Francisco Brennand

A leitura de Salman Rushdie me manteve amarrada a Turquia por mais de mês. Liberta, desta memória, do reencontro com Paul Auster,  J. M. Coetzee, volto a Francisco Brennand. Retomo o Volume I do Diário. O presente atrapalha qualquer tempo verbal, atropela na urgência: respirar fazer e sentir. O escrever, secundário. Suponho que a leitura atravessa o tempo deste desencontro turbulento da conversa / desejo e silencio. Como se não tivesse face, ou a mesma o tempo inteiro até se misturar ao passado, que será, imediatamente, classificado. Estas leituras absorvem meu imaginário. Prazer rarefeito, num tempo passado,  súbito é o presente: estou com Francisco. Volta a imagem que guardei dele: …, voz gesto (com tremor essencial, explica) e os passos. Estou em Recife com a minha Luiza.  Oficina Brennand, – pura magia. (p.33-58)

“É como se o desenho existisse na natureza das coisas e não fosse apenas inventado.”

” A vida não é literatura. É algo bem mais violento e irreparável.”

“Nesta manhã, o azul é mais profundo, a brisa mais fresca, o céu mais claro, e as esperanças diante do desconhecido bem mais acentuadas do que durante aquelas angustiadas viagens de uma prisão para outra.”

Sempre me pareceu muito curiosa a minha incapacidade de anotar qualquer acontecimento presente, como se o presente não tivesse nenhuma face, como se fosse algo que apenas se preparasse para uma diluição ou esquecimento e em seguida o pretexto de recomeçar uma história, desta feita, no passado e propícia ao devaneio, aos devidos ajustes, todos na dimensão de nossa desatenta compreensão. O passado como fiel da balança. “

“Embora a história não se repita, os homens através dos tempos – com uma imaginação limitada – não fazem senão repetir – se.”

“Só se vence batalhas, pelejando, só se domestica um cavalo, montando. Jamais realizei nenhuma dessas proezas. […] sou um neófito, ávido de iniciações […]

As coisas deixam de ser provisórias para de repente assumir ares de realidade a ser vivida e resolvida. ”

[…] “ beber um Château Mouton Rothschild. Não sei com segurança como definir um vinho ‘encorpado’, desde que não sou nenhum enólogo. Em todo o caso, me vêm à mente a consistência, o aroma, o paladar como se a boca estivesse cheia de alguma substância incorpórea, que ao mesmo tempo liberasse e sufocasse algo quase enlouquecedor. Não passei de uma taça e, sem terminar o meu jantar, me retirei para o camarote. ”

“Esta palavra ‘ destino’ teve um efeito negativo no meu espírito, pois me soou como uma espécie de condenação”

“Pasmosa solidão, entremeada pelo ruído cadenciado e veloz que em parte impedia de olhar a paisagem, nem que fosse por segundos. ”

Assim são as nossas emoções, sempre baseadas no pressuposto de que temos o tempo e a vida como aliados, quando, na realidade, acontece exatamente o contrário.”

Francisco Brennand – Diário

a cesta de praia

Festiva majestade praiana. Completo existir / ser, poderosa. Amigos a cercam com gentileza e sorriso. O lugar onde estica a toalha de praia, enorme (aquela que Marco trouxe: marrom bege e branco), abre o guarda-sol e se transforma. Eu me aproximo insegura, mas logo sigo a caminhada até a beira do rio, passo pelas canchas, e vou molhando meus pés na beira do mar. As frutas, a garrafa com suco, com água gelada, o guardanapo azul e branco que protege biscoitos e o bolo de laranja fatiado. Sanduíches de queijo. E aquele ficar na praia se estende alegre. A cesta arredonda, ela mesma única. Festim perfumado ilumina minha lembrança. Desta irmã chegam sorrisos, pessoas, histórias e encantamento. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018 – Torres

a melhor foto dos peixesssssssssssssssss.jpg

o amor não bastava

Envelhecer: desânimo estarrecedor. Obstáculo agressivo. O mistério na intimidade das pessoas ou a incompreensível sobrevivência do amor no coração da ausência nunca será esclarecido se não houver confronto. Hoje a sensação, ou a certeza de derrota… Sem resposta. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018

“Talvez ele não quisesse que ela o visse velho. Talvez ele não quisesse vê – la velha. Talvez a lembrança do que ele não tivera a coragem de agarrar fosse esmagadora demais. Talvez ele a tivesse enterrado fundo demais e não conseguisse mais exumá – la, e o horror de estar com a condessa Olenska e não sentir mais o que sentira fosse demais para ele suportar. […]  Ela estava imobilizada como Newland Archer ficara imobilizado, a passagem dos anos a havia bloqueado, e, muito embora uma expressão de amor tomasse conta de seu rosto cada vez que o nome dele era mencionado, ela não conseguia agir sobre o que sentia. Para ela era mais real sem ele do que ele voltasse. Então ela nunca respondeu às suas cartas, nunca telefonou para ele e nunca o viu nos dezesseis anos que lhe restaram. […].  Às vezes, o amor não bastava. ” (p.548-549) Salman Rushdie  Memórias

 

identifico

  1. Bastante vento, e uma coisa ruim no ar. Não sei por que você veio olhar para mim, falar comigo, cutucar e desaparecer como se fosse rei do mundo; isso me aborrece. Identifico tua dor e problemas, particulares. eu sei. Mas, não compreendo. Amanhã…, sempre existe outro tempo outra hora outro momento. Que seja! Elizabeth M.B. Mattos outubro de 2018 – eu me aborreço.

Ter só o rastro de uma memória é contemplar, os olhos banhados em pranto, a marca que a amado perdido deixou moldada na poltrona.” (54) Orhan Pamuk – O Livro Negro

agressões

Valor conteúdo, o mínimo detalhe. Escolha e incerteza. E sofrimento. Na guerra inocentes se despedaçam. Por mais insignificante e fugidio que seja o instante ele se projeta enorme …,  agressões se multiplicam nas calçadas. Então, fechamos janelas e portas. E sofremos. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018 – Torres

ao telefone, tua voz

…, saudade não tem sentido. Ontem, hoje apertado por dentro! Eu te escuto,  …  ouço. Beth Mattos 2018

De tanto contar com o impossível, eu me enraízo na minha toca.”

“Eu sinto uma dificuldade de ser.”

Deve ser um sonho viver confortavelmente em sua própria pele.” (p.149)

Jean Cocteau  A dificuldade de ser : a dificuldade de estar em mundo cheio de fronteiras, regras e compartimentos pode ter sido o motivo que levou Jean Cocteau a expressar a sua dificuldade de ter um só corpo, sendo múltiplo. Editora Autêntica – 2015 –

 

foto de menino

1.

Nublado quente e esquisito. Sem governador, nem presidente. Tensão do mal-estar. Apequenar, encolho. Fico a pensar, a imaginar como será amanhã …, um depois de amanhã. Já tenho sulcos no rosto, chamam de rugas. Em volta da boca também. Apenas os olhos se espantam, esquisito esta coisa de envelhecer. E devagar. Um dia depois do outro, tanto envelhecer! O corpo se encolhe. Um ano, ou dez meses, ou uma hora que tentei estar contigo para ganhar esta aventura de rejuvenescer na memória. Nestas memórias recentes de ventania. Nas ondas de mar. Invasão de luz, descobertas. E depois, uma insatisfação calma que talvez seja apropriado definir como tristeza. Fecho a porta com cuidado, volto para mim. O alvoroçado me deixa exigente, tu gritas/ sussurras: “não posso, não quero, não devo”… Sonho o sono tranquilo da porta fechada no delírio. Imagino sem permanência. Se me afasto, mais fundo mergulho, não compreendo. Para o amor vou me despindo. Tiro a roupa devagar, sem pudor, exercito. Outras vezes enrubesço e faço tudo às pressas, já no escuro. Quero ver, mas tenho medo de ver. Não é timidez, mas covardia mesmo. Elizabeth M.B. Mattos

Sempre, imaginar será mais que viver.

O trabalho do segredo vai infinitamente do ser que esconde ao ser que se esconde. O cofre é um cárcere de objetos. E eis que o sonhador se sente no cárcere de seu segredo. Gostaríamos de abrir e gostaríamos de nos abrir. […]

Quem enterra um tesouro se enterra com ele. O segredo é um túmulo. […] Joë Bousquet escreve: ‘Ninguém me vê mudar. Mas quem me vê? Eu sou meu esconderijo’. ” Gaston Bachelard A Poética do Espaço

Quando o tempo tem este gosto de quero mais, por favor, espera por mim -,  como posso te explicar o que eu sinto sem olhar no teu olhar e, então te deixar porque queres me deixar, vai ser assim, nós vamos nos largar … Esquisitices da vida. Recorte estranho …, mas não imaginas o gosto do prazer que foi te encontrar neste acaso de uma foto de menino. Não consigo. Não consigo te esquecer. Beth Mattos

amor ardido

Acontece uma coisa estranha quando se escreve sobre si mesmo. Isto é, o eu direto da pessoa, não o eu projetado. O resultado é frio, implacável, crítico.” (p.542) Doris Lessing  O Carnê Dourado

Comecei a ler os livros de Doris Lessing em Santa Cruz do Sul, 1983. O Carnê Dourado: história de mulheres livres – mulheres sem maridos em consequência de fracassos matrimoniais.  Nada importa. E se contar parece uma bobagem. Estranha inclinação. Livros se cruzam.  Memórias de Salman Rushdie , sigo devagar, lenta. Registro a conversa DORIS LESSING..

Doris Lessing estava escrevendo suas memórias e foi discutir o livro com ele. A maneira de Rousseau, ela disse, era a única maneira; você tinha de dizer a verdade, contar o máximo de verdade possível. Mas escrúpulos e hesitações eram inevitáveis.’ Naquela época, Salman, eu era uma mulher bonita e havia nesse fato implicações que você talvez não tenha levado em conta. As pessoas com quem eu tive, ou quase tive, romances … muitos eram famosos e vários ainda estão vivos. Eu penso mesmo em Rousseau’, ela acrescentou, e espero que este livro seja um trabalho emocionalmente honesto, mas será justo ser honesto com as emoções dos outros? […] Ele queria dizer, mas não disse, que estava de novo imaginando uma vida sem ser escritor, pensando na paz e tranquilidade, talvez mesmo na alegria, dessa vida.”(p.367)

… estou covarde, e volto a pensar. Sobre caminhos internos / interiores quase tudo  foi dito. Nunca me senti tão … Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018

SALMANNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN

DORIS LESSING LIVROSSSSSSS

teus olhos veem

Ao espelho olho meus olhos. Vejo o verde que teus olhos veem sem me ver… O vento (venta tanto!), se mistura ao pensamento. Agitação estranhada. Sobressalto ventoso quando teus olhos descrevem os meus olhos. Rejuvenesço. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018

FOTO PARA HÉLIO daquele tempo