ausência como presença

Domingo engasgado. Cinzento. E já  onze horas. Acordei tarde. Ou foi cedo que dormi? Tanta chuva tanto cinzento! Não sei do relógio, nem do tempo. Bom este silêncio. Sinto ausência como presença.  Passeio curto no respingo desta preguiça. Milagroso excesso:  a fala humana,  a palavra desdobrada e aberta. Deste jeito eu chego, e voltas para mim. Assim, nunca te esqueço. Eu te abraço neste domingo. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2019 – Torres

sedução

Saudade da minha saudade de ti. De te amar aberto sem pejo, apenas desejo. Seduzida pela sedução: tua, minha, a nossa. Rochedo teu silêncio. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2019 no domingo cinzento depois do grande temporal.

pejo
/ê/
substantivo masculino
  1. 1.
    ANTIGO
    estorvo, impedimento, obstáculo.
  2. 2.
    sentimento de vergonha; pudor.

perdida

Perdida do livro. Ao acaso o encontrei  no alto da estante, quase invisível.  Peguei a escada, a mais alta, e agarrei o volume. Depois de tantos encontros secretos com Günter Grass, o reencontro. Coisa boa! Amor certo, abraço seguro, voz que me acorda. Aquela fresta engraçada!  Envelhecer espera um pouco mais, hoje estou menina. O volume estava lá a me esperar,  a memória se agita, e com ela a biblioteca de minha mãe. A saudade da rua Vitor Hugo. Elizabeth M.B. Mattos – também sou de Athayde Mattos

o som que faz a música

[…] escreve, fazes isso tão bem!” diz o amado num sopro. E eu me animo, volto para o teclado. Abro a janela, agarro o vento, deixo a chuva entrar. Molho o corpo, também a alma. Doce jeito doce! Eu me sinto acolhida. Palavras,  tua voz paciente. Obrigada. Não sei quando nem como nem se um dia… Justo no momento desanimado da escala! Aquele exercício: vai e vem, e volta. Não é música, nem melodia, mas exercício, e sempre o mesmo. De repente, tua voz, o som! E.M.B. Mattos -março de 2019 – Torres

não é incrível

Não me perguntes o que estou fazendo.  Exercendo o apego, ou tentando me desfazer disso ou daquilo. CÉUS! e encontro o Eu a amava de Anna Gavalda, livro de estréia. E como diz Le Figaro:  Todos temos algo de Gavalda.

” – Não, não é incrível. É a vida. É a vida de quase todo mundo. A gente se esgueira, se acomoda, tem tremores nas pernas feito um animal doméstico. A gente a trata com carinho, a destra, se apega a ela. É a vida. Existem os corajosos e os que acovardam. É tão menos cansativo se acomodar…”  (p.133)

[…] “A vida, mesmo quando você a nega, mesmo quando você dá pouca importância a ela, mesmo quando você recusa admiti -la, ela é mais forte que você. Mais forte que tudo. Pessoas voltaram dos campos de concentração e fizeram outros filhos. Homens e mulheres que foram torturados, que viram morrer os mais próximos e a casa queimar, recomeçaram a correr atrás dos ônibus, a cometar a meteorologia e a casar as filhas. É incrível, mas é assim. A Vida é mais forte que tudo. E além disso, quem somos nós para nos darmos tanta importância? Nós nos agitamos, falamos alto e daí? E por quê? E o que mais, depois?” (p.161)

irado

Perdida de ser eu: na desordem, neste caos! Procuro a chave, o susto, a foto, o bilhete, as folhas… Quase desisto, aguento: durmo, acordo, bebo café e lavo os morangos. Escolhi este jeito encolhido de ser eu. Escorrego. Sinto, ressinto e revejo. Escuto, releio. Penso e repasso. Foi assim, eu sei… Desenhar e colorir. Pontes. Estradas pequenas, outras largas. Horizonte verde, o meu.  É  mosaico. Sou pedaço… deste jeito, sem ser defeito,  jeito. Elizabeth M.B.Mattos – março de 2019 – Torres depois do temporal assustador, furioso a gritar grosso, esbravejar irado! Deu medo! Fiquei criança!
bebê lUIZA

imagem

Há em/para cada pessoa inferno e paraíso particular, é claro! Juntos o Carnaval! A fantasia do outro, a mais engraçada, mais divertida… 2019 se estica! Venham as chuvas!  Somem as palavras… Tempo de segurar a voz, dançar na sombra. E.M.B.Mattos –  março de 2019 a foto importa… Torres

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