Dezembro de 2018. Tua decisão de nunca mais. Por um mês ou foram dois. Oito ou nove meses. Não importa tempo. Furacão. Surto. Luz, uma inversão. E novas leituras a marcar o rumo: eras tu entrando na minha vida. Elizabeth M.B.Mattos
não recomende livro nem leitura
Ao acaso Beckett …, distraída. Trancada no romance no poema, larguei tudo, dei uma volta. Pessoa importa. Abraço sorriso, o gosto de sol, do ar …. “As visões no escuro de luz! Quem exclama assim? Quem pergunta quem exclama, Que visões no escuro sem sombras de luz e sombra! Ainda um outro ainda? Inventando isso tudo por companhia. Que acréscimo adicional a companhia ia ser! Ainda um outro ainda inventando isso tudo por companhia. Depressa deixá-lo!” (p.61) Samuel Beckett – Companhia e outros textos
Quero que voltes. Apenas tu, sem bagagem, sem conversa sem palavra, sem sintaxe. Quero que tu voltes. Quero que digas aquele tudo que me arrepia, não entendo, só sei que eu te quero de volta. Eu prometo lavar, passar, esfregar, plantar, regar, e até emagrecer …, eu prometo rejuvenescer. qualquer milagre eu faço para te ver.
Estou maluca/louca/ ensandecida. Logo é Natal. Não compre livros, livros devem ser escolhidos no impulso, pelo cheiro, não indique livros, a cada palavra tu te jogas, neles tu te escondes …, tem que ser acaso/surpresa/atração o amor. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2018 – Torres


olhos com flores
Ando com saudade, saudade da leveza de não ser e … Sonhar conquistar. Estar contigo, uma hora, duas, uma tarde, um céu. Tô com ciúmes do campo, dos cães. Quero a comida que perfuma. Imagino a camisa puída, e o meu vestido curto. Seguro teu olhar no verde. Gosto deste contemplar silencioso, da televisão dia e noite, do sono bom … Da tua voz que nunca escutei, da tua mão que eu não seguro. Desta saudade idiota de um dia ter tudo, no outro nada. E gargalhar … Que o tempo nos agarre e segure estupefato. Estarás velho, eu anciã. Que importa? O gosto da cerveja, o perfume do vinho e aquele destilado com gelo e limão. Somos nós a comer pastel, azeitonas e sonhos. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2018 – como pandorga em campo livre, ao vento possível de te encontrar.
O poema transformo em texto. Sem licença mexo altero repasso. E são poemas,… “Antes, teu corpo era feito de terra e não tinhas olhos abertos ou fechados que vissem as nuvens soltas nas alturas. Eras imenso, adormecias calmo e estavas sempre desperto nas manhã inexistentes. Eras teu próprio sol. Sem saber por quê teus olhos brotaram da terra como flores, nem quando ou como. Agora, o sol te ofusca os olhos quando o olhas e teu corpo sente frio ao acordar: és tecido com a sequência das manhãs que te traz o temor da tarde próxima, da noite imprevisível: os sonhos nada mais te revelam e a luz te chega apenas como luz, nos ângulos móveis dos ponteiro suspendeste tua vida nova: contas agora os dias e os séculos.” Fernando C. de Garcia – O Príncipe Irreal
“olhos brotaram da terra como flores” difícil poetar

concessões
Fugir a uma realização, por causa das concessões feitas, produz relacionamentos falsos e uma sociedade doente …, muito difícil a ponte com ser eu e seres tu. Beth Mattos
e o estado …
Acordo com aquela sensação estranha de não trabalhar mais. Não saltar da cama enfiar qualquer roupa e ir para a escola … tantos anos! Loucura largar/parar/abandonar. Das quarenta horas , num repente largar tudo …, sem plano definido. A Ulbra com vinte horas noturnas, particular alegria. Inovei. Loucura de horários apertados. Engajamento emocional. Ninguém pode ser professor apenas algumas horas. Acordava envolvida e dormia possuída como se este fazer agisse também no sono. Olhos fechados tudo seguia: vozes, ideias e livros a serem lidos, fichas consultadas, gramáticas, filmes. Alunos, escolas, pequenas viagens. Energia para dirigir até Porto Alegre de manhã e voltar a noite. Prazer da estrada. Aquela juventude boa de se entregar ao volante/rodar … Acordei com desejo de entrar no carro. Ir até a beira do rio Mampituba e passar no supermercado. Tomar café com aquele pão quente de farinha bem branca, suco de fruta, e gosto de vida, nova energia. Ideia de aposentar foi a pior que eu tive. Não trabalhar pode ser castigo infringido ao corpo ao tempo, testar alegria. E se desfaz em vagares. Coisa nenhuma. Hoje acordei com vontade estar de volta. Giz, livros, notas, chamada, vozes, pessoas … Eu deveria poder voltar. Desabafo. Novembro segue frio, ainda é muito cedo para providenciar no pão … Vou passar um café preto e desligar o radio. Talvez volte para a cama. Elizabeth M.B.Mattos dezembro de 2018 – Torres

contar sem pensar
“Meu assombro é que eu me considerava imune a relâmpagos e trovoadas amorosas.”
Cansada de simular equilíbrio. Louca loucura sacudida. Desespero, incompreensão. Falta inteligência amorosa. Escorrego. Verdade pendurada no varal. Muda de de cor a voz, o dizer. Estúpido caminho pedregoso. Desnudar/desvendar/explicar enredo, ou beber vinho e rasgar pêssegos e mangas. Ansiedade sem alegria. Não posso me descuidar, estou perdendo o natural da natureza alegre. Escorrego. Triste. Enjaulada. Não sei explicar. Não é normal. O corpo aperta os ossos. Efeito de tanto sono e desta saudade ensandecida, louca. Inexplicável. …. joelhos, braços, pernas escalavradas, palavras sem sentido. Perigo! Olha o sinal! Elizabeth M.B.Mattos – dezembro de 2018 – TORRES
“Cartas! Ela as possui, cartas! […] Cartas onde meu nome aparece […] romance de folhetim não é outra coisa: desenrola-se no papel, espelha-se na vida mas elucida-se nas cartas.”
” Trivial sempre é simples, quando se reverencia silêncio, mas quando personagens começam a falar, brotam problemas.” (p.170-171) Marco Aurélio Barroso in …ela mora em Botafogo …

aipim frito e cerveja
Almoço. Independência e liberdade: aipim frito e cerveja. Que frio neste novembro! …, e choramingo. Queria rir contigo. Loucura da loucura. Sem estrada. Café e sonho …, sesta e abraço. Por que não? Posso tudo. Sempre, até envelhecer, e ficar assim, com rios e lagoas, tropeços e descaso… Gosto de café e o sono. Beth Mattos – dezembro de 2018 – Torres
querer possuir
Volto e retomo não resisto. Não te pergunto se posso, ou se não posso. Espero. Escrevo…, não sei. Sinto. Despedaço aos pedaços. Coisa esquisita envelhecer invisível.
Estás a me escutar… Único, tocado e sentido sentimento. Antecipado. Ansioso, o meu. Depois que apagaste/enterraste história sem contar nem dizer… Fico a pensar e a te querer, assim, devagar…, sem rumo. Completo. Repasso, retomo, eu te toco. O texto não sou eu, nem a palavra, nem o formato, nem o sentir. És tu, somos nós. Então, existe um tropeço. Retomo. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro em Torres – 2018
” Não podemos nos esquecer que já somos o que somos. Vida solitária exala algo de sublimemente superior que, ora nos faz brilhantes …ora idiotas.
Insegurança leva – nos ao sorriso. É que. a mais de vezes, não nos damos conta de que prazer de querer possuir é melhor do que próprio ato de possuir. Pensar em amar alguém, abraçar esse alguém, beijar esse alguém, por irrealizável seja, sobrevive e eterniza – se. Beijo não realizado, abraço evitado, encontro mal sucedido podem ser lacunas de toda uma vida. Morre -se sem saborear gosto do beijo, calor do abraço. Mas… se realizado, vai perdendo encanto […]
O prazer sempre é anterior. […]
Certo desejo de não querer chegar nunca. Travar vida onde ela se encontra, para viver esta ânsia inefável de querer encontrá -la mas sem jamais querer encontrá – la. O momento de querer vê – la mas sem querer viver o momento de querer vê – la. Querer senti – la mas sem querer senti – la. Este é o melhor momento. O momento que antecede ao melhor momento. Surpresas de futuro próximo são inenarravelmente melhores do que todo o passado vivido. […] Ideia vira imagem. algo perigoso. Assustador.” (p.102) Marco Aurélio Barroso …ela mora em Botafogo …ou, esqueça seus dramas, para entender o meu.

é assim mesmo
“Torna -se difícil desvendar significados de objetos exteriores a nós, quando tudo se encontra e se esconde dentro de nós mesmos. O mundo somos nós e a paisagem, que passa, só serve para retratar as mudanças, que sentimos.”
E segue, farei recorte, porque posso pensar e dizer …, sem explicar nada.
“Discretamente gostaria de me encontrar com algumas pessoas […] Já outras, não gostaria de encontrar nem em catálogo telefônico. Mas cidade pequena é assim mesmo. Tudo é oculto. Tudo se sabe. Ama-se avassaladoramente, detesta -se visceralmente. Todos sabem de todos. Todos opinam sobre todos. Ninguém conhece ninguém.”
“Que venha vida! Deixarei acontecer tudo aquilo que, pela experiência dos que já passaram e existiram, sei que vai acontecer mesmo. Pois nada muda. O que antecede é sempre o melhor. quem arou, colha!
Última curva.
É aqui …” (p.82-83) Marco Aurélio Barroso …ela mora em Botafogo
fui me afeiçoando
“fui me afeiçoando […]
fui me emocionando […]
fui me afeiçoando […]”
“Assim somos nós, um em vários.”
“Eis aí, talvez, razão de só se sonhar com o que não se possui.”
“Ao se descobrir quem nos completa, algo que não conseguimos evitar, estamos a dois passos da insegurança e a um do infortúnio. Equilíbrio interior desloca -se. Passamos a necessitar de um outro ser que o mundo nos faz conhecer e sentir mas que a vida nem sempre endossa e acata.”(p.47) Marco A. Barroso “…ela mora em Botafogo …”

…, não explico nada, sinto, e o sentir não se explica nem se escreve. Tropeço no degrau …, sigo sem olhar para trás. Faz frio em novembro. Durmo de tarde, durmo cedo, durmo … Não é para esquecer, mas deixar escorrer. Beth Mattos dezembro – 2018 – Torres