uma revista. Ou a rua, as pessoas. Cartas. O jogo de paciência descamba em lances perdidos, estou distraída. Criança  silenciosa. Obediente. Sinto-me prisioneira. Grades voluntárias. Ativista? Ativista de um mundo que se modifica tão rápido! Volta ao passado? Uma oposição derrotada, iludida numa luta interna sem causa. Insatisfação. Bilhar? Sinuca? Xadrez, Pôquer. Ou Canastra? Copas? Uísque, conhaque, vodca ou cachaça? Revolucionária. Onde estão os heróis? Sigo às cegas limpando, perfumando, colocando o que eu chamo de beleza em cada possível recanto. Ordeno, esfrego o tempo. O polimento é a possibilidade. O fictício prevê o massacre… O soluço que permanece armazenado. Outra quebra outra guerra! O burguês, o operário oprimido, o rei. Invertido, ereto, horizontal, vertical, o poder noutras mãos…  Dom Quixote, Fausto, Demo, Ulisses. Prometeu. O encontro está na criação da obra de arte: o vestido, este prato, ou uma aquarela. A escultura, a flor, aquela árvore, um sapato. O beijo, a referência, um grito. A paz, um aperto de mão. Nos pequenos gestos de todos os dias. Não está nas cinzas. Ou estará em Hiroshima? O massacre. As torres de 11 de setembro? As crianças mortas  dentro da escola. A dor continuada dos oprimidos. A prepotência de quem exige. A violência está no olhar, na luta, na submissão ao mestre? Não importa o lado. A pirâmide segue misteriosa, e nós, os pequenos omissos seguimos tateado.

Um galho solto que completa o tempo. O ciúme, uma exagerada saudade. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2012 – Torres

No recuo do amor

Como venta! Aqueles velhos ventos torrenses que assobiam. E gritam que ainda é primavera. Leva folhas, sacode a cidade, e tempera o verão. Tomo banho demorado. Cheiro de sabonete. Agua perfumada. Separo dois vestidos, abro a mala. Não são as roupas que importam. Guardo vaidade. É preciso colocar na mala certezas menos doloridas. A roupa importa sempre. Ah! Envelhecer é que parece doença de silêncio belicoso. Vou quebrar os gestos. Na sombra do entardecer observo outra sombra, quero definir. Da beleza que nego um braço se espicha pedinte. Equívoco. De volta aquela sensação de tempo perdido, lacrado. O dia termina. Dois vestidos, a mala aberta. Será que vou mesmo a Porto Alegre?  Impotência, esquisitice e vulnerabilidade! A conversa sacudida me levou ao centro do problema. É doença este ir e vir arrastado. Dores alheias, ou  são as minhas escondidas que atrapalham?  Esquisito estar sem lugar. Pesa a conversa telefônica. Por que estou acuada? Estou encostada na cadeira, penso nas palavras. Não deixo acontecer. Sempre o meio do caminho. Ou empurrada pelo tempo de urgências, seguindo o sinal da emergência. Foi no recuo que o afeto surgiu.

Cartas. Conversas telefônicas! Quando fui ao teu encontro definitivamente já não estavas mais lá. Enfrentar a cidade também te aterroriza. Entrei no apartamento vazio. Duas amplas salas envidraçadas, lindas e vazias. Recuaste. Neste recuo, nesta volta desapareci atrás dos jacarandás… Desci as ladeiras.Todas as cartas voltaram. Nem o lápis, nem a caneta, nem o papel, ou qualquer tempo, nem teu amor… Eu me perdi outra vez.

O que eu ia mesmo escrever? Eu queria encontrar uma saída para tanta instabilidade interior… Ah! Queria te contar do vento de Torres. E do banho perfumado!

Creio que em cada vida há períodos em que o homem existe realmente, e outros em que não passa de um aglomerado de responsabilidades, de fatigas e, para os cérebros fracos, de vaidade. ”

Marguerite  Yourcenar, Golpe de Misericórdia. Página 107

Enfrentamento

O tempo deveria passar lento. E o dia inteiro deveria preencher a angústia, que satisfeita, faz dormir. Os livros são a respiração artificial para o doente. Num mundo que se pretende organizado, liso, e compreensível somos a própria doença, por isso asfixiamos. A leitura o remédio. Queremos este mundo visível virado, diferente; queremos mais, ou menos, não igual. Como o calor que sufoca estas vozes conjuntas que indicam o certo, o errado alucina. Estar em lugar preciso define gestos: aquele grupo social exige determinado comportamento. Quando estamos já do outro lado, o que passou nem se faz ainda distante e já viramos o rosto. Retornar tem gosto de recomeçar de início. Por que inicio pode ser duro? Porque iniciar repetidas vezes nos dá uma sensação de não ter avançado? Estagnação. Voltar, enfrentamento. Rompo barreiras naturais forçando aceitação.  Não me aceito. A libertação chega aos poucos, se é que um dia nos libertaremos…

os treze anos, os quinze ou os vinte sete anos…

Os dias chamam para o Natal… Para o nascimento, o recomeço, a confirmação de sermos irmãos. Tempo de acreditar em sinos repicando de alegria, rezas, e na natureza que conversam. Corações abertos a confraternização, nos recolhemos no desassossego… No vestíbulo entre forasteiros, inquieta neste tempo avassalador que substitui o promissor da vida… Por quê? Expectadora, ou mensageira num eterno ir e vir, sem respirar… O ano de 2013 sinaliza… Aberto aos pequenos novos cidadãos, irmãos. Talvez os treze anos, os quinze ou os vinte sete anos destes jovens sejam sinaleiros para mim… Rezo, e desejo que eles consigam abrir a beleza… Não me conformo com as mortes prematuras de tantas crianças que mancham a América, nem com a violência do Brasil lacrada pela droga, o veneno… Por onde abriremos as novas picadas? Como serão as novas orações?  Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2012 –

Em que lugar está a fé? Talvez,  como escreve Mariás:

a consciência das minhas horas mortas me deprime imensamente… “

Assim mesmo quero que nós todos tenhamos um Feliz Natal!

“O próprio vestíbulo do hotel, por definição repleto de forasteiros, de gente – como eu – de passagem, produzia-me infinito desassossego e inveja: todos, até os que estão visivelmente esperando, descansando ou matando tempo, dão a impressão de saber tão bem a que se propõem, todos parecem tão atarefados, tão decididos, tão a ponto de ir para algum lugar cuja existência adquire sentido por aguardá-los, tão absortos em suas atividades presentes, ou iminentes, ou sonhadas, ou projetadas, que a consciência das minhas horas mortas me deprimia imensamente (…)”

p.29/ O homem Sentimental de Javier Marías

Grama molhada

Sono profundo… Não vi a tempestade passar. Árvores danificadas, objetos voadores, e muita água pesada se faz presente na grama úmida. Folhas lavadas, calçadas tomadas…

A manhã é fresca, e os passarinhos se agitam. Estou de volta.

As notícias descem lentas entre dívidas, futebol, assassinato e roubo. Nada mudou. Onde estão as crianças americanas?

DESENHO do Lucas

DESENHO

FrancoIsabellaAntoniaStellaJuliaMariaEduardoAnaClaudeMiguelRobertoFlávioFranciscoArthur

MarinaJoãoLucasPedro

JoséGuilhermeLuisLuizaAntônioCarlosRicardoMagdaSandraIsabelMartaLIla.VidaCorDoceAzulVerde

LeonardoAmareloVioleta

AnêmonaMaracujáChuvaTrovoadaLuzSaudadeAmadoOlharCasaFogo.Luz e tanto mar…

12/12/2012

Partida Definitiva

Ontem à noite, depois de sua partida definitiva, fui àquela sala do térreo que dá para o quintal, ali onde sempre fico no mês trágico de junho, esse mês que inaugura o inverno.

Havia varrido a casa, limpado tudo como antes de meus funerais. Tudo estava limpo de vida, isento, vazio de signos, e depois me disse: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que se acaba.

p.44 / O Homem Atlântico/ Marguerite Duras

Editora Record

Bilhete

Bilhete

Espero o silêncio. O eventual, não, o impossível. Devo confessar que o apartamento se alarga com vozes, buzinas, freios salientes… Que música! A sala se transforma na calçada, passarela apressada das pessoas.

Vou comprar um quintal com cinamomos e cerva viva. Cães, gatos e passarinhos, grama verde e perfume! Que luxúria! Transito entre a dúvida das certezas! Gosto deste meu eu, mas preciso das pessoas, do movimento, da fala, da expressão, da loucura dos outros junto com a minha. A contrapartida natural da minha cabeça na cabeça do outro. Interesses comuns, a mesma visão, o mesmo mar, e as mesmas andorinhas no fio de luz. Não, não posso ficar a reproduzir desta forma o meu duplo. É preciso janelas abertas pro vento, pro sol, pro norte e pro sul, mesmo quando nada compreendo.

Não adianta mudar de casa, ou esconder-me, tampouco dançar na rua… Trabalho duríssimo este de ser homem! Conhecer limite, e caminhar. Comer pipocas no cinema. Isto não aceito. Tirar os sapatos sim…