Eu me lembrava de ter lido não sei onde que Belloz observava que, quando a desordem anda nos espíritos, as leis tornam – se numerosas e são sem cessar as reclamações de novas leis que nada conseguem, porque o indispensável é reformar os espíritos, para o que elas são impotentes.” (p.48) Lima Barreto – Diário íntimo Fragmentos – Mercado Aberto – 1997
A releitura devolve o tempo. Reflexão. Um amontoado de passado nos livros lidos / relidos. E já escapa porque envelheço, eu me agarro nos galhos da alegria. Eu me enfio nas malas dos filhos, e dos netos para estar com eles, onde estiverem, invento. Não muda o destino. Não permanecerei, sou transitória. É preciso dizer adeus. Perdas são encontros internos. O Planeta Terra deve permanecer, mesmo ao se transformar: ele é o infinito. Ou também não é? Beth Mattos
“O homem é um anfíbio que vive simultaneamente em dois mundos – o mundo da realidade e o mundo por ele próprio fabricado – o mundo da matéria, da vida e da consciência e o mundo dos símbolos. Quando pensamos, fazemos uso de grande variedade de sistemas de símbolos: linguísticos, matemáticos, pictóricos, musicais, ritualísticos. Sem esses sistemas de símbolos, não teríamos arte, nem ciência, nem lei, nem filosofia, nem sequer rudimentos da civilização; em outras palavras, seríamos animais. Os símbolos são indispensáveis. […] As soluções coletivas, a que muitos se apegam com tanta fé, nunca são adequadas. ” Para se compreender a miséria e a confusão existentes em nós mesmos e, portanto, o mundo, temos de encontrar dentro de nós mesmos a clareza que nasce do Pensar correto. Tal clareza não se presta a organização, pois não podemos permutá – la entre nós. O pensamento do grupo organizado é puramente maquinal. A clareza não é resultado de asserção verbal. O pensamento correto não é produto ou mero cultivo do intelecto, nem é tampouco, conforme a padrão algum, por mais digno e nobre que este seja. Ele vem com o autoconhecimento. Se tu não te compreendes, não terás base para pensar; sem autoconhecimento o que pensas não é verdadeiro.” (p.7-10) Aldous Huxley – prefácio do livro a primeira e última Liberdade Jidu Krishnamurti / terceira edição Cultrix 1972
“Este constante ‘vir a ser’, alcança um estado após outro, gera contradição, não é verdade? Por que então, em vez de encararmos a vida como um desejo permanente, não a encaramos como uma série de desejos transitórios em oposição entre si? A mente não tem necessidade de viver em estado de contradição. Se considero a vida, não como um desejo permanente, mas como uma série de desejos temporários, que variam constantemente, não há mais contradição.” (p.63) Jidu Krishnamurti – a primeira e última Liberdade
Felicidade. O novo começo já começou. “Como posso ter certeza de que estou vendo o que fazer? Krishnamurti: Você não pode ver o que fazer, pode apenas ver o que não fazer. A negação total deste caminho é o novo início, o outro caminho. Este outro caminho não está no mapa, e não pode ser colocado em nenhum mapa. Todo mapa é um mapa de caminho errado, caminho antigo.” Acho/suponho/ penso que estas palavras ilustram bem o que devo fazer agora da minha vida. O importante é encontrar o novo caminho. Aquele lugar onde serei eu mesma sem as pressões externas. Coragem para vencer barreiras, passar fronteiras em direção ao que eu realmente quero. O difícil é desenhar/mostrar/saber/ entender o que eu quero. Escrever basta? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro – 2021 Torres
1966 – Rio de Janeiro – quando ler seria/era/ mais do que leitura, mas compromisso acelerado com meta e descobertas
Tens razão, precisava deste encontro com as francesas. Foram três dias intensos: exercitei conhecimentos de língua, pensei francês. Discuti a pesquisa, alinhavei novos aspectos pertinentes: psicanálise, vida interior. Senti o sol. Caminhei na areia, mergulhei no mar. Deixar – se ficar para ver as pessoas. Bebericar café, comer doces, pensar sorvetes e rir / sorrir. Vi e reconheci amigos; falei com quem não falava faz muito tempo /tanto tempo! Livre e feliz. Por quê? Porque estava/eu me sentia reconhecida, integrada, dona de mim mesma a fazer aquilo que sou eu. Como é importante estar no teu próprio universo, compreender necessidades, e entender o que está por dentro, O meu conceito. Definitivamente, preciso concluir o Doutorado. As portas abrirão para novas oportunidades. Nunca mais amarrada, mas pronta, independente. Intelectualmente livre, fisicamente solta, completa. Quero encontrar a minha forma de escrever e quero te amar. Continuar enamorada. Viver a paixão como uma transgressão exemplar, de direito, como valor. A nossa paixão erótico-sexual. Pensar amor. E o prazer surge e se afirma como direito, sem culpa. Estar enamorada, desafiar instituições e buscar outro valor. A natureza do amor reside nisso, em não ser apenas capricho pessoal, mas movimento portador de projetos. Estou acostumada a medir cada coisa pelo padrão do tempo físico do relógio (com lente de aumento). Esqueço que na sexualidade extraordinária do amor, o tempo é diferente. A minha saudade não conta os dias, mas se agarra na lembrança do teu corpo, no suor, no cheiro, no desejo. Para nós dois, agora, uma noite juntos corresponde a mil ou dez mil anos. Neste estado tem-se, exatamente, a eternização do presente. O impulso vital à procura de novos e diferentes caminhos. A sexualidade se transforma, explora a fronteira do impossível. Horizonte da imaginação. Da inteligência à imaginação, ao ardor como explorou Vladimir Nabokov, direto à paixão: desejo de te beijar inteiro. Ter – te outra vez, deixar – me tocar, apertar. Beijo queima o corpo. A fusão da paixão subverte, transforma, rompe laços anteriores. A força revolucionária de Eros restrita a duas pessoas. Assim, quando te penso eu sinto cheiros que não sentia antes, percebo cores e luzes que não via habitualmente. Ainda quero assistir o filme pictórico contigo. Nossa vida intelectual se amplia, percebo relações anteriormente inexistentes e obscuras. Um gesto, um olhar, um movimento, percebo teu passado, infância. Sorrindo neste momento: eu te vejo arrumas as roupas para a viagem, colocar na mala os sentimentos para usares comigo. Posso compreender teus sentimentos, os nossos. Posso sangrar, mas sigo no desejo. Intuímos, tu e eu, o sincero e o falso, nos tornamos sinceros. Eu te espero. Tu me esperas. Estamos prontos, os dois. Ah! Meu querido! Desejo de estar no corpo do outro, um viver e ser vivido, fusão de corpos que se prolonga como ternura pela fraqueza, ingenuidade, pelos defeitos e imperfeições, assim amamos. Posso aceitar as desculpas, o pedido de perdão… Eu agora estou apaixonada. Identifico as mãos, a forma do rosto, a massa quadrada do teu corpo, a voz, o teu nariz, a boca, o cheiro. Os sinais. És tu, somos nós. Perdoa se te escrevo num mar tumultuado de contradições de perda e encontro. De saudade. A espera de uma hora se converte na espera de anos, de séculos. A nostalgia do instante da felicidade… Basta uma breve separação para ter certeza de que és inconfundível. Eu te quero do mesmo jeito que tu me queres, sem relógio, existe apenas a urgência do abraço, do beijo. Não há palavra, mas toque. Chegar indo embora… Então, volto a te imaginar. Divido casa, comida. Também o rádio, o futebol, a música e o meu silêncio. Estamos, os dois, juntos, lado à lado, no mesmo espaço, no mesmo mundo, diferentes, juntos, nós. Quando o fruto aparece, a flor desaparece. Nós nos propomos coisas irrealizáveis. Posso pedir felicidade, mas felicidade não é uma coisa. Posso perder minha medida. Posso comer bem se assim te agrada, mas se estou/sou apenas eu, não me importo. Para te encontrar e ficar contigo, estou disposta às viagens cansativas: dormirei nos teus braços tão logo chegue. Não comer, não dormir não importa, agora. Nada me cansa porque estou feliz. Talvez no dia a dia eu não suportasse viver assim, mas agora, agora respiro. É essencial eu te encontrar. Por isso, se me chamares por/ao telefone, tão logo leias as minhas cartas, estarei /irei correndo ao teu encontro. Não há contabilidade possível. Confissão e absolvição. Eu te amo nesta corrente. A exploração do possível, o esforço de chegar… O perfeito é estar no teu abraço, quieta. Elizabeth / Eliza / Liza M.B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres
Torres, amanhece sombrio e lento, lento e esquisito como pode ser esquisito o tempo de epidemias e medos e inquietudes. Onde o bom senso e a lógica? Em círculos, enfeitiçados pelo medo… E o príncipe não chega, nem a rainha acorda, o ditador dormiu, a luz se escondeu, o sacerdote boceja. Feiticeiros gargalham… E o povo acorda, dorme e se reproduz como se a vida fosse mesmo comer, beber e copular. Esqueci a música. Voz e tempo se diluem: mais cedo termina o dia, mais depressa adormeço. E acordo estupefata. Por que outro dia? Quero outro mundo, outro caminho para ser eterna.
Impaciência e cansaço crônico. Zero vontade para limite. Cercas me aborrecem. Cercadinhos gramados, floridos irritam. Conversas fúteis e adocicadas da/na mesmice. Ah! Se a raiva explodisse a solução! Gritos com pernas, braços decidem o que fazer. Não tenho paciência para disputas amorosas, desencontros esquerdos. Quero o amor pacífico e silencioso do prazer intenso e da beleza transparente, líquida. Tintas coloridas assumem o mundo: pinceladas esquerdas, ou contínuas, interrompidas ou desenhadas e lá está…Elizabeth M.B. Mattos (10/01/2021 06:29:31)
Tenho desenfreada paixão pelo dia 9. Talvez por ter nascido no dia 9 de setembro (9) morado na casa 229 da Vitor Hugo, e o telefone era 32479 e o pai também tinha uma numerologia que recai no número 9… Curiosidades estranhas da memória. Em 1999…, vou contar a história outro dia.
Atordoada! Trovoadas e voltas / perdida naquela/nesta curva, assustada. Desculpas se espalham. Esta palavra não quer dizer luz decodificada: sem cor, linha, significado. Recomeço / eu recomeço. A festa engole a voz. Foguetes, eles ensurdecem… Tanto tanto tanto calor! Sufoco. Que venham as noites, e soluções. Quietos os sonhos, vou recomeçar, devagar. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2021 – Torres
Numa caixa que deveria desaparecer, quando amontoamos este mar de papel e cansados vamos nos desfazendo….e, por que isso assim tão atabalhoado? Coisas de gente desorganizada. Não sei. As mudanças de lá para cá: escrever e ler e anotar ordenar desorganizando… Prioridades? Pode ser. Não sei. E já janeiro de 2021 e o Capitólio foi invadido por vândalos nos Estados Unidos. E o mundo se remexe revoltado por isso ou aquilo, facas e tiros, morte e gritos, assim voltou a ser viver. Beth Mattos – Torres – janeiro de 2021