verdade e fato

Os fatos, e as verdades estão camuflados na pressa de viver, quase cansada, mas resisto… e vou de citação mesmo:

” A verdade filosófica, ao penetrar na praça pública, altera sua natureza e se torna opinião […]. A verdade fatual, ao contrário, relaciona-se sempre com outras pessoas: ela diz respeito a eventos e circunstâncias nas quais muitos são envolvidos; é estabelecida por testemunhas e depende de comprovação; existe apenas na medida em que se fala sobre ela, mesmo quando ocorre no domínio da intimidade. É política por natureza. Fatos e opiniões, embora possam ser mantidos separados, não são antagônicos um ao outro, eles pertencem ao mesmo domínio. Fatos informam opiniões, e as opiniões, inspiradas por diferentes interesses e paixões podem diferir amplamente e ainda serem legítimas no que respeita a à sua verdade fatual. A liberdade de opinião é uma farsa, a não ser que a informação fatual seja garantida e que os próprios fatos não sejam questionados. A verdade fatual informa o pensamento político, exatamente como a verdade racional a especulação filosófica.”(p.295-296) Hannah Arendt Entre o Passado e o Futuro – coleção Perspectiva (debates)

aonde, como, de que jeito eu me encaixo? nos dias de nada dizer, como expectadora, e como impulsiva… logo uma vontade enorme de contar de todas as ondas, as ruas asfaltadas, os pedintes que proliferam… ausências e apagões. Muito a escrever. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres

penso em ti todos os dias, todas horas, compulsiva, entregue, como te dizer?

outra fresta

abri a porta e espiei… pensei ver sol, verde e lilases, mas vi as frutas machucadas, picadas algumas, mas estavam bem machucadas… o estrago me espantou, foi tão de súbito! tem este olhar azedo cercando o mundo, hoje vou ficar vigilante! Vou mesmo. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres

engasgo

a palavra não sai: descrever parece inútil e bobo, assim mesmo, preciso, preciso, preciso voltar a escrever, a escrever e a pensar, derramar e deixar o engasgo passar, terminar. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres

dois limões

Se a janela sorri e o sol entra, eu me acomodo nas inquietudes, ah! escalam como a guerra! Comentar dois vestidos, ou da mousse, dos limões sicilianos parece loucura maior… Neste mundo de hoje esconder a cabeça, fazer roda de histórias parece descabelado. Verdade que o estremecido do mundo, e do Brasil amontoam interrogações. Ufa! Quebrei o meu bloqueio, mas as cartas não saíram do papel…Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres

uma vida superficial

“[…] os entes humanos, no mundo inteiro, continuam mais ou menos o que eram há cinco ou sete mil anos atrás.” (p.73)

Quanto mais intelectuais somos, tantos mais livros lemos, e adquirimos conhecimento e nos tornamos altamente perspicazes, dialéticos. Erguemos uma muralha, atrás da qual nos abrigamos. Somos emotivos, tornamo-nos muito sentimentais, queremos prestar serviços, entregar-nos de corpo e alma à reforma social, influir em outros, tentar guiar, ajudar e transformar a sociedade. Tudo isso é superficial em extremo. Como se explica que os entes humanos, após tantas experiências de guerras e constantes batalhas, tanto no interior como no exterior, com todas as aflições e sofrimentos que acarretam, física e psicologicamente, como se explica que os entes humanos continuem a viver superficialmente?” (p.74) Krishinamurti – o mistério da compreensão

inércia

Este estado me parece o melhor de todos e com certeza de maior angústia – seria, inútil? Qualquer coisa esconde o corpo, uma camisa / um saco, já um monstro, ora com cabeça, ora sem, mas nunca faz acontecer… Os monstros de pelúcia empilhados num pega-pega de bichinhos. Deste nada, um dia de sol, de ar, de tempo se estreita e se apaga no sono, cheio de atropelos, a ver / a querer sonhos. Por que existe a doçura que me cuida faço pequenas coisas dirigidas: exigências essenciais de fazer a Ônix reagir aos seus quinze anos esticados. Há que se ter projetos, métodos, coerências. Por que perdi estes detalhes todos e o espírito vaga, indefinido… Sento ao lado da minha amiga Maria Sofia para absorver a paz azul que ela traz no sorriso. Ouço as histórias com o espanto de menina. E como menina, impaciente, pouco gentil, perco as horas. As brincadeiras de correr, pegar, ir aqui e ali me parecem todos essenciais… Eu a deixo no banco da praça a me esperar. Lembro que preciso priorizar, harmonizar e empilhar as vontades. E numero, vou riscando com um lápis o capricho que extrapolo, disfarço até o relógio soar hora de entrar…

Todos as minhas vontades se perdem neste inquieto deslize / fuga / desvio de ouvir, ouvir, ouvir, não concluir. Por que preciso, de fato, realmente, entender às voltas e os trancos quando nada mais será como antes? Apenas o atropelo aflito de saber que embora a razão exija, existe a loucura se adianta… Se ontem eu confiei e entreguei um ramo de jasmins e duas rosas, hoje levaria /levei espinhos sem flores. É aquela decepção que se acomoda no coração. E uma impaciência caprichosa. Por que ser eu quando de fato, na verdade, existo, como/ou sendo um arremedo de vontade sem vontade? Arrumar a mesa. As gavetas, os armários, empilhar os livros, esfregar, polir e lustrar evidencias. O esforço de representar / projetar / querer sem nenhuma, nenhuma vontade… O plano, o esboço, o projeto? Preciso encontrar para conseguir… A camisa de força para segurar a loucura. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres aniversário do Guilherme / e a corda dos aniversários está carregada de enfeites festivos

retocar

retocar é uma palavra boa: tocar pode ser perfeita a que se completa: faz voar / vários sentidos…escuto o piano, tocar!, ou toco nos teus braços e com meus olhos, eu toco o teu desejo e te beijo. tocar outra vez, retocar é voltar, refazer, outra vez e nesta vez aperfeiçoar… este afeiçoado que sinto pela vida me faz desejar sentir tudo outra vez, viver mais um pouco, apertar enquanto toca… que vontade tenho de ser em algum momento obcecada pelo desejo de te tocar / e tanto este toque que eu te escuto. escuto o teu gemido depois… Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2024 – Torres