transformação e o mesmo

“Nada pode ser mais espantoso do que a vida. Exceto a literatura”. Ibn Zerhani

Abro um livro ansiosa, outro Orhan Pamuk -, o livro que ainda não abracei O livro negro, reconheço as outras leituras,  a retomada, o cenário, a Turquia, o Bósforo …, e as intenções sérias do meu dia seria arrumar, limpar, fazer, conservar, ouvir música. É tudo repetidamente o mesmo. Amanhã vou até a beira do rio Mampituba almoçar : vou pedir um camarão, uma cerveja , talvez batatas … e vou ficar quieta esperando o prazer. … eu me sinto impotente, oscilando,  e … não passou, ainda não esqueci tudo que pretendo conversar contigo. E. M.B. Mattos 2018 – outubro – Torres.

desordem mesa preta tudo

 

 

conhecer sem ver, intimidade possível

A bibliografia derrama e esparrama sombra -, teu traço. O processo intelectual,  o desenho definitivo de uma pessoa abraça sentimento e fazer. Pensar junto é estar com alguém / compartilhar, dividir. Contar seria / ou pode ser / viver com alguém. Quando nos apercebemos / ou nos damos conta da importância intelectual de um vida aceitamos/ entendemos que viver é, essencialmente, pensar: não há vida sem a trajetória da reflexão. Não se pode agir e abandonar o essencial -, a interioridade, o vigor da inteligência, a inquietude. Abandonar o universo interior – o EU. Assim a descrição deste mundo que passa, permanece. Caso contrário, tudo será apenas a I L U S Ã O de conhecer alguém que se apoia num agora, efêmero, quase sombra, apenas ilusão. Conhecer alguém não é compartilhar a cama, o almoço, ou ver / olhar para alguém. Não é apenas estar, no espaço e no tempo, com alguém. Não basta descrever o momento, escutar a lágrima, presenciar o fato, ou ver televisão juntos. Para nos avizinharmos, realmente, de alguém,  é preciso descobrir a alma, e caminhar pelos mesmos caminhos internos. Pensar este alguém, entender uma pessoa no seu fazer pode ser descortinar o trajeto intelectual: este caminho é o mais importante de todos. É ver através de. Aquela estória do espelho, reflexo e imagem, transparência no vazio que pode ser o outro em mim, e eu no outro já foi repetida, explorada, não foi? Sei lá. Na verdade não preciso conviver no sentido literal da palavra, mas trilhar a bibliografia intelectual, e assim, mergulhar no outro. Pensando! Confuso, difícil, mas esta me parece a única intimidade possível. Ou a carnal / a intimidade de corpo / sexual, – esta também é um conhecimento sagrado. Comunhão carnal, ou espiritual, através delas chegamos ao outro. Ou dividimos espaço / casa e tempo e experiência, ou a mesma cela sem mesmo nos determos no fio condutor da inteligência / sensibilidade. Ou somos estrangeiro ao outro, se terminar o espaço, nada mais saberemos do outro, até o rosto esqueceremos, fica a superfície, um reflexo. Conhecer é reconhecer sem ver, mesmo no escuro, no silêncio, sabemos da voz do olhar e sentimos o corpo sem tocar. Saber na intimidade absoluta na leitura completa da outra pessoa pressupõe conhecer a narrativa intelectual desta pessoa. Assim, ser no outro, e o outro ser um pedaço de nós mesmos pode ser literal, ou apenas uma metáfora, bem, se for literal é completo. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018

O mundo dos velhos, de todos os velhos, é, de modo mais ou menos intenso, o mundo da memória. Dizemos: afinal, somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos. E eu acrescentaria: somos aquilo que lembramos. Além dos afetos que alimentamos, a nossa riqueza são os pensamentos que pensamos e não deixamos apagar e das quais somos o único guardião. Que nos seja permitido viver enquanto as lembranças não  nos abandonarem e enquanto, de nossa parte, pudermos nos entregar a elas. […]  O relembrar é uma atividade mental que não exercitamos com frequência porque é desgastante e embaraçosa. Mas é uma atividade salutar. Na rememoração reencontramos a nós mesmos e a nossa identidade, não obstante os muitos anos transcorridos, os mil fatos vividos.” (p.30-31)  Norberto BOBBIO in  O Tempo da Memória 

Norberto Bobbio nasceu em 1909 no Piomonte. Sua formação inicial foi em filosofia política e jurisprudência na Universidade de Turim. Figura de notável significado moral, tornou – se um dos mais influentes teóricos da esquerda italiana e um dos mais importantes políticos contemporâneos da Europa. Em O TEMPO DA MEMÓRIA, Bobbio traça um irônico e honesto auto – retrato. Editora Campus – 1997 – Rio de Janeiro

O honesto e a ironia e esta intensa, desenfreada e nostálgica necessidade cresce e me alimenta. Este livro, de todos os que li de BOBBIO, é boa sombra. Reencontrar amigos da juventude, adolescência e mocidade -, um desejo de permanência. Percorro a memória. Volto a me apaixonar e encantar pelos jovens que um dia nós fomos. O incrível destas memórias e desejos é o efeito. Vibrações alegres e adolescentes em relação ao amor.  Há sempre um novo amor e amado, e porque não foi dito tudo / nem sentido / nem compartilhado, sigo até o fim, a esperar.  Alguém pode entrar, e pisar no meu gramado. Atenção! Que não pises nos meus sonhos / nem destruas meus sonhos.  Caminhe com cuidado, não esqueça, estamos juntos nesta memória. Beth Mattos / Elizabeth M. B. Mattos

P.S. Certeza de que os amores findos, terminaram com serenidade, e sem sofrimento. Apenas terminaram com tristeza, claro, mas ainda posso pensar neles. 1997 – Torres

o sono

…. madrugada, e não estás onde eu te penso. Que o sono te abrace!

 

E.M.B.Mattos …, chegou a ficar perfeito. Quase nada, apenas o que sinto. Sigo seguindo e não perdoei. 2018 – outubro

peregrinações de amor

Já foi dito já foi escrito já foi pensado já aconteceu. Já terminou já voltou. Já não sei… Já não falo nem digo, nem vejo. Tudo misturado. Ela sabia.  E.M.B. Mattos – outubro de 2018

“Um caos interior, semelhante àqueles vulcões secretos que, de repente, erguem os sulcos nítidos de um campo pacificamente arado, aguardava, aguardava , por trás de todas as desordens do rosto, cabelo e roupa, uma fissura por onde explodir.” (p.13)

Nas múltiplas peregrinações de amor, Sabine era ágil em reconhecer os ecos dos desejos e amores maiores. Os grandes, especialmente se não tivessem tido morte natural, jamais morriam por completo e deixavam reverberações. Uma vez interrompidos, rompidos de maneira artificial, sufocados acidentalmente, eles continuavam a existir em fragmentos separados e infinitos ecos menores.”

Tudo que tivesse sido arrancado do corpo, assim como da terra, extirpado violentamente, cortado, deixava debaixo da superfície raízes muito ilusórias, muito vivas, todas prontas para medrar de novo sob uma associação artificial, por meio de um enxerto de sensações, dando nova vida a esse transplante de memória.” (p.100 – 101) Anaïs Nin Uma Espiã na Casa do Amor

Anaïs Nin nasceu na França, em 1903. Viveu durante anos em Nova York mas retornou à Europa na década de 30. Foi discípula das descobertas psicanalíticas e precursora do feminismo e da revolução sexual. Faleceu em 1977

melhorzinha

liberdade

“[…], a liberdade não diz respeito essencialmente ao que as pessoas podem fazer, ao que são capazes de fazer …, mas a responsabilidade de cada pessoa pelo que faz ou pelo que não faz em qualquer circunstância. […]  A liberdade não é livre de responsabilidade, liberdade é fazer escolhas e, por conseguinte, assumir responsabilidade.” Gary Cox

pinacotecaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

cães

se eu tivesse uma casa/jardim/quintal recolheria cães perdidos, os chamados sem raça definida: maltratados, e sofridos andarilhos

se eu pudesse eu resolveria o problema destes cavalos escravizados atrelados em carroças que correm ao chicote sem saber o por quê

o bicho homem pode ser tão cruel! Indefinidamente cruel

E.M.B.Mattos – outubro de 2018

na fazenda com os cães

Lolita ou FALA, MEMÓRIA

Porque estou inquieta escrevo. Preciso ficar dormindo. Não consigo. Renovar recomeçar, adolescendo. Céus! Evito pensar no cansada, no exausta, no tempo. Existem pessoas geniais, mesmo quando elas não se sabem geniais. Não sei definir o fantástico, único, especial, inteligente, iluminado. Aquele que resiste, persiste, fica e decide. Eu oscilo entre leituras oscilantes. Quero aquele prazer suado, libidinoso, quente. O livro termina antes da leitura findar, num parágrafo é já é ponto final. Outras leituras são arrastadas, lentas, e eu vou seguindo, fico eu mesma lenta…, e nesta lentidão indecisa. O vagar abraça beija, mas não move. Sei lá…, não se resolve. Então eu abro outro livro. “O berço balança sobre um abismo e o senso comum nos diz que nossa existência não é que uma breve fenda de luz entre duas eternidades de escuridão.

Uauuu! Literatura, palavra ou apenas uma frase, dois verbos, duas orações. Não resisto: “Embora as duas sejam gêmeas idênticas, o ser humano, como regra, vê o abismo pré-natal com mais calma do que aquele para o qual se dirige (a cerca de quatro mil e quinhentas batidas de coração por hora).

Com precisão ele ousa. Ele é. Ele diz. Ele me assanha. Eu releio, depois vou seguindo. “Conheço, porém, um jovem cromófobo que sentiu algo como pânico ao assistir pela primeira vez a filmes caseiros feitos poucas semanas antes de seu nascimento. Ele viu um mundo praticamente inalterado – a mesma casa, as mesmas pessoas – e então se deu conta de que ele não existia ali em absoluto e que ninguém lamentava sua ausência. Viu de relance sua mãe acenando de uma janela do andar superior e este gesto não familiar o perturbou, como se fosse um adeus misterioso. Mas o que o assustou particularmente foi a visão de um carrinho de bebê novo parado na varanda, com o aspecto presunçoso e invasivo de um caixão; mesmo aquilo estava vazio, como se, na inversão do curso dos acontecimentos, seus próprios ossos houvessem desintegrado. ”

E eu quis dividir a sensação de estranheza porque entrar na escuridão completa parece abusivo. Injusto. Irei protestando. Já disseram que tenho este lado novelesco exagerado. Estou sempre a sapatear no azul mesmo em dias abusivamente cinzentos.

[…] “A natureza espera que um homem adulto aceite os dois vazios negros, antes e depois, tão impassivelmente como aceita as excepcionais visões entre um e outro. A imaginação, deleite supremo do imortal e do imaturo, deve ser limitada. A fim de aproveitar a vida, devemos não aproveitá – la demais. ” Aceito. Eu concordo, e mergulho, engolindo água, nesta imaturidade insistente. E fico consternada. Não quero envelhecer, não quero morrer, não quero pensar, nem quero os livros, já expliquei. Quero viver. Nabokov segue: “Eu me rebelo contra este estado de coisas. Sinto uma compulsão de externar minha revolta e provocar a natureza, insistentemente, minha mente tem feito esforços colossais para distinguir a mais mínima cintilação pessoal na escuridão impessoal de ambos os lados da minha vida. A convicção de que este escuro é provocado apenas pelas muralhas de tempo que separam a mim e a meus punhos feridos do mundo livre da intemporal idade é algo que compartilho alegremente com o selvagem pintado com as cores mais berrantes.” (p.19-21) Vladimir Nabokov in Fala, Memória

LOLITA (filme ou livro) está na memória, ou deveria estar, ou vai chegar na memória dos jovens que ainda não leram ou não viram, ou não sabem. Vladimir Nobokov nasceu em São Petersburgo, em abril de 1899 e morreu em 1977. E vou atrás de referências. Encontro uma carta do Paulo Hecker Filho -, acredito que posso/ podia / deveria e…, eu não fiz o tal livro de memórias, ainda não consegui. Envelhecer pode ser dolorido se não guardamos as boas conexões. Eu acho. Elizabeth M.B.Mattos – outubro de 2018

estteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

P.Alegre, 18 de fevereiro de 2004

Beth:

        Estás dando um baile com tantas remessas, verdade que menos cartas – diálogo -que diário. Leva a pensar se não seria de tentares um diário mesmo, em que poderias te deter nos problemas pessoais e aprofundá – los. Pensa nessa

       Não li Desonra, mas A idade do ferro e o COETZEE é mesmo bom. Enxuto, como notas, mas sabendo assim ser mais patético.

       Como falas em ir muito a cinema, não percas Dogville e Terra de sonhos, diversos e chegando longe. 

        Um beijo

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Vi os dois filmes. Poderia rever um e outro. Releio as cartas do Paulo porque todas acrescentam. Sinto falta/saudade.

…, aos poucos vou voltando para casa, devagar. Apesar de ser tão perto, a viagem está sendo longa, lenta, vou/ volto devagar. Pesada a bagagem. Vou carregando tudo o que me pediste. Acho que não esqueci de nada, qualquer coisa escreve, e pede outra vez. Eu vou buscar. Beth Mattos

não sei se tem som

  1. Esta coisa da chuva é pretexto, mas qualquer fuga responde …, uma casa esparramada, envidraçada …, lajotas. As portas-janelas abertas apesar da chuva, … uma aba enorme protege o alpendre. Não molha a cadeira, nem a rede. A sonata se perde pela sala …, os espaços disputam melodia. Ele adormece meio sentado, reclinado, contrariado. O peso parece maior, mas não engordou, nem emagreceu, apenas parou de rir, de falar, segue/persegue o silêncio, e se abstraia da voz da mulher, da música e se afunda …, no sonho, nas correrias de menino, e nesta imobilidade. Albertina acomodada ao silêncio segue o sono que atravessa suas costuras, seu fazer. Ela não larga a rotina. A casa tem o cheiro da cera, do café, da carne assada, do feijão e das frutas picadas. Perfume de rosa e de jasmim. O mato entra pelas narinas como se fosse jardim, pomar, refúgio cozinha e sossego. A chuva bate forte na vida, e renova a terra, o revirado daquela fantasia. Imagino. Inesperadamente eu vou.
  2. Vidraças pingadas. As crianças apertam o nariz no vidro enquanto a chuva deste outubro se atrasa. Brinquedos, livros e cestos pelo chão. Espero acomodar as lembranças e assumir o jardim. Gavetas e estantes ordenadas. A poeira se aquieta, as panelas se escondem. Vejo a ponte entre o mar e a estrada, estremeço inquieta. As palavras me ensurdecem. Exijo silêncio, e adormeço. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2018

tempo suspenso

Uma segunda-feira cinzenta de chuva forte (como eu gosto) e raios e trovões e tarde escurecendo. Quando morava em casa as sensações de estar/pertencer a natureza eram maiores. E podia me encharcar inteira naquele gozo prazer. Barulhada no estômago. E volto no tempo de pensar o tempo do Rio grande do Sul tão avesso ao que vivi no Rio de Janeiro! Diferente da rua Vitor Hugo, em Porto Alegre e daquelas embaralhadas lembranças.

Existe um tempo suspenso, interno, que tudo determina num estranho repetir, repetir, repetir …, se me pergunto o motivo destas questões não resolvidas caio naquele poço da Alice no País das Maravilhas. Não existe coelho, tempo, chá, nem estou com avental branco … apenas a queda e o buraco se assemelham. Como ela, durante a queda, vou espiando/vendo curiosidades. Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2018 apenas registrando a chuva e a saudade de escutar a voz do meu pai e da minha mãe. Eu, de natureza arredia e desconfiada, espiava. Demorei a sair de casa, do convívio deles, assim mesmo, eu me pergunto, aonde o tempo? E aonde nos escondíamos os três.