Guido Piovene

cartas

[…] “A moral fanática da clareza interior não é útil à arte ao combater e destruir o mundo dos sentimentos, que quando ela intervém parecem todos fictícios, não porque o sejam, mas porque julgados segundo uma norma estranha que os fez parecer ilusões. Mas aquilo que escrevo tem motivos até mais graves que as razões da arte.

Nós homens modernos, não podemos aspiras à estupenda ignorância de algumas zonas perigosas do ânimo, que garantia a vida dos nossos antepassados. Somos obrigados à agudeza. Exatamente por isso, é necessário moderá – la continuamente com um piedade cautelosa, com um caridade voluntária, que impeça a agudeza de nos dominar totalmente e se tornar uma paixão e um vício.” (p.10) Guido Piovene Cartas de uma noviça

Cartas/missivas ou epístolas, ou bilhetes, importam. História ou confissão. Poucas, ou duas palavras apressadas. Penso em ti, ininterruptamente, sem parar, sem parar desde…, o que importa? Não estares nos bailes não impediu de termos dançado por/em lugares inusitados. Sempre e tão  perto um do outro! Tua história se colou de tal forma na minha não-história que se prolonga… Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

 

prisão

Complicado chegar perto de ti! Maluca esta prisão! E tão estranho eu não poder ter certeza, ou… Não sei o que quero dizer, tens razão. Os recursos e os muros e as dúvidas, e as palavras aprisionam. Agora o vírus se alastrou… Tenho febre ao acordar e ao adormecer. Não posso dizer ou falar. Assim sentir/pensar ou adoecer, um veneno. Penso em ti, não consigo me livrar… E não tem vacina, ou modo / ou jeito de expelir, jogar fora, ou esquecer. Nada modifica a sensação premente, a carência, a loucura. Tu entendes meu corpo, apenas tu sabes o que digo sem dizer. A experiência foi avassaladora. Eu te pergunto: fomos nós que nos excedemos ou a idade nos transtorna, limita ou enlouquece? Coloquei no plural, mas talvez seja eu, apenas eu a te querer e te chamar… Eu quero te dizer tanto e tudo! Não querias / não podias ouvir. Tanta pressa! Urgências e tuas prisões, ou eram certezas. Tua resiliência! Eu compreendo sem compreender. Perigoso ultrapassar o limite. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

” […], cada ‘amanhã’ parecia um futuro suficientemente distante e completo em si mesmo, era por assim dizer como se ela entesourasse os dias da infância, não querendo perder a riqueza individual de cada um.” (p.173) Aquele dia Inesquecível  James Hilton

Rua Vitor Hugo, 220 Petrópolis – Porto Alegre – rio Grande do Sul – 1940

A HERDEIRA

O cuidado excessivo é tão prejudicial quanto um grande descuido.” (p.76)

Primoroso desenho do caráter e da convicção. Reli com a mesma avidez de 1984. Fatiados desencontros. Amores amados.

Odeia – me, disse Morris, que desejava imensamente arrancar a Catherine um gesto de paixão que lhe permitisse ter esperanças.

Não, não o odeio. O ódio não dura tantos anos, há contudo outras impressões que perduram, quando são fortes. Porém não quero falar mais.” (p.208) Henry James  A Herdeira

Cada livro/leitura possui um impacto recorrente, e diferente. Lembrei do noivo Antunes. Quanta mágoa, por tanto tempo! Bobagem! Quanta vida vivi depois, maior/melhor ou pior / outra! Quanta lágrima, e depois boa risada e alívio! Nunca voltou para explicar a loucura daquele noivado festejado, foi levado pela mão pelo pai Leocádio como um menino desobediente. Tanta coisa ridícula e teatral nesta história montada com pedido formal de casamento e outra, mais formal ainda de rompimento: o pai do noivo  protagonizando a cena. Céus! Palmas ao senhor  repelente Leocádio Antunes. E aconteceu em 1967. Noivos ou noivas, simplesmente, desaparecem. Este romance de Henry James foi escrito em 1881. As cenas se repetem… Eu que não sei escrever histórias. Ler sempre, caminho de voltas iguais. O bom da vida? Os encontros agora / hoje. Café na rodoviária. Sonhos e pastéis. O vinho. Risadas sem epidemia. Céus! Envelhecer significa tanto e tanto!! Precisa ser diário / agora. Viver, mais do que nunca respirar e voltar, mas ficar! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres (retomo velhas histórias nesta terapia)

[…] ” o famoso stream of consciousnes (corrente da consciência), mais tarde levado a extremos por James Joyce em seu Ulisses, é constante: os indivíduos nunca deixam de discutir detalhadamente o que acontece em torno deles, até os acontecimentos mais banais.” Coleção Grandes Romances da Abril Cultural

branco e preto na mesa

anêmonas / “Esboço de um Passado”

Penso memória / lembro / imagino anêmonas: coloridas, frágeis e sem perfume: amarelas roxas vermelhas azuis. Na pequena leiteira inglesa, ou naquele bojudo vaso miniatura: efêmera, preciosa reminiscência.

É de flores vermelhas e roxas num fundo preto – o vestido de minha mãe: ela estava sentada num trem ou num ônibus, e eu estava no seu colo. Eu via, portanto, as flores do vestido que ela estava usando bem de perto; e ainda vejo o roxo, o vermelho e o azul, creio, contra  o fundo preto; acho que eram anêmonas. Talvez estivéssemos indo para St. Ives; mais provavelmente – pois, pela luz, devia ser noite -,estávamos voltando para Londres. Mas é mais conveniente, sob o ponto de vista artístico, supor que estávamos indo para ST. Ives, pois isso conduzirá minha outra recordação, e na verdade é a mais importante de todas as minhas recordações.” (p.76)

Já tínhamos nos mudado para a rua André Poente. Tânia e Renato já estavam vivendo em Paris. E a mãe tinha quebrado o braço. Suzana se ocupava da limpeza, e eu das refeições, o pai se orgulhava: tudo funcionava.

Uma das esquisitices deste envelhecer: tropeçar em autoras / autores (os preferidos, é claro) que trazem de volta lembranças espalhadas no prazer de ler/escrever/pensar e respirar. A leitura com mágica, e a escrita no picadeiro iluminado. Gosto.

Se a vida possui uma base na qual se apoia, se é uma vasilha que se enche, se enche e se enche – então minha vasilha sem dúvida alguma está  boiando sobre esta recordação. A de estar deitada, semiacordada, semiadormecida, na cama de nosso quarto em St Ives.” (p.76) Virgínia Woolf Momentos de Vida – Um mergulho no passado e na emoção

Se a vida tem memória, posso voltar até a casa da rua Vitor Hugo 229, em Petrópolis. Magda, Ana Maria e Nádia estarão comigo. Correr. Subir nos muros, ou arrastar as bonecas, depois largar tudo, e, pegar as bicicletas, mesmo sem freios e pedalar pelas calçadas, vamos para o clube Petrópolis Tênis Club explorar as piscinas. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

P.S. Bonecas se misturam nas correrias. Gostava delas tanto quanto de dançar.

Morosidade

Morosidade inquietante. Morosidade interna que invade o corpo / derruba o ânimo, e a rotina. Perigo encaixotado. E a loucura força, insiste, depois derruba. Não consigo segurar a intenção, nem a voz, nem a dor do corpo, e a certeza escorrega pegajosa.

Nem a leitura, nem a luz, muito menos o silêncio, acalma. Um pouco o desenho porque nunca quero acertar, o lápis vai sozinho… Então, o desenho me afronta, e me acalma.

Não quero escutar as vozes, não quero ver a luz, nem cantar/falar, muito menos murmurar, mas eu ouço e sussurro. Elizabeth M.B. Mattos – 2020 – março – Torres.

o segredo

Um segredo muito simples: o amor. Tudo o que nos fascina no mundo inanimado, os bosques, as planícies, os rios, as montanhas, os mares, os vales, as estepes, e mais e mais, as cidades, os edifícios, as pedras, ainda mais, o céu, o pôr-do-sol, as tempestades, e muito mais, a neve, a noite, as estrelas, o  vento, todas essas coisas, em si vazias e indiferentes, enchem -se de significado humano porque, sem que o suspeitemos, contêm um pressentimento de amor.” (p.127)

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Compadeçam – se: é exatamente isso. Sem que saibam, o chamado subsiste mesmo naquelas carcaças ainda cheias de vida; elas tem sessenta, setenta, oitenta anos, são senhoras honestas e respeitáveis, morreriam de vergonha se pudessem imaginar o que as leva de cá para lá no mundo. No entanto, se nas viagens não houvesse aquele vislumbre romanesco e inverosímel, jamais se animariam sair de casa. Perambular de fronteira em fronteira, de hotel em hotel, tornar – se ia um verdadeiro suplício.“(p.129)

Dino Buzatti Um amor

Uma manta

Uma manta

Para o meu canto fiz manta

Bordada com fantasias

De antigas mitologias

Do calcanhar à garganta;

Exibiram sua beleza

Como se a tivesse feito.

Cancão, aceita o ocorrido:

Existe maior proeza

No andar despido. 

W.B. Yeats POEMAS tradução de Paulo Vizioli

A coat

I made my song a coat

Covered with embroideries

Out of old mythologies

From heel to throat;

But the fools caught it,

Wore it in the world’s eyes

As though they’ d wrougt it.

Song, let them take it,

For theres’s more entreprise

In walking naked

Do bordado

Enfeitei. Justifiquei o meu tempo: “bordado de fantasias”. Dancei. Pulei enquanto chorei, ninguém percebeu. Nem tristeza, nem dor. Tirei minha roupa  devagar para te abraçar, e, meu corpo estremeceu no andar despido de te amar. (Para JMCL)

Da vaidade

Tua vaidade em cachos coloridos, teus pés mimosos. Mãos inquietas. Caminho fechado. Proibido desta/nesta febre fresta de teu sorriso, Rose. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020- Torres

muro e casa 1

Assunto: saudade do Rio de Janeiro

Enviada em: Domingo, Junho (dia 1 -2014 10:57)
Assunto: SAUDADE

Estou aqui tentando acordar dos dias que passamos juntas, dos olhos espertos da Valentina, dos passeios curtos, e engraçados. Do vento. E já sinto bem o frio. Triste por não ter feito as pipocas. Os biscoitos, comeste todos. E se abro uma coca – cola lembro de quando eras pequena: não fui vigilante. Vício, é vício. Difícil abrir novo hábito, novo paladar. Contigo fui permissiva. E com todos, comigo mesma também, adoro refrigerantes. Penso naquela tal liberdade sem preço como diz a nossa Luiza. Dormi muito, demais. Tempo demais na cama. Céus! O ânimo desmantelado. Coisas por fazer… Bom que a chuva terminou. E a lagoa fica cintilante iluminada, embora o sol não tenha chegado de todo/inteiro. Faz frio. Bom também que vocês estão no quentinho. Dizem que será um gélido inverno este de 2014. Não quero reconstruir nada, mas ainda desejo sonhar, fazer… Ou melhor, quero reconstruir sim, um monte de coisas. Construir a família, nós cinco. Não, somos nove, não é? Eu é que sou ímpar. Quero todos mais perto uns dos outros. Agora meu corpo reclama. Os joelhos reclamam. Então não limpei, nem tirei o pó, tampouco encerei o assoalho. Esqueci a frenética limpeza da casa. As roupas seguem nas cadeiras, os livros desordenados. A mala aberta. Os lençóis por passar. Se eu tivesse, se eu pudesse mandaria passar, estalar num ferro de prensa, as roupas de cama. E pensei nas camisas do Guilherme. No excesso, na canseira do corpo que se gruda feito goma dificultando tudo. Encontrar a eficiência nesta divisão de espaço. Abrir a janela para dividir, dividir, e dividir. Apreendi tanto da filha mãe que te transformaste: atenta, cuidadosa, cansada também. Neste tempo de mãe nos damos conta que o dobro já é muito. Imaginas o triplo, o quíntuplo? E as pequenas peças perdidas se transformam, como gosto de dizer, em borboletas… É para sorrir que penso nas borboletas. Outras prioridades. Depois voltamos, e reencontramos tudo que era só nosso outra vez. O ciclo. Ás vezes esqueço do jeito que sou, então invento uma composição familiar. “ Eu nem gosto de livros! Porque tenho estantes? ” Este colo, estes beijos pequenos que chegam com os filhos aquecem tanto! Na tua casa deves ter dormido melhor. Estou aqui empurrando o palavreado, mas estou mesmo é debruçada na saudade. Saudade de ti, da minha neta, do silêncio de estar apenas junto. E nem te cobri de mimos como pretendia, passou depressa, muito depressa. O frio te assustou. Em setembro venta, mas outubro começa a esquentar. Antes quero ver o Pedro, será que consigo? As dobras, sobras estarão refeitas, refeitas? Um meio sorriso de novos rumos. Braços abertos. Amo tanto vocês! Queria mesmo ter aquela casa que imaginas: portas, janelas, quartos, banheiros, cozinha grande, mesa grande, bastante sol, o cheiro do teu bolo, as pipocas, os filmes, os brinquedos da Valentina. O entra e sai dos meninos, talvez com namoradas, amigas de saia curta. Bicicletas para passearmos em bando. Por que não? Todos juntos. E, quem sabe? Pedro com um filho-menino pra beijar, acalentar também. Fantasia? Ana Maria assando aquela picanha no forno. Podes fazer a tua farofa de pão chinês, como é mesmo o nome? Eu vou me ocupar da salada, e das frutas. Hoje no meu café da manhã comi as salsichas Endler! Bem que queria ter feito dois bifes de filé na manteiga, e sentir melhor o gosto do pão e do café. Sou gulosa também. Depois descasquei a manga amarela olhando para o caqui de chocolate que ficou na bandeja. Tudo é possível nesta casa grande. Gente, risadas, gramado, e a vontade quente de estarmos todos juntos, esparramados no afeto. Pés descalços, saias largas, e camisetas brancas, frescas. Calor, fará calor e teremos sol, e sombra daqueles cinamomos que eu gosto, desajeitados, perfumados.Um beijo. Amo. Amo. Amo.

“ As sombras da alma. As histórias que os outros contam sobre nós e as histórias que nós mesmos contamos – quais delas se aproximam mais da verdade? É tão certo assim que sejam as próprias histórias? Somos autoridades para nós mesmos? Mas nõ é esta a questão que me preocupa. A verdadeira questão é: existe, nessas histórias, alguma diferença entre certo e errado? Nas histórias sobre coisas exteriores, sim. Mas quando tentamos compreender alguém em seu interior? Esta viagem algum dia chega a um fim? Será a alma um lugar de fatos? Ou seriam os supostos fatos apenas uma sombra fictícia das nossas histórias? ” (p.153)
“…) desejo patético, de sonho – de voltar outra vez àquele ponto de minha vida e tomar um rumo bem diferente do que aquele que fez de mim quem sou agora…Sentar de novo no musgo quente e ter o boné nas mãos: é o desejo insensato de voltar para o tempo que deixei para trás, levando a mim mesmo – marcado pela vivência – nesta viagem. ”(p.154)
Trem noturno para Lisboa, Pascal Mercier

Elizabeth M.B. Mattos (das correspondências)

2014 – obrigada por teres guardado

06/03/2014 18:11, Torres.
Joana: tenho pensado em ti, na Joana lá de dentro, na guerreira. Talvez estejas doente, resfriada ou fraca. Este período é dureza sempre. Enfim! Não sou eu quem deva dizer, ou pensar, ou descobrir. És tu mesma. Nós mães, pensamos nos filhos. Os netos são uma doçura a ser conquistada… Quando fiquei grávida pela primeira vez entrei em pânico, algo indizível porque queria muito/tanto ter filhos. Na segunda vez também me assustei. Na terceira vez ainda me surpreendeu a coragem de mais uma gravidez. E minha mãe se assustava mais ainda porque eles vinham, eles chegavam aqueles filhos. E meu casamento não era sólido, talvez por minha inoperância, minha excessiva juventude. No entanto os filhos foram a minha certeza à medida que cresciam, eu me reconhecia neles. Eu me sentia salva naquele mundo tão complicado. Afinal eu estava naquele mundo, e ia mesmo enfrentar tudo. Uma das coisas esquisitas de ter filhos é a sensação de invasão. Não estaremos nunca mais sós, nunca mais. E o nosso lugar é o lugar deles, o espaço é deles. O marido limitamos, acomodamos, mas os filhos sempre ocupam a casa inteira. Conhecem os segredos todos. Abrem todas as gavetas. E todos os armários. Através desta luz começamos, finalmente, a ver/ entender/ o mundo não é nosso, mas deles. Não é preciso explicar. O susto passa. A descoberta chega, e o sentido fica claro: estamos na vida, mãos cheias. Amo-te mais, mas também o meu pacotinho, a minha pequena Luiza! Oxalá pudesse estar mais perto! (Elizabeth M.B. Mattos)