não sou escritor

Afinal, a história é mesmo um grande monólogo. Não sou escritora. Converso escrevendo. E como vivi muitos anos sozinha, nem sei mais dialogar, vou logo preenchendo o silêncio, ponderando, perguntando, e eu mesma, respondendo: monólogo. Ao telefone? Faço a mesma coisa. Movida por uma ansiedade galopante, ardida, falo rápido, muito, e o interlocutor fica a caçar o assunto. Exausto, desiste. Ou grita: Escuta! Quero falarDeixa-me contar?
Difícil ambientar onde a história acontece, como é o lugar, em qual cidade. Importa? Explicar o vaso das rosas artificiais, as grandes aberturas para gigantescas áreas externas, vazias. Sem verdes, uma ordem definida pelos anos, mais precisamente, uma mudança definitiva para este apartamento. Nenhum detalhe, não fosse aquele anjo de cera, e as fotos, muitas fotos que se espalham pelo corredor. E é bonito isso, como se a vida brotasse naquelas pessoas a sorrirem, a manterem suas melhores roupas, e as crianças todos, engomadas. Gosto, particularmente, de corredores. Em algumas casas são colocadas estantes, estantes inteiras de livros, com uma porta de armário para lençóis e cobertores. Gosto! Também conheci um corredor que se transformou em galeria, pequenos quadros, e depois um enorme! Uma pintura linda de Fukushima! Tiveram o cuidado de iluminar adequadamente. As obras de arte precisam de luz indireta para não danificar os quadros, e um ambiente climatizado adequadamente. Sem humildade. A parede não deve ter nenhum cano que leve água para banheiros ou cozinha. Eu mesma imaginei um estranho e lindo corredor de espelhos. Podiam ser de todos os tamanhos, com molduras, sem molduras. Como um túnel! Alguns podiam ser distorcidos!
Aqueles olhos espertos, redondos, uma boca expressiva, o cabelo puxado, sempre arrumado, unhas feitas, impecável ao acordar com a leve maquiagem, e a gentileza diária. Encantadora. Enquanto bebe o chá vermelho, aromatizado, fica folheando as revistas, passa os olhos, minuciosamente, pelo pequeno jornal, algum assunto bombástico?! A Guerra na Crimeia, a morte de Alain Resnais, o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes joga lixo no chão! O lançamento da coleção Inverno, falta uma semana para terminar o Verão. Ah! Estes escandalosos filmes do Oscar. Ela levanta inquieta para se livrar daquilo tudo. As revistas ficam abertas. O jornal, metodicamente, vai para o monte. Alguns hábitos, fazeres, cruelmente colados à pele. Levantar e esticar os lençóis. Bocejar, espreguiçar para que o dia se levante antes dela, nunca ao contrário. Reclamar deste ou daquele ruído, separar a roupa que deve ser passada. Outra vez senta na cadeira de orelhas. Pega um livro para ler, um dos que já leu porque a história é doce, romântica, e todo o amor entre eles justifica a vida presa no casarão, rodeada pelos filhos. Naquela época o jardim tinha / tem / teria flores, o gramado, perfeito. A piscina  limpa. Aos finais de semana, longos passeios. Boa comida. Mas também comedido, num ritual inglês com aperitivos, drinque, conversa frívola sobre o fracasso de um romance local, uma traição, a voz irônica do filho para com o pai. Curiosidade sobre liberdades impróprias da moça que mora na outra esquina. Os costumes constrangedores de uma modernidade, que seria então decadente. Hermínia concordava, alongava a explicação. E ambos ficavam satisfeitos com tanta compreensão mútua.

Lucia não pretende ver nenhum dos filmes. Questão fechada. Não vai ao cinema. Cinema, fuga gostosa… Vai assistir televisão, passiva. Escolhe-se ao programa adequado ao espírito. É assim como escrever. VUPT! Passou o tempo.

Já nem lembro mais porque resolvi escrever, e agora comi demais, sem apetite. O que pretendia escrever diz respeito a morte. Ninguém quer morrer, ninguém espera morrer, mesmo quando diz: Eu sei que a hora chegou… É a doença a doer, a determinar. Então, todos os seres sadios repetem: ele escolheu, ele não se cuidou, ele quis assim. No fundo não queremos nada. Não queremos porque sequer sabemos o que devemos / deveríamos, de fato, querer. Atentos ao fluxo ziguezagueamos tentando, como se escolher importasse. Na verdade, é aleatório. Viver é um pouco assim, ao acaso. Estamos na ilha, então, respiramos, uma ilha. Escolhas? Posso pegar o barco, seguir a ponte, subir na árvore, mas não vejo árvores, não há ponte, não tenho dinheiro para embarcar neste barco. Então eu fico. Aleatoriamente eu me sento na areia pra brincar… Os famosos castelos de areia. Aleatórios. Não temos como escolher. Ninguém pode decidir. Tem o tal do suicídio, estamos naquela química ruim, e nos matamos… É a química, ou a escolha? Sei lá! Estou aqui arrependida por ter enveredado por este caminho. Na verdade, sinto um aperto triste no coração, cheio de culpa porque ele vai morrer agora, amanhã ou depois, e eu não queria nada disso. Queria morrer por ele? Não. Eu quero viver. Faço uma força danada pra viver. Ou nem faço?! Amamos errado, escolhemos errado. Desenvolvemos defesas e mágoas, mas escolhemos, indubitavelmente, os a ser compartilhados, os mesmos. Eu não queria te ver doente. Seria a hora de dizer, eu te amei sim, amei do jeito esquivo, torto que foi o meu possível. Eras tão lindo! Gentil! Tão poderoso, tão possível! E eu estava apunhalada na minha vaidade pequena. Sequer tinha certeza da beleza, da inteligência, tudo estava ali pra ser provado, para tu me aprovares, e me ajudar a seguir. Eras um deus pagão, livre ao acaso, destinado a seguir as ondas, sem ideia de que o mundo nos pede força, coragem, e para renegar, dizer sim, mas tantos não! Manter as rédeas, abrir os olhos. Nos abraçamos cegamente. Fizemos amor sem certeza, encantados  com a plenitude da juventude, ou tu me amavas? Enganosa juventude! Na verdade, esperavas, achavas que tudo estava mais ou menos estabelecido, como fora com teus pais. Impor o ritmo. Um estou aqui, o que precisas? E não foi só o pai, mas o teu irmão mais velho, o grande senhor, que ousou assumir uma mulher linda, livre e poderosa, lá de outro lado do mundo…, ele a submeteu, ele absorveu, tu farias o mesmo. O norte deste país. Graciosa, submissa e entregue, sua mulher. Então, outra vez estava definido o homem, a mulher.  Comigo deveria ser a mesma coisa. E eu fui toda/ tão rebelde e diferente. Isso te irritou, minha rebeldia ardida. Bela como eram as escolhidas  mulheres referência, mas meio de lado, meio arteira, arbitrária. Disfarçada, escondida, ardilosa, inteligente, ou acobertada. Nada comigo era certo ou absoluto. Cheia de truques que desconhecias, cheia de manias e nostalgias incompreendidas. Tu não querias entender, querias dobrar a minha vontade. Dissimulada como a Capitu, todas as mulheres são/seriam definidas como a Capitu de Machado de Assis:  concluirias que focos, desejos, volteios diferem, mas todas enganam. E os homens se enganam, e enganam também… Terreno perigoso. Então, na hora de dizer estou indo, vou mesmo morrer, parece que tudo fica nublado e o desejo de viver ilumina a vontade. Os filhos, os meus meninos são o resultado positivo. Estão aqui ao meu lado, apenas isso importa, tu te contas esta história. Que homem entregue / inocente, perdido te descreves. Erraste, mas não sabes onde está o equívoco / não aceitaste. O erro essencial. Compreendeste tudo errado. Na tua soberba não perguntaste onde erravas. Não quiseste as respostas. E afirmaste:  “Pensava estar entendendo, mas não consegui assimilar, muito menos saber o porquê. Segui a linha mestra, dos meus pais, do meu irmão mais velho, da minha irmã que queria um marido que lhe desse filhos. Fiz tudo certo. Afinal, o que fiz de errado? Apenas aquilo que apreendi em português, em inglês, pouco proveito teve o meu francês… Tentei descobrir alguma coisa, mas já o dinheiro me cercava com tantas facilidades. É tão mais fácil escolher pelo custo/valor.”
Pelo que nos chega às mãos fácil, eu diria. Como sorrir pra beleza. O perfeito do belo parece uma certeza. O que posso te responder? Não há perfeição. Somos um amontoado de culpas. Eu não queria estar aqui, agora. Estou. Eu queria ser eu até o fim. Decidir por mim, mas não consigo sequer falar… Tentei entender, saber das coisas, mas elas se agigantaram tão estranhas, tão estrangeiras que fui desistindo no caminho. Por isso virei as costas. Eu não fiz porque alguém me pediu pra fazer, não me ensinaram a ver. Não houve a interferência que tu imaginaste… Andei no escuro. Estou no escuro. Anos e anos de terapia para chegar a compreende o porquê fazemos daquele jeito, não como deveríamos ter feito. E tem receita? Queria dizer aos meus filhos, os três, os quatro? Amei de um jeito egoísta que me parecia/pareceu o natural. Desculpem, mas amei. Só segui o fluxo interior. Um avô soberano com segredos internos, glorificados, mas não se debruçou no real quanto aos filhos. Uns tem sorte, passam no concurso público certo, ganham um monte de dinheiro, e com dinheiro ficam reconhecidos. Brilham porque escrevem a coisa certa, na hora certa. Felizes! Porque descobriram o caminho do eu faço, eu posso, eu tenho o tapete certo. Mas existe o inverso. Érico Veríssimo, Vianna Moog, sem esquecer do baiano de Gabriela Cravo e Canela, nas letras esquecem dos livros de Memórias de Pedro Nava. Mas lá está Jorge Amado televisivo, filmado, globalizado. Europeus, americanos não conheciam aquele lado safado de ser brasileiro… Gostaram. Pois é. Esta simulação, deste fazer sem estar fazendo. Acho que nunca consegui entender isso, tu te repetes. “Eu fiz, fiz torto, mas fiz de uma forma absolutamente correta, em linha reta, sem esquinas, sem lugares escondidinhos. Pensei que seria assim, liso, transparente. Escolhi justamente uma mulher esquiva, machucada, dissimulada, triste, e tão linda!” O teu julgamento. Esta coisa esquisita da linguagem, de dizer as coisas. A arte obcecada pela leveza lisa do belo que não ajusta estas coisas hediondas, falsas sendo, afinal, completamente verdadeiras. Para onde estou indo? Eu compreendo. Queres saber se foste amado, reconhecido em alguma volta pequena… “Pelos irmãos reconhecido, pelos filhos reconhecido, pelas mulheres que amei, e, desconfortavelmente, me senti renegado. Concluíste: “Nunca fui rei”. Tapetes persas, cristais, pratas, supérfluos, mas transformam casas em palácios. Respeitaste a cortesia da verdade verdadeira. Querias ter sido minimamente compreendido. Afinal,  tu me dizes: “Escolhi ser inteiro no que sou, não fiz concessões. O erro foi este, não houve uma exceção, nem concessão. Caminhei com absoluta certeza. Digamos religiosa certeza. A certeza dos loucos? Dos santos? Dos possuídos? Contudo, estive consciente. Existe o correto, o justo. Fiz como deveria ser, como apreendi que deveria ser. Depois, depois, depois que as calças curtas foram substituídas pelas calças de homem; já estava devidamente tatuado por certezas absolutas. Minha inteligência enterrada em caixa forte. Foi assim que apreendi. Acho que por isso, hoje, as pessoas têm/estão com preocupações diferentes. No meu tempo, criança era criança, e pronto. Não era um ser completo. Ditadura, autoridade, tinha nome, homem macho, liberdade e dinheiro. Como tudo pode mudar tão depressa! Nem sei como tratar as mulheres, acalentá-las? Obedecer? Não, elas deveriam ter me olhado com mais atenção. Um homem bonito. Inteligente. E eu choro não poder te responder ou acalentar. Imagino o quanto está doendo…, eu não queria que sentisses esta dor, eu penso. Beber um uísque, fumar um cigarro, e ter estrelas. Assim serias feliz. Isso eu quero. Eu não tenho mais tempo de me explica. Que vontade bem grande de chorar. Quero meus filhos. Ar! Quero respirar!  Quero que me deem a mão, saber que estão todos aqui comigo. Os filhos. Talvez isso seja viver, ter filhos.
Assim eu te imagino a pensar.  2014 – Porto Alegre

Releio e volto ao tempo para situar as questões explícitas. A ser refeito o texto. Em forma de diálogo, ou num monólogo menos confuso. Sou eu, és tu. Elizabeth M.B. Mattos – Torres 2020 e o passado.

 

cuidado

Recebi tua carta: obrigada. Desligo vozes da televisão. Fujo dos espinhos. Espinhos agravam. Cautela e cuidado: como são necessários! Tanto preciso de tua atenção! E não estás! Nem teu abraço: sinto falta, mas vou me acostumar acostumando. Obrigada pelas fotos. As coisas dentro de casa precisam ser feitas, então não interrompo. Depois um nada: uma esticada sesta. A limpeza do prazer. Busco flores e luz. Bom que choveu! E a temperatura, perigosamente, agradável. Um bom presente? Não sei. Não te exponhas. Não vás sentir frio. Não exagera em nada. Cuida de ti e do outro, da tua companheira, dos cães, dos verdes, das tuas diversões e da paciência. A sensação de guerra pesa assustadora, como um monstro feio. Chegaremos ao fim. Espero. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

PS Pensei não escrever. Uma trava interna, uma angústia fechada, um peso de chumbo. Vai passar! Eu sei. Então te manda apressada este bilhete. Que o correio chegue. Te gosto tanto!

contar

História a ser contada, como, e por quê? Alguém empresta uma memória fatiada por um olhar. Difícil descolar sua pequena história do outro e outro, e ainda outro. Não se fica transparente, mesmo quando se deseja. Alguém sabe. Engraçado/estranho perceber isso: testemunhas. Há protagonismo. Tudo colado do jeito possível… O nome do primeiro namorado. Vivo. Ainda bonito. Esquisita memória de uma história que se gruda numa cidade, numa década. Porto Alegre, rua Vitor Hugo, 229 – Petrópolis.

Uma pedrinha. E contar as pedras, a colorir e a polir: o sentido de reviver, retomar, sentir a culpa, ser perdoado, remexer, falsear, muito difícil, ser condenado. Não importa quem vai ouvir / quer ouvir / precisa… Pode ser filho, neto, sobrinho, amigo. O momento de dizer / a hora e o motivo será confiança contra o medo. Angustia se agarra no porquê de dizer, na qualidade do dizer, não são apenas palavras… O que importa ou não importa, este trânsito indefinido entre o passado e o presente desenha o futuro. Somos hoje o tal futuro. Loucura! Difícil viver. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

então acordei

Literalmente, te vi num sonho. Tu me dizias, convicto, como teria sido bom termos nos encontrado em outro tempo. O menino do verão conversa, sereno, comigo, e eu, a Beth velha, de hoje te escuta quase constrangida. Estávamos num sofá, e nos recostamos quietos, em paz, então acordo. Tua resiliência, teu foco preciso e inteligente: viagens noturnas, e  tristeza objetiva coerente de homem lúcido. Eu incapaz e triste! Então acordei, e não nos beijamos. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres (fomos atropelados nesta vida, haverá segunda chance na velhice? Neste tempo que nos resta?Ou não seríamos razoáveis nem adequados ao nos encontrar? E não conversaríamos pacíficos.) Teremos vinte anos sem nos apartamos, sem machucar,apenas para encontrar amigos!? Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

lua no amanhecer

Frescor delícia. Céu ainda cinzento rosado no fundo como se a tela /céu se preparasse em camadas antes de acontecer, depois virá a luz e as pequenas definições, não consigo pensar no grande, tudo miúdo e as poucos. Como o perfume das plantas. Amanhece. Eu, eu preciso te dizer que estou na maior desordem emocional. Sentimentos atrapalhados. Engordei e parece que flutuo entre o desejo das roupas elegantes e os vestidos soltos, entre o caminhar apressado e os passos preguiçosos do verão. O verão se alonga. Quarta-feira temos feira. Vou buscar frutas e legumes. Vou atrás da determinação de não beber coca-cola, nem bananas fritas com sorvete, nem estupendos cafés da manhã com geleias, presunto e pão fresco. Sucos e preguiça. Troco os lençóis para sentir a cama fresca e perfumada, os livros se espalham com as fotos. A tudo me proponho ordem, e a música do rádio vai me explicando que não farei nada se não conseguir a tal determinação. Escolhi dois pares de óculos, tão completamente, inadequados  que se tivesse ainda lágrimas (faz muito que perdi o prazer de chorar) teria deixado escorrer… Graças que a filha vai resolver, e não sou apenas eu a usar óculos na família. E eu me atrapalho. A passarinhada laboriosa se agita. Vou passar um café preto e controlar esta fome desgovernada. Pois é…, ontem eu dormi bastante, dormitei entre a televisão e o nada. Eu me assustei com esta revirada do mundo, o jogo do petróleo, a gripe que fulmina, o medo das pessoas, o perigo e o pouco caso do nosso governo, desta coisa errada de fazer / não fazer, mas ser e se apresentar.Céus! Votar pode ser um jogo invertido. Se me arrependo passo mal, se aprovo, fico enjoada. Se nego tenho que dormir. Certeza? Muito muito muito muito muito melhor do que estava! Muito ensandecida oposição… E os dias ficam pesados, mesmo quando belos. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

livros descartados

Do passado da rua Vitor Hugo para a avenida Independência, aos velhos arquivos e velhas correspondências.

Meu amigo: o meu caso é psicanalítico, e meio, porque não totalmente inconsciente. Assumo que estremeço. Assumo que deixo de ser natural. Assumo que conversar contigo é como voltar a sala de aula, ao meu professor. Antes do amigo, professor. Não o homem casado, com filhos, com problemas, com vida própria fora da sala de aula. Para mim é o homem que gosta de pássaros, da terra, do jardim, e dos livros, da literatura, da teoria e meu professor, e ponto. Um ser diferente. Tenho bloqueio, medo, alguma coisa esquisita em relação ao que escreves, ao que escrevo para ti, ou compartilho contigo. Bloquei o pensamento, e me assombro contigo. Não consigo estabelecer diferenças saudáveis, nem mesmo nas leituras. Até o teu francês grita superior ao meu, e sabes da minha formação. E também existe o muro, a parede a ser transposta / atravessada cada vez que te encontro num contexto social, ou com Fátima, amigos, filhos. Esquisito. Mergulhei na análise completa, que sejas então, o terapeuta. Demoro um tempão pra relaxar, pra ver, olhar, para sentir que estou a conversar, afinal, com Roberto, o velho amigo! Em tempo, pois tão jovens és! Que dificuldade! E me sinto vigiada. Esquisito isso. Um jogo estranho. Sim, como se existisse um tabuleiro, e eu precisasse jogar, inferir, negar, ir pra direita, ou pra esquerda, atacar. Defender. Recuar. Esconder-me. Como se te escrever, ou responder me levasse para um terreno minado, cheio de incertezas. Leio. Releio. Não respondo. E quando, espontaneamente escrevo, recuo. Outro mundo. Outro planeta. A vida acadêmica que eu queria / desejava pra mim? Um jeito de pensar, uma inteligência como a tua, não a minha? Não, mas não sou assim, penso. Tenho a minha própria história e trajetória, diferente, mas… Não é o algoz nem o juiz. Apenas o Roberto! Esquisito! Politicamente diferentes, e, tu és homem, e eu sou mulher, tu moras em Jacarepaguá. Curiosamente /estranhamente Jacarepaguá… Geraldo e eu procuramos casa por aí quando casamos, queríamos nós morar neste lado do Rio de Janeiro. Desastrado casamento! Sabes que ele está mal? Sou duríssima com estas questões! (Fico a recolher todos os pronomes, excessivos em português, mas tão ‘naturais’ em francês! E me sinto uma idiota!). A doença, a perda, a morte. Uma atitude rígida, infantil. Neurótica. Fiquei de luto para sempre quando perdi a mãe. Depois perdi o pai, também minha tia Joana, aumentando minha lista de lágrimas, perdi as raízes. Não sinto mais nada agora. Não somos eternos / nem para sempre…, mas te digo que estou mexida, dolorida e abatida com o estado dele, hospitalizado em Petrópolis. Pedro está a sofrer pra dentro, numa correria permanente, inútil, pesada e ansiosa, gagueja, tropeça na dor e avança. Joana com a bebê vivendo o novo. Ana Maria viaja nesta Páscoa, meio aflita e medrosa, assustada também. Talvez isso (vê-los diante da perda fundamental, já viram morrer os avós, mas o pai, a mãe!) me deixe também sensível. Meus filhos. Não queria que eles passassem por isso, vivenciassem isso. Curioso! Eu nos queria eternos para eles. Preferia engolir a coisa sozinha. Afinal, morrer ou viver não deve ser filosófico, mas real, da vida / na vida, a morte. Que loucura! Morrer é difícil! Desaparecer é como não ter vivido se não há memória. Uma ironia! Ironia fantasiosa! Enfim! Não era o Geraldo o assunto. Nem a morte. O que queria te dizer, ou o que confesso agora é minha confusão emocional diante dos teus julgamentos literários que me atropelam antes de serem proferidos. Roberto, não acreditas, mas enquanto leio, antes das letras, imagino teu julgamento. “Roberto não vai gostar!”  Teu julgamento me inibe sem existir. Não é ridículo? É louco.  Antes era o Paulo Hecker Filho, mas eu não me importava tanto, eu ia em frente, e dizia, reclamava, xingava, seguia. Por que não tenho coragem de fazer contigo o mesmo? Vou levar um zero. É isso. Ou tu vais ser complacente. Darás uma nota ótima sem que eu mereça. Sempre fui aluna relapsa. Agora estou lendo Trem Noturno para Lisboa, (começou com o pedido do oficineiro para ver o filme, que não consegui ver no cinema), fui atrás do livro, comprei, e gostei. Mas não sei fazer crônicas, e não consigo escrever, nem entender a coisa. A burrice me imobiliza, nem pra frente, nem pra trás. Então o livro começa a me aborrecer. Sem esmiuçar repetições. O truncado, o obscuro, o filosófico, mais do que o romancista…Tropeço, depois gosto, gosto do texto de Peter Bieri. O filósofo com o pseudônimo de Pascal Mercier, autor do romance com mais de 2,5 milhões de exemplares vendidos… Como O mundo de Sofia de Josten Gaarder.  Roberto, nem ia te contar desta aventura. Habitas o planeta Terra, não sei bem o nome do meu. Sofro influências, e desanimo, tu segues sempre. És metódico, sou desorganizada. És absolutamente claro, objetivo mesmo quando te propões subjetivo, sou confusa. Um sentimento de inferioridade acentuado. É isso? Não tendo objetivamente. Confuso. Tudo que preciso, ou imagino necessitar se refere a tua AVALIAÇÃO, a Beth aluna, (discípulo seria demais), se apresenta, um pouco sob o encantamento, outro tanto, timidez, mas certamente com inferioridade. Tua posição em relação a vida, escolha, profissão, e até amor parecem seguros. E eu tropeçando… Tudo para te dizer que comprei um volume de Aureliano de Figueiredo Pinto, porque ainda não o conhecia. (Acontece comigo, os que leste eram meus, dos que Joana ia descartar, não foi? Acabaram na tua estante, e agora, depois de teres mencionado, compro outros, vai entender!) Quanto ao mineiro, não consegui. Quanto ao Tabajara Ruas, nem lembro mais qual livro, não sei, não é um clássico. Estes livros descartados, com dedicatória e tudo, assombram as estantes dos meus filhos que os receberam, assim, aos montes sem terem escolhido. A ideia de os guardar, e de que um dia lessem os que não li, ou redescobrissem os que gostei, pura fantasia minha. Joana ia se desfazer e o fez, lembras? Apenas se desfazer. Esta partilha aleatória e necessária, fiz antecipada, antes de me mudar pra casa da minha irmã Tânia. Eu que zelava por grande parte da biblioteca da casa da Vitor Hugo. Livros encadernados pelo pai, pela mãe… Nome de família na lombada.  Outros doei também para a biblioteca pública de Cambará do Sul! Quem deve ter aberto um livro? As traças. Literatura, jurídicos, e livros em francês! Esta coisa da perda! A biblioteca inteira do Paulo Hecker Filho que ocupava já um apartamento foi doada para Paulo Betancour. Este vendeu aos sebos. Contam que Paulo fez consciente para ajudar o amigo endividado. Pode-se vender livros assim, aos magotes. Graças! Tu és feliz nestes encontros! E guardas os teus livros. Como te agradeço! Por todos os que amam livros. Também és agraciado pelo prazeroso destas leituras, escolhidas ao acaso. Deste jeito. E sempre, eu vou querer te seguir. E leio tão pouco! Um beijo e bastante saudade. Desculpa a carta derramada. Elizabeth M. B. Mattos – março- 2020

Querida Beth: Um dia desses, à noite, concluída a leitura de dois romances russos recém-comprados, procurei algo na estante para ler, e fiquei entre dois livros que você me deu, daqueles que andou descartando: um do Tabajara Ruas, não me lembro o título, aliás com dedicatória para você; e o outro de Aureliano de Figueiredo Pinto, autor de que nunca tinha ouvido falar. Acabei escolhendo o segundo, e esperava uma narrativa regionalista – o que em geral me agrada – de qualidade razoável. No entanto, iniciada a leitura, que logo concluí (agora de manhã), prontamente me dei conta de que se tratava de texto primoroso, impressão inicial que só fez consolidar-se ao longo da leitura. Que boa surpresa, pois é uma obra-prima, e, acho, completamente desconhecida, acredito que mesmo no RS. Com isso, este ano já tive a felicidade de descobrir dois grandes escritores inteiramente esquecidos: o mineiro Galeão Coutinho, que assina o belíssimo Vovô Morungaba, e o gaúcho Aureliano de Figueiredo Pinto. Acho que nem vou ler logo o Tabajara Ruas, pois pode ser que minha expectativa em relação ao regionalismo gaúcho tenha crescido demais com a leitura do Aureliano. Beijos e bom fim de semana. Roberto. (Roberto Acízelo Quelha de Souza)

Alter ego ou alterego (do latim alter = outro egus = eu) pode ser entendido literalmente como outro eu, outra personalidade de uma mesma pessoa. Para a psicanálise, o alter ego é um outro eu inconsciente.

casa 2.JPGrua vitor hugo 3.JPGmuro e casa 1.JPG

Fotos da casa da rua Vitor Hugo – presente de JMC

segunda vida

Talvez tu não tenhas escolhido, nem queiras esta segunda vida. Nem sempre podemos escolher no sentido restrito da palavra, aliás, nem parcialmente, acho eu. A vida nos é oferecida sem escolha, quase ao acaso: ironia! Decidimos isto ou aquilo, tão pouco! A cor do vestido, o cabelo, a comida, a perda ou o ganho… E nos perguntamos: – Escolhemos o que importa? É a questão filosófica do suicida quando decide morrer, tomar a vida nas mãos no sentido mais radical possível. Com quem viver e com quem deixar de viver? Somos o produto do processo. E, somos submetidos a permanentes julgamentos internos que chamamos / nominamos / pensamos ser prazer, alegria, coragem ou sofrimento. Não é filosófico, não quer dizer nada… A soma destas coisas todas é a nossa vida, e ponto.

A segunda chance surge quando nos libertamos de um determinado processo (alguém morre, o inusitado acontece). Caímos em outro desafio, outra vida. Sem ter escolhido tu estás lá vivendo… Sem buscar. A vida é mais… Se tudo isto de casamento, filhos já foi vivido, que bom! Agora, se trata da chance de estar viva pra completar as outras tantas possibilidades que existem dentro de nós: isto é a maravilha! Descobrir o dom, teu jeito de ser / produzir, teu novo caminhar, teu sorriso. Renasceres. Que faças a diferença! Para deixares de ser par, dois em um, como diz a propaganda, mas um entre muitos. Olhar com novo olhar. Acho que perder alguém pode ser encontrar também. Eu penso no pai, na mãe, na Joana, nos meus amigos: a Sonia, o Paulo, até o Mário de Almeida Lima, Iberê Camargo e até o Flávio Tavares. Os amigos que desapareceram. Os casamentos fracassados, os empregos perdidos. Quanta lágrima pra chorar! Os filhos que não tive. As cruzes divinas. E todos os meus acertos contáveis (de numerar). Eu também fui /sou feliz, infeliz. Cada ruptura, nova chance.

Sei lá! Acho que a segunda chance pode ser até a primeira, a melhor. Um desafio. Também compreendo que aceitaste como absoluto, e bom: o caminho do casamento, da maternidade: isto é felicidade. Como a tia Joana, valente, decidiu o dela, ficar solteira e agregar-se a vida da irmã. Ou não escolheu? Quem escolheu o quê? Estamos juntos nesta aventura. As tempestades agitam a vida, no bom sentido: sacudidas, com medo, passamos a de fato respirar… E respirar é uma graça divina, nada mais do que isto. Uma graça… Foi pensando nela que mencionei a segunda chance, ou vida entre as muitas que tu já viveste.  Eu me escondo no sono, tu te manténs alerta. Isto basta. Acho que até vivenciar a grande solidão é dádiva. Coisa de Beth. Como não sei falar, escrevo. Quando mencionaste os anos de casamento, eu pensei em outros anos possíveis… Crueldade minha, não sei. Vontade de redescobrir. Curiosidade. A Parábola dos talentos que sempre me impressionou: guardar, devolver ou multiplicar? O que devemos fazer de fato com nossas vidas? Precisamos entender que as escolhas estão enfiadas em caixas… Fomos colocados dentro delas e o  limite de escolha existe no justo limite da caixa… Ou podemos rompê-las, e sair? Depois, suponho que existam mil vidas dentro de nós: escrevo mil para definir um número… Porque não somos o que aparentamos ser. O que acontece dentro da pessoa, os sentimentos, as tais emoções, não revelamos. Não por vergonha, ou qualquer outra coisa, não manifestamos porque não as reconhecemos como nossas. Não é incrível? A felicidade parece mais tangível quando se compreende as coisas sem conflitos internos de culpa. Ora, a vida não é compreensível num todo: passamos por diversos acidentes e perdas. A felicidade é a tranqüilidade diante daquilo que supomos ser o certo. Sim, apenas uma suposição, uma coisa convencionada, tanto quanto a beleza. Não existe certo ou errado, não é mesmo? A vida tem muitas vidas, com esta ou aquela pessoa ou mesmo sozinhos. A determinante pode ser uma variante. O que de fato escolheste foi um jeito de fazer e ser. Escolha? Hábito? Como vamos explicar? O que de fato deu errado? Perder pai, mãe, tia, marido, casa? Filhos? Dinheiro? O que pode ser natural ou falso? Não sei. Ninguém sabe. Hoje é diferente, então novo. Estamos sentadas num amontoado de convenções. Por elas lutamos. E não queremos solavancos na viagem. Assim como a beleza. Dizem que o belo é assim ou assado… Que traduz isto aquilo… O que é afinal a BELEZA? E qual resposta para a FELICIDADE? Como sempre a vontade de escrever é muito maior do que a vontade de falar… Acho que vou deitar um pouco. Hoje tem Doce Deleite no teatro com Gianechini… Tem Pedro no palco, e mãe coruja também. Eu mereço ser feliz! É assim? Elizabeth M.B. Mattos (13/12/2008) Porto Alegre

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