o coração sacode com a ventania, com a perda…

Uf! escrever e dizer e voltar, reafirmar pode ser um ato de coragem, um fazer com velocidade de exaurir, de tirar o folego!, o chá esfria, o café fica morno, o bolo murcha, e as laranjas perdem o gosto… Não se trata de desistir. É como acordar no meio da noite, no meio do sonho, e reafirmar a vida. Algumas escolhas parecem ter sido complicadas, linhas cheias de nós, perdas ou esquisitices mal compreendidas. Mas se trata de um deixar para trás justo, esperto e bom. Inesperadamente reaparece hoje/agora como se fosse questionamento, mas não é não, não pergunta nada, nem explica lá, elucida. Levantar a tampa do poço, conversar com a bruxa, encontrar a fada, mas o feitiço é este agora liberto. Enfim! Aquelas conversas necessárias, internas ou musicadas, urgentes. Terapia. Medo de remexer com os amigos, possíveis inimigos, mas perigosas conversas a se fazer com o amado de amor. Uma volta ao campo de guerra, meio da batalha sangrenta, de lucidez estúpida, mas de boas escolhas. Aquelas pessoas do passado, ou morreram ou continuam nas mesmas rodas repassando vidas alheias, ou jogando, cartas, fuxicando no bom ritmo da mesmice, imóveis. Afinal o que significa? Certamente não os fatos, nem as pessoas… Ah! Não posso generalizar, os sentimentos são os meus, os doces açucarados de Pelotas, os filé do restaurante Santo Antônio, aqueles fins de tarde a desfilar no Barranco…, pois é, meia dúzia de cintilações esvaziadas quando…

Minha vitória prosaica está na cozinha higienizada: pratos e panelas em ordem. Cheiro da limpeza. Aspirador ativado, missão cumprida depois de dois dias escondida nas penas do acolchoado. Impaciente com as notícias televisivas tendenciosas. As folhas do jornal acalmam. A notícia se repete, mas o jornal acalma. Lamento, choro, fico gelada por dentro: meu amigo Walter Galvani se despediu. O silêncio do vírus silencia lamentos. Morte silenciosa. Reverencia -se o silêncio. Elizabeth Menna Barreto Mattos -junho de 2021

acesso de honestidade

…,inacreditável como todos viraram virgens vestais honestas, e, magnificas! A tentativa de jogar diferente / do novo (os pecados são maiores do que o mundo, antes eram veniais…risos) e o antes, o antes brilha no céu do correto! há qualquer coisa no ar que não deixa respirar, excesso de frio, talvez, de calor. As cabeças ficaram com moleira de recém nascidos puros…, resistentes. Inacreditável esta roda! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 – TORRES compro margaridas e mistura com rosas e cravos, ainda não sei do perfume, vou descobrir, sem assistir televisão, claro!

Simone Jockymann

palavra, suspiro, voz congelam neste junho ameaçador / dor e desencontro no Brasil, mas em Torres as mimosas floriram e os jasmins apontam, ouço tua voz a me chamar, estou indo! – festejo o aniversário da Simone Jockymann com bolo, chocolate quente, conversa com/em sanduiche: piano e canções. Nossa alegria saltando em ciranda. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 –

lambuzar pincéis

Feitiço e palavra: mágico sentimento: porão de sensações! E sou eu, e és tu, e somos nós, a desafiar o equilíbrio deste silêncio e do grito, e do gozo. Corpo, saciado, agradece, inverno gelado se espanta… Olhar estarrecedor traduz o alegre feliz. A juventude dá uma volta no que pensa/parece/se diz envelhecer: “É uma decisão e não opção.” Não existe música, nem movimento, nem dúvidas ou lástimas queixosas. “Se tiver que violentar pudores é menos danoso do que perder a oportunidade de dar-se prazer. Romper barreiras.” Beth M.B. Mattos a colorir na aquarela, a ler no desenho. Lambuzar os pincéis e mergulhar no copo a transbordar: estamos esparramados no violento sentimento de rasgar, plantar e fazer explodir.

Ntozake Shange

Há um verso em for colored girls who have considered suicide / when the raibonw is enough, Ntozake Shange. Na peça, a mulher de roxo fala depois de lutar para lidar com todos os aspectos físicos e psíquicos de si mesma que a cultura ignora ou deprecia. Ela se resume com estas palavras sábias e pacíficas:

here is what i have…

poems

big thighs

lil tits

&

so much love*

é isso o que tenho…/poemas/coxas grossas/peito pequeno & tanto amor

(p.267) O corpo jubiloso: a carne selvagem in Mulheres que correm com os Lobos – Clarissa Pinkola Estés

corrupção = a

ter ou não corrupção equivale ao número de picolés e pacotes de sorvete de chocolate que um congelador comporta: se vivemos doze, ou treze ou foram quantos anos? sei lá. quanto de tempo anos engolimos a violenta palavra?, agora vivemos/estamos/ temos a se remexer no estômago uma indigestão colorida: todos, confortavelmente, sentados nas suas cadeiras administrativas: ninguém quer picolé ou sorvete de chocolate. Esperam a safra dos morangos…ElizaBeth Mattos – junho de 2021- Torres – Céus! não tenho ideia de como farei para chegar mais perto, estão eletrificadas as cercas, e tanto/muito barro…revolta

lágrima – poder criativo

Eu disse que alguns livros voltam..., as leituras nunca são/serão definitivas, datas também não. Esquisitices humanas. Mulheres Que Correm Com os Lobos de Clarissa Pinkola Estés, impressiona. O texto não se fecha numa ideia emotiva, nem tesão ou sensação, nem caça pela caça, mas aborda uma reflexão – pensamento. Arranca um motivo. “Amar o outro não basta. Não basta ‘não ser um estorvo’ na vida do outro. Não basta ‘dar apoio’, ‘estar disponível quando necessário’ e tudo o mais. O objetivo é estar familiarizado com os métodos da vida e da morte, na nossa própria vida e numa visão panorâmica. E o único meio de se chegar a ser um homem familiarizado consiste em aprender a lição nos ossos da Mulher-esqueleto. Ela está esperando pelo sinal de sentimento profundo, por aquela única lágrima que diz: ‘Admito o ferimento.’ Essa simples admissão alimenta a natureza da vida-morte-vida. Ela cria o vínculo e faz com que comece a surgir no homem o conhecimento profundo. Todos nós já cometemos o erro de pensar que uma outra pessoa podia ser nossa cura, nossa emoção, nossa realização. Leva muito tempo para se descobrir que isso não existe, especialmente porque pomos o ferimento na parte externa em vez de ministrar – lhe a cura dentro de nós. Talvez não exista nada que uma mulher deseje mais de um homem do que a atitude de ele desmanchar suas projeções e encarar seus próprios ferimentos. Quando um homem enfrenta seu ferimento, a lágrima surge naturalmente, e suas lealdades internas e externas se tornam mais fortes e definidas. Elas se transformam no seu próprio curandeiro. […] Ele não tem medo de desejar, porque acredita que sua necessidade vai ser satisfeita,”(p.197-198) – e, não basta, mas é o começo, pensar, derrubar o proibido, amar pelo amor de amar… como podemos ser frágeis e evidentes! … eu posso dormir no teu abraço. E vou até o final. Seguras minhas lágrimas, passas a mão no meu cabelo, e embalas meu sono. Junho de 2021 – Torres – Elizabeth M.B. Mattos ” Não é de espantar que na nossa cultura coexistam a questão de esculpir o corpo natural da mulher, a questão correlata de entalhar a paisagem e ainda a de retalhar a cultura em partes que estejam na moda. Apesar de uma mulher não ter condição de parar a dissecação da cultura e das terras da noite para o dia, ela tem condição de interromper esse processo no seu próprio corpo.” (p.256)

2004 2014 2021

Quatro autores conversam, e, se fecham. Em circuitos particulares. Personagens e sentimentos… Outra vez, a estudar. Exigente, embora amolecida pelas horas. Dias fantasiados se sacodem exaustos, insones porque vigilantes. Tudo se alinha, mas tão absurdamente sem sentido! Pobre. Sem sentido nem explicação. Incompreendidas angustias. Sobressaltos autoritários, talvez poderosos. De tal forma poderosos que escravizam em exigências silenciosas. Num repente a relação-união queima como sacrifício, imolação. Difícil acertar na liberdade de ir e vir / avançar ou recuar.

Relações deveriam ser oxigenadas / livres, não pedras. E os sonhos, sonhos, não dívidas ou pesadelos. Relações sem falsas imagens nem teatro. Que a sombra fosse arejada, sombra de árvore bem plantada. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 – Torres – anotações de 2014 – chegando a 2004, sem urgência – debruçada em 2021 no embalo do inverno)