recorte de um dia

Acordei cedo. Acordo cedo porque durmo muito cedo. E mesmo se não durmo eu me enfio na cama para que a noite passe mais depressa. Penso que posso preencher o tempo escrevendo, lendo, pensando. Ou vendo um filme. Acabo não vendo filmes nem televisão. Tenho sempre a preocupação de fazer o que preciso fazer, e antes vem a leitura, ou escrever. Tem um ANTES tão grande que só ligo a televisão se estou com sono. Então ouço notícias aterradoras, e mais uns minutos desligo, não penso nada, e não faço nada: as notícias assombram.

Antes de pensar em alguma coisa eu me enrolo numa manta e desço para o gramado com a Ônix, – ela é comportada e companheira, se não levo “se aguenta”, acho uma judiação não pensar nela primeiro, penso.

A ideia de escrever sobre um dia chegou enquanto lavava a louça, depois do café, depois de fazer mil pequenas coisas, quando eu me pergunto: e agora?”Estrada seria longa. “Todas as estradas que levam ao que nosso coração almeja são longas.” Beth Mattos

jambo com luz flor e reflexo paty

cansaço físico

A liberdade não está ao alcance, ao alcance das mãos, da cabeça, mas solta na alma. Não domino sentimentos que me afastam, ou aproximam desta ou daquela pessoa (fico confusa). A natureza de ser/ter/ estar se altera no cansaço físico, mas também por dentro …  Escrever sobre eu mesma, ou como sinto, enxergo ou me vejo, ou formatar um dia em palavras. Difícil, abstrato embora descritivo. Um exercício. Volto a um velho texto de um velho livro: “Existem numerosas espécies e gêneros de hortaliças, porém todas, segundo nossos princípios de classificação, jazem no lodo. Crescem aí e aí são colhidas. Batatas, tomates, chicória e nabos. Seres não – humanos e seres humanos. Alterando a analogia, poder – se – ia dizer que vivemos vidas que estão encaixadas desde o nascimento à morte. Desde o ventre de que nascemos à caixa da família, da qual progredimos para dentro da caixa da escola. Quando saímos da escola, já nos tornamos tão condicionados a viver numa caixa, que, daí em diante, erigimos própria caixa, uma prisão, um receptáculo em nossa volta … até que, finalmente com alívio, somos introduzidos no caixão ou no forno crematório. ” (p.35) Davis Cooper, – Psiquiatria e Antipsiquiatria, – Editora Perspectiva, Coleção Debates, São Paulo 1967 . Livros respondem, perguntam e acompanham, então cada um guarda nas páginas em branco o segredo de cada leitor. Respiram no mesmo ritmo. E escutam os telefonemas da madrugada. Elizabeth M.B. Mattos – abril 2018 – Porto Alegrefotos de todo tipo

velha amizade

A mente esquece, o mundo muda e as velhas amizades seguem. Mornas, suaves e profundas como o mar.”2 de maio de 2018 DAvid Coimbra2 de maio de 2018 Coimbra mais uma foto

Bilhete memória fragmento. Fico a pensar no peso de cada vontade…, ou aproximação quando a geografia afasta. Engasguei na leitura. Nuvem negra: tenho  guardada, e me escondo nela indecisa medrosa. Gostei do que escreveu David Coimbra. O amigo virtual segura minha mão e atravessa a nuvem. Agradeço. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018

cartão carmélio meu nome

Volto no tempo para me confortar com boas lembranças. O passado um alicerce. Valorizar o caminho/jornada para chegar na Beth de hoje. Não posso me esconder no que foi, também não devo temer o que vai ser amanhã. E nem escamotear o hoje.  1964 -Carmélio Cruz, fez meu retrato: aquarela. Dois anos depois, um óleo sob tela.Beth Mattos

carta com rosascarmélio noticia 1965.jpg

da poesia

 […]

Mas não há nada mais poético do que as coisas reais e concretas. Adoro a poesia de um abraço, de um beijo amoroso e apaixonado, ou a paixão de um prato bem servido ou o perfume da boa cozinha. Poesia concreta mesmo. Não aquela que assim foi chamada, mas nada concretizou e tão só “concretou”. Aquela era poesia “ de concreto”. A nossa, poesia concreta. A do abraço, do aperto, do afago. A poesia que tuas cartas descrevem com nitidez, profundidade e extrema beleza. A poesia irreprodutível numa cartinha fac-símile quase pública. Acho que só conseguirei chegar aí no final do mês, ou início de julho. Irei de carro. Aviso-te com exatidão nos próximos dias.

N a  inesperada intransigência o conforto do passado.  No vazio ou na falta o alimento interior. De dentro. A espera vem de dentro. De dentro. Lembrança empilhada. Mansa terna amorosa. Maio molhado pela chuva que se sacode cantando alto. Hora de pensar inverno e aconchego. E.M.B. Mattos – 2018

sem vontade …

…, desanimo quer dizer sem vontade sem alegria sem palavra. Amontoado de velhas desgastadas inúteis tentativas.

Hoje me deu tristeza, sofri três tipos de medo acrescidos de fato irreversível: não sou mais jovem.” Adélia Prado –  fragmento de Dolores

Hoje me deu tristeza por não saber o que dizer. Hoje senti tristeza porque não estás comigo. Não estarás amanhã, nem depois de amanhã.  Senti tristeza porque tropecei nas letras. Derramei o leite, deixei cair o pão. Esqueci a manteiga. Não abri a janela. Desânimo quer dizer sem vontade. Elizabeth Mattos – maio de 2018 – ainda Torres

medo

Cálida noite quase estrelas. Terra úmida abastecida. Preenchida. Posso caminhar, ou desistir. Olhar para trás, fechar os olhos. Mergulho na tua voz. Mergulho no ontem. Agarro a palavra. Respiro. E. Mattos – 2018

 

Gosto de …

Caipira com pouco, pouquíssimo, açúcar terminando a manhã.

Almoço com salada verde e carreteiro feito por mim.

No fim do dia, uísque sem gelo, apenas lua.

Anoitece escuro. Ponto de luz no céu.

Elizabeth M.B. Mattos – maio 2018

 

Das cartas que contam história:

longasssss cartasssss integralllllll