Estou a fugir e a me esconder da sombra: escamoteio passos e pensamentos. Perco o rumo. Atrapalhada/confundida com sombras e viés. Não consigo retomar o ritmo de ser eu comigo. Emaranhado de sol sem sombra, e tão completamente escondida noutro verão… Velhos aparelhos eletrônicos obsoletos me fazem falta. Esta noite eu senti frio. E o verão está refestelado na praia. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020 Torres
Lawrence Durrell
Talvez estes livros me interessem além da medida. É uma forma de conversar, conversar. Tenho poucos amigos, ou melhor, converso pouco. E gostaria de poder falar, falar e falar sobre o falar ele mesmo. Eu pulo de assunto para assunto como se fosse uma questão de humor, ou gosto, ou não sei… Acho que não faz sentido isso de apenas usar palavras, empilhar, ordenar e desordenar, depois esquecer. Ler pode ser como ouvir/escutar indefinidamente alguém. Esta danada solidão! Houve um tempo de acerto e encontro. Quando Geraldo e eu moramos em Petrópolis no sitio Arapiranga, e eu nada sabia de Rio de Janeiro. Os dias e as noite e o fazer e as conversas eram fáceis e a sensação de viver mágica. Um dia fica tudo tão difícil! E todas as idades se acorrentam prisioneiras, e apertadas. A liberdade e o desdobramento de ser eu comigo, tu contigo é que importa. E outras vezes ter o dinheiro para pagar as contas triviais importa, como um peso pluma, e os valores se invertem. Não poder levar o dia grudado no dia, e a noite na noite pode ser um pesadelo… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2020, depois do dia nove.
“[…] Pode ser que eu não tenha muita personalidade para desenvolver – me. Meu interesse pela forma poderia ser – estou falando seriamente agora, não modestamente – a indicação de um talento de categoria inferior. Mas a gente precisa enfrentar estas coisas. Não tem nenhuma importância que se fracasse uma, duas, três vezes, mas é de vital importância que a água encontre seu nível e que se faça o melhor que se puder com as forças que lhe são dadas. É perder tempo lutar por coisas fora de nosso alcance, da mesma maneira que é absolutamente imoral ser indolente a respeito de qualidades que se tem. Compreendam, não estou fundamentalmente interessado no artista. Uso – o para tentar ser um homem feliz, o que é uma tarefa muito pesada para mim. Eu acho a arte fácil, mas a vida é muito difícil.” (p.291-292)
Julien Michell / Gene Andrewski Escritores em Ação Coordenação e Prefácio Malcolm Cowley
relações familiares
Precisamos controlar nossos instintos assassinos. Somos exigentes demais, Ou de repente, uma asa negra e venenosa cobre a casa. Perigos da vida. E.M.B. Mattos – fevereiro 2020 – Torres
um vestido
vestido sem memória... (a história se prende no gancho da tua memória)
invasão
Qualquer Eu és Tu. Qualquer fresta, o outro/a outra. Alguém. Invasão sorrateira, mortal. Rastro, odor estranho/bizarro, ou gosto de leite? Não. Gosto de chá preto, parece café, mas dizes ser vinho… Não importa, indiscrição. Atrás de cada frase, ou de cada palavra tu te agitas incomodado, eu recuo. Complicada. Cada vez que conto/investigo/ventilo ou…, sei lá! Céus! Digo sem pensar. Esbravejas! Não posso contar o que imagino/desejo no jogo de ser Eu. De manhã acordo doce, de tarde esquisita, de noite desconfiada, e na madrugada, apaixonada. Ora, ora? Qual a melhor hora? Graças! Os livros e as releituras de ocasião. Escreve/diz Saramago (risos), confabula! Em Manual de pintura e caligrafia. E lá vou eu… “Será agora tempo de deserto? E porquê de deserto? Por ter Adelina saído também da minha vida, como reza a consabida e estupida frase que presume poder alguém estar na vida de alguém? E que é, afinal o deserto. Aquele que o Lawrence da Arábia contemplou, na fita, durante uma longuíssima noite? É uma cena de efeito seguro, bem pensada, mas, se formos ver, pouquíssimo original. (p.153)
Verdade! Não consigo ser original. Como não me autorizo contar histórias familiares (não me pertencem). Pai e mãe, tantos e tantos filhos nas memórias embaralhadas com gosto de entretenimento, bem que eu me atrevo e conto, escrevo nas gotas. Não temos nada apenas nosso. Deságua no mar, se consome na terra, ou se espalha no céu. Céus! Tudo gasto, usado e rasteiro. Se Cristo não tivesse morrido naquela cruz, diz Saramago […]”a história dos homens e das suas obras; tanta gente que não se teria emparedado em celas, tanta gente que teria morrido de diferente morte, não nas santas guerras nem nas fogueiras com que a Inquisição respondia a si própria, ela relapsa, ela herética, ela cismática. Quanto a estas tentativas de autobiografia em forma de narrativa de viagem e de capítulo, estou que haveriam de ser diferentes também. Por exemplo: que teria pintado Giotto na capela dos Scrovegni? as orgias pânicas duma mitologia prolongada até esses dias, se não a estes?[…] Estupendo! Segue. (p.154- 156)
Avanço avanço em narrativas escorregadias e vacilantes de uma Beth inventada, ou de uma Elizabeth surtada, esquisita e perdida num dizer derramado na/da experiência deste e daquele, daquela e daquela outra, misturadas coloridas . No sentimento, mas muito/bastante no outro (o que me esqueceu/ ou eu esqueci). Esquisito e esdrúxulo sentir da noite que já amanhece.
“Abandonados, deixados, desistidos, ou despovoadores nós e fabricantes do ermo.” Frase a pensar. Depois.“Abordei a consciência disto quando comecei a escrever: todo o meu esforço consistiu, afinal, em recuperar o deserto, para (tentar) compreender depois aquilo que ficasse, aquilo que ficou, aquilo que ficar. A solidão, decerto, mas talvez não a esterilidade. Desabitado, convenho, mas não inabitável. Seco, mas com água dentro, terrível água de lágrimas, frescura possível sobre as mãos duas moléculas de Hidrogênio e uma de Oxigênio. A água primordial e o que nela se suspende. (p.157)
Reencontrar o eixo. Saber, afinal, que este eixo sou eu mesma, e não as possíveis Adelinas, ou Flávios imaginários. Augustos, Antônios, Manuelas ou apenas o Francisco ou quem sabe o José? Não. Sou eu mesma e o amor quando o amor encontro depois de viver aos pedaços esta ou aquela Adelina sempre na tentativa de abandonar o deserto. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres
angustia embalada
Tenho pensado na vida, na beleza nervosa de tua mulher, e no encantamento triste e perdido e choroso da tua filha. Entro devagar na angustia embalada. A morte/ perda de pai e ou de mãe, ou de um amigo precioso, consolo. Se existe consolo, pode ser a luz do recomeço. Dentro da escuridão da solidão… Outra percepção, outras afirmações, e …. Não aplaca sofrimento, mas as pitangueiras já florescem por aqui, e amadurece o fruto. Imagina a explosão.
Não consigo chegar mais perto. Eu me consolo no teu consolo. Vou tatear ao encontro porque há barreiras de compreensão. Brinco com palavras… Precisas entrar no meu quintal, sentar na minha sala e me estender a mão. Teu mundo é maior, muito, muito maior. Teu olhar teus sonhos tuas possibilidades chegam/estão nas estrelas não posso te trazer até Torres, ao Brasil. As praias são pequenas… E eu sou pequena. Não posso/não vou/não consigo me alongar/aventurar no teu mundo. Não compreendo/não sinto este melhor dos mundos possíveis que se chama América do Norte. Tenho dificuldades de ir até São Paulo. Ou ao Rio de Janeiro. Voltar a Recife para me aconchegar. Estou presa dentro de mim mesma. E envelheço perto da loucura, agarrada na lucidez e acomodada… Seria preciso mais, muito mais para florir, desabrochar, um esforço grande para chegar nas tuas estrelas. Estou “No Melhor dos Mundos Possíveis” como diz Voltaire no seu Cândido. O meu quintal, entre duas cadeiras, entre o mar e as montanhas. Entre a paciência e a impaciência. Sou egocêntrica. Os meus livros importam. Vozes se cruzam entre leituras, escritos e enormes, gigantescos silêncios. Conversas necessárias se enfeitam e vou dizer o que não tive tempo dizer, fazer ou completar. Mas, na verdade, já passou. Lamento a distância. O silêncio. O telefone. Estar/ir até a praia, ou ao salão beber chá, almoçar, e muito me conectar, e te esperar. Ou ainda ler e escrever. Escutar Mozart ou Wagner, ou Liszt. A ponte possível que não construí, tu construirás. Tua engenharia pode, e eu não entendo/sei das engenharias. Nem do céu e das estrelas, dos planetas, do infinito. Da morte e da vida. Muito pouco do amor / da saudade e desta emoção que aperta/aproxima/conecta seres vivos de carne e osso. Eu transito pelas beiradas. Estou do outro lado do mundo. Escreve, meu querido. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020
desacerto
A vida é um desconcerto, mas merece aquele refrão do Gonzaguinha numa das mais belas definições dela que conheço: “Mas isso não impede que eu repita: / É bonita, é bonita e é bonita”.
cartas noturnas
da insônia, aos amigos: palavra, e carinho
da irritação à doçura
Ah! Que inveja tenho do intenso, atrapalhado e perfumado jeito de amar! Explicação com ou sem juízo. Descabelado e perfumado: intenso e amado! Rosas cor de rosa, as amarelas e as despetaladas margaridas. Quero violetas! E tu me trazes… Beth M.B. Mattos – janeiro de 2020 ainda, definitivo, em Torres, mas amanhã vou para São Paulo, e não volto mais.
Emily Elizabeth Dickinson
Livros voltam como memórias de construção/ ou reconstrução. Por que morar em Rio Pardo ou Santa Cruz do Sul. E Torres? Recomeçar em Porto Alegre. Quanto tempo!? Petrópolis outra vez, depois Independência, e Moinhos de Vento. Jardins floridos. O caminho, o tempo de seguir em frente / ou tirar tudo do lugar para brincar de azul, depois o amarelo se transforma em verde. O contorno com carvão fecha o branco em/com riscas cinzas… Uma experiência. E o definitivo. Voltar a trabalhar nas escolas, no tempo mesmo de trabalhar. Esperança de conseguir desenhar outra vez. E volto a desejar Porto Alegre como se fosse uma saudade amorosa. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres

Moro na possibilidade,
Idwel in Possibility –
Casa mais bela que a prosa,
A faire House than Prose –
Com muito mais janelas
More numerous of Windows –
E bem melhor, pelas portas
Superior – for Doors –
De aposentos inacessíveis,
Of Chambers as the Cedars –
Como são, para o olhar os cedros,
Impregnable of Eye –
E tendo por forro perene
And for an Everlasting Roof
Os telhados do céu.
The Gambrels of the Sky –
Visitantes, só os melhores;
Of Visitors – the fairest
Por ocupação, só isto:
For Occupation – This –
Abrir amplamente minhas mãos estreitas
The spreading wide my narrow Hands
Para agarrar o paraíso.
The gather Paradise. (p.45-46-47)
Poemas Escolhidos
LPM Pocket Plus Seleção, tradução, introdução e notas e Ivo Bender
