classes sociais

… cansada por conta da viagem. As pessoas se acotovelam embora estejam todas sentadas. Distraída deixo meu olhar se soltar e vejo: azuis e cintilantes, febris, inquietos, prontos para o novo, era ele.  Temperamento antropofágico. Como se explica? Algumas pessoas, sensíveis, inteligentes,ambiciosas querem  degraus vivos, pulsantes para chegarem a nobreza / ao lugar certo de destaque.  Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2018

” – Mas como você é retrógrado! E a integração de classes? – disse Oblónski.

   – Quem gostar que se integre, e boa sorte, mas eu sou contra. […] 

[…] você vai me chamar de novo de retrógrado ou até de alguma outra palavra horrorosa, no entanto me irrita e me dá pena ver, por toda a parte, o empobrecimento da nobreza, […] E o empobrecimento não se deve ao luxo, isso não seria nada; levar uma vida de fartura é próprio da nobreza, e só os fidalgos o sabem fazer. (p.177) Liev Tolstói – Anna Kariênina

CANETASSSSSSSS

à distância

O que importa no livro é o elo,  a comunhão que estabelece entre seres humanos, mesmo à distância, mesmo entre mortos e vivos. O tempo não conta, somos contemporâneos de Tolstói, Virgílio ou Shakespeare. Somos amigos pessoais.

Se cada dia cai dentro da noite

Há um poço onde a claridade está presa.

Há que sentar na beira do poço da sombra e pescar a luz caída, com paciência.

PABLO NERUDA

do susto

Acordei assustada do sonho. Fiz chá, acendi luzes.  O significado da necessidade está neste construir e destruir peculiar a natureza humana. É preciso ser livre para viver, mas é, desastradamente, solitário! Esbarro na liberdade: há urgência. A vida queima, nós queimamos. Haverá encontro. Um lençol cobre a terra. No ar transgressões …, na pincelada ruptura. A doença se esparrama. Sinto fisicamente o desânimo.

Será justo, ou não será? Fiz, desfiz, começo e recomeço.  Não saio do mesmo lugar …

Dias longos chegaram. Não estavas aqui, poderias estar. Desânimo. Cansaço igual ao teu. Quero voltar para nós. Costura minha dor e borda este meu arrependimento. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 –

 

Porto Alegre, 7 de janeiro de 1992.

Amiga, querida amiga:

Tua carta é desesperada, é um grito. Eu me preocupo. Estou ao teu lado, quero te ajudar. Tu não podes te deixar abater, afundar na desesperança. Cuida da tua forma física, pinta teu cabelo, renasce. Basta perder peso que voltas a ser o que sempre foste, uma mulher bonita e sensível.

Oportunamente vou te fazer um desenho, será o presente de Natal que passou. Mas não posso fazer uma ratinha, porque não é assim que eu te vejo. Se eu o fizesse mentiria. Precisas sair deste poço, dessa prisão imaginária em que vives tuas cadeias, essas amarras são psicológicas. Não te deixes aprisionar num círculo de giz como acontece com as galinhas.

Eu, atualmente, enfrento muitos problemas. As reformas que fiz no atelier não deram certo! Agora vou jogar a última carta: remover o telhado, substituí-lo por […], única possibilidade de ter a tão necessária luz zenital, a luminosidade do céu. Tudo isso devido ao erro do arquiteto que projetou o atelier. Nesse país a incompetência é geral. Nós estamos sempre pagando a burrice dos outros. A situação do Brasil é a prova maior da incompetência e da irresponsabilidade. Desculpa, mas estou muito irritado com a situação que estou vivendo. Há ainda o caso da Lopo que não se decide. O tribunal está em férias. A justiça é lenta, não tem pressa, é preguiçosa. Seja o que for nós temos que lutar.

Comecei um novo quadro, também de grande formato. Há nele a evocação dos carretéis. Abstenho-me de mais comentários para não esvaziá – lo emocionalmente.

Sei que vais reagir. Para começar cuida do visual, pinta o cabelo, volta a ser bonita. Manda-me uma foto, mas não tão pequena, quase invisível, como a que mandaste tempo atrás. Iberê”

je suis IBERÊ

outra pessoa

…, outra pessoa. Eu tento mudar. Entrar devagar dentro de mim mesma. Reconhecer a menina esquiva, arrisca, mas confiante. Guardo pedras e fitas. Imagino estar outra vez na frente da lareira, o fogo. Não existe tudo …, escolhas foram do jeito que foram, e somos do jeito que somos: uns mais tranquilos, outros menos. E tu estás amarrado na tua vida. Eu vejo o muro …, flores de maracujá se debruçam. Queria te dizer das manhãs, mas escureceu … Elizabeth M.B.Mattos – dezembro de 2018 – Torres depois de chuva mansa. Estou apaixonada pelo livro. Nunca  não existe. Estou / estás tão perto de nós!

Sentiu-se inteiro em si mesmo e não queria ser outra pessoa. […] Todos aqueles vestígios da sua vida pareceram cercá-lo e dizer:’ não, você não fugirá de nós e não será diferente, mas sim o mesmo que já era: com as dúvidas com a eterna insatisfação consigo mesmo, com as vãs tentativas de se corrigir, com os fracassos e com a eterna esperança de felicidade, que não veio e que, para você, é impossível”. (p.102-103)  Liev Tolstói  Anna Kariênina

 

camisola com renda e bordado

Desde que se separara da mulher perdera lastro e sentido: as calças sobravam – lhe na cintura faltavam -lhe botões nos colarinhos, principiava pouco a pouco a assemelhar -se a um vagabundo associal em cuja barba cuidadosamente feita se dectavam as cinzas de um pretérito decente. Ultimamente, observando – se ao espelho, achava que as próprias feições se desabitavam, as pregas do sorriso davam lugar às rugas do desencorajamento.  No seu rosto havia cada vez mais testa:  […]” (p.95) Lobo Antunes – Memória de Elefante

Será que tem diferença do nosso português para o luso?!, brilho no detalhe: cinzas do pretérito perfeito ou  próprias feições desabitavam  ou  pregas do sorriso ou rugas do desencorajamento.  Ou sou eu meio intensa …, um pouco deslumbrada!

Em Lobo Antunes o texto se transforma em detalhe, cada parágrafo reviravolta nesta memória de elefante. Deveria ser nossa, minha, mas não …, impressiona lucidez. Sem esquecimentos ditos momentâneos, claro!, ainda não coloco óculos na geladeira, nem a manteiga vai para gaveta. Vivendo eu comigo a me superar na desordem …, que ninguém toque a campainha ou pense fazer uma visita casual! Uma semana para sossegar a alma e decidir que nos veremos no café da lagoa, ou no banco da praça. Depois …, não vou nem até a esquina e fecho as janelas. Ah! que descuido pensar em comer sonhos e beber chá! Volto a leitura. Este livro se abriu nas minhas mãos! Descuido. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro sem árvore de Natal, nem empanadas. Geraldo gostava de árvore grande, natural e Papai Noel, já o Jorge gostava de surpreender indo visitar o pai noutra cidade! Flávio passava em Buenos Aires. E quando criança íamos dormir cedo, camisolas com rendas e bordados. Lençóis perfumados. Acordávamos dentro do Natal. Acuda! 2018 está terminando, e segue ventando muito nesta esquina.

blasfêmia

E está coisa do amor acabar parece blasfêmia, mas acaba. De repente em corredor escuro, assustado, desaparece. Obsessão não termina, cresce como… Como não sei explicar. Cresce. E logo estou na beira do precipício… Nem adianta gritar por socorro. Se pudesse desviar, saber antes, evitar e voltar… Mas logo me dou conta que o melhor de tudo é este descaminho desvairado / empapado de amor. A danada loucura de se deixar levar. Elizabeth M.B.Mattos – dezembro de 2018 – Torres

euuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu hoje

fora do comum

O amor apaixona. Possível e incomunicável amor aproxima, e se revira atento. Basta  palavra solta, ou intenção desvirtuada. Perigo e voracidade. Olhos sem ver, e pronto, apaixonados. Depois, aos poucos, às claras, já caída no princípio, desavisada, acorda. É de manhã …, tem luz entrando pela fresta da porta. O corpo suado e dolorido. É tarde. Beth Mattos – dezembro ventoso, quente e cinzento com cheiro de mar. Torres 2018

A misteriosa e encantadora Kitty não poderia amar um homem tão feio, como Liévin se julgava, e sobretudo tão comum, que não se destacava por coisa alguma. […]  Um homem feio e bom, como Liévin se julgava, poderia, na sua opinião, ser estimado como um amigo, mas para ser amado com aquele amor que sentia por Kitty, era necessário ser um homem belo, importante e fora do comum. Já ouvira dizer que as mulheres, muitas vezes, amavam homens feios e comuns, mas não acreditava, porque julgava os outros por si mesmo e ele só seria capaz de amar mulheres belas, misteriosas e fora do comum.” (p.38)  Liev Tolstói –Anna Kariênina

LINDA ILUSTRAçÃO mesa e objetos

 

 

 

 

imaginário

Domingo, dezembro molengo, exasperado amassado. Direto ao vazio. Tão tarde para ler Anna Kariênina!  Não deve ser tarde nem para os olhos, nem para o corpo entrar na alma de Tolstói. Encabulada neste atraso …

Lembro das escadas volteadas enroscadas, parede áspera. A biblioteca. Agora penso na cozinha esparramada. Lareiras. Forração na casa inteira, fazia um pisar macio. O primeiro salto alto aos quatorze anos. Banheiros enormes e confortáveis. O tempo de ser criança, depois mocinha a me esconder na ideia de ler muitos livros, depois escrever outros tantos. Desenho amigos que deveria ter tido. Nestes de agora, o esboço. Os possíveis. No escuro da caverna envelhecidos e escondidos, encolhidos, felizes.  Juntos. Na Valentina graciosa e inteligente no alto de seus quatro anos. Nas invencionices da Magda e minhas: dançar ballet ou nadar, cineasta, modelo, ou escalar telhados. Jogar cartas, banco ou pingue-pongue.  Missas domingueiras da Igreja São Sebastião, em jejum para comungar. O cinema Ritz e todas as balas que coubessem nos nossos bolsos, todos os negrinhos/brigadeiros ainda na panela. Lata inteira de paté e uma dúzia de bananas fritas com açúcar e canela. Céus! Podíamos. Cachorro quente e macarronadas.  Abrimos picadas nos afazeres. Correria pelas calçadas, e passeios de bonde. Piano, anos e anos tentando as escalas.  E estudar mesmo, tão pouco! Nenhuma cobrança. Tudo fantasia de cuidados com o que poderia ser … interno: bonecas de papel, bebês com fraldas.

Acordo tarde, durmo tarde sem fazer o que importa. Tudo fora do lugar. Obsessiva por ordem, limpeza, tão devagar na desordem completa. Deixo o dia se arrastar e vou nele, pela calçada, uns minutos, na cozinha, no café preto pensando um civilizado chá, outra torrada. Banhos, sucessivos e obsessivos banhos, se não no mar no chuveiro, de banheira. Sem descobrir o vazamento que se transforma em lago. Vou a me afligir, imóvel. Uma quebração, uma reforma, renovação. O que me espera? Uma mudança quem sabe? Um verão diferente, numa barraca. Ou alugo um quintal com varanda. Fico querendo ser magra, linda e poderosa e corajosa. Que medo de morrer! E de viver também. Encruzilhada.

O feijão ficou pronto. Farofa com banana, salada de todas as cores. Fome nenhuma. Esta comida das panelas coloridas. Carne assada, bifes pequenos: cebola e alho. Vinho, água gelada. Perdida. Esta vida que escolhi sem pernas de fora, sem chapéu Panamá, sem blusa nova, nem sapatilhas coloridas, sem parceiro, sem risadas pela casa. Cheguei no lugar exato/certo. Imaginei. Silêncio e teclando. A doença não defino, vou procurar … conversar sem dizer, estar em olhar, gritar …, de jeito nenhum, sussurrar, colher margaridas e hortênsias. Rezar. Acalmar e rezar. Deve ser o caminho, sem pedras, algumas surpresas, equívocos. Perguntas sem respostas. Rezar um pouco mais, voltar ao tempo do rosário, do convento, de uma ideia reclusa, mas sem perder os bailes nem vestidos com rendas e cetim. E as valsas. E namorar. Multiplico, subtraio. Divisões não me deixam na areia …, nem perto das canchas, tampouco no rio. Estou sempre a caminho, nunca ao alcance do teu olhar. Beth Mattos – Dezembro de 2018 – Torres

o braçooooooooo

“Les autres sont imaginaires

Faux et cernés de leur néant

Mais il nous faut lutter contre eux

Ils vivente à coup de poignard”

Paul Eluare

Il dit aussi:  “Savoir veillir savoir passer le temps”

interior

Interior a grande tristeza mágoa, dor de morte. Tragédia rasgada. Esgaça a vida que se agita inconstante. Desespero. E.M.B. Mattos – Torres de 2018

“[…] as palavras confusas dos sonhos delas misturam-se com seus gemidos numa trança de sons que os unia de um modo tão íntimo que a certeza de nunca poderem separar como que apaziguava o receio da morte, substituindo – o por uma tranquilizante sensação de eternidade: nada seria diferente do que então era, filhas não cresceriam nunca e a noite prolongar – se ia num enorme silêncio de ternura […]”( p.59) António Lobo Antunes – Memória de Elefante

Janela com sombra

Foto de Luiza M. Domingues – Recife – Oficina Brennand