pensando no impossível

Se não tivesse acontecido o encontro daquelas pessoas que velavam agonia em soturna despedida, eu não o teria conhecido…

Se ele, o outro, não tivesse mencionado o avô francês, a filha em Israel. Se os olhos machucados não fossem azuis!

Se tu não estivesses morrendo do outro lado da porta, e eu não tivesse desesperado …, nada teria acontecido. O inusitado acontece no desarrazoado e no imprevisível. Foi desta forma que tudo se passou: loucamente sem lógica.

Se eu não tivesse presenciado aquele presépio invertido, não teria sorrindo complacente ao discurso nervoso do outro lado da sala, e nunca teria vivido amor no corpo de outro homem.

Das roupas pretas do luto, das mãos frias e dos cabelos desfeitos, da cadeira de espaldar alto, frustração.

Cega piso nos meus sonhos e termino encolhida.

Poço cinzento: respirar é morrer aos poucos: beijar teus beijos. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre –

objetos na mesa preta sala

mero egoísmo

Há quem diga (e também já li em alguma parte) que o mais alto amor sentido pelo próximo não passa no fundo de mero egoísmo. Estranho recorte. Acho que somos o olhar do outro, a vontade do outro, o desânimo do outro. Estupefata! Nada me define; sou o outro. Não há defesa possível. Tu recuas, eu recuo.  Então a liberdade presa no fio, … estranho carretel que corre para baixo do sofá … o fio está preso no pé da cadeira, tropeço, ou melhor eu me enrolo. Que saudade posso ter de mim mesma se não existo sem teu olhar tua palavra, teu gesto. Esquisitices de viver. Elizabeth M.B.Mattos junho de 2018 – Torres

lindaaaaaaaaa

Foto de Ana Maria Vianna Moog – junho de 2018 – Torres

um dia viajamos

Meu amigo: quantos meses ou anos?! Que enorme e imenso tempo de não falar escrever nem saber um do outro. Não te esqueço: seguro e prendo. Nem sei mais o porquê de tanto silêncio e tanta lembrança. São anos de estudar e não aprender, de escutar sem entender. Como foi bom sermos jovens nos corredores daquela velha Notre Dame, a faculdade. Francisco Brennand não me espera e avança no tempo de ter 90 anos. Quero te contar. Eu avó – velha e menina. Quero publicar um livro do Amoras, escrever uma novela, ou ficar eternamente jovem, não consigo. Envelheço. Aqui faz frio. Ônix e eu nos acompanhamos nas caminhadas e no dia. Nunca pensei que seria assim: um cão e eu.  Pensei amores amados. Pensei romance, beijo e encantamento, mas não é assim viver. Exige. Exige atenção cuidado e solidão. Das mais carregadas e profundas solidões. Leio um livro depois do outro. Ou dois juntos aos tropeços. Anoto. Esqueço. E sigo escrevendo sem projeto, sem linha. Precisaria do amigo, da tua supervisão, do meu professor. Igual desanimo. E o Rio de Janeiro se perdeu. Não sei como seria a Viúva Lacerda, ou a Macedo Sobrinho, nem a Redentor, nem Ipanema, nem Copacabana, nem a Floresta da Tijuca, nem o francês. Engraçado como fica tudo para trás …, nem Limoges, nem Paris, nem a Bretanha. Eu poderia ficar para sempre por lá. Poderia? Recomeçar. Recomeçar. O dia tem que ter esta carga esta força esta coragem E não saio do lugar. Estes dias encontrei uma carta da Laila. O nome me encanta, mas me dei conta que fui apenas eu a procurar. E a Sonia morreu, e logo nem tu nem eu estaremos aqui porque ninguém fica, todos nós viajamos, um dia. Beth Mattos

quebra-cabeça

onde estou? grades nas janelas (só no primeiro andar, é verdade, para proteção – tem um desenho geométrico que lembra raios de luz partindo de um dos ângulos e não há barreira ocultando a paisagem). Os quartos cheios de leitos com cobertas cinzentas. Faz frio. E em cada um há um homenzinho aterrorizado. Pela manhã recebe – se um pãozinho, chá e açúcar (o que é uma quebra de regulamento, uma vez que mais tarde chega o verdadeiro desjejum). junho de 2018 – Torres

Appellation  Bordeaux contrôlée

Oui, sim, tu não ias concordar com o almoço: um filé apertado entre duas fatias de pão. Queijo quente. E um bordeaux. Comprei para nós. A preguiça instaurada na cozinha rebelde. Quero o beijo inesquecível, o possível. Somos viáveis no desejo, e com tua juventude inviáveis no passado. Estou enlouquecida pelo amor que nominaste, menos amor, mais desejo. E eu me importo/isso importa?? Não. Nada mais sensual do que envelhecer juntos. Podemos? Hoje vou beber a garrafa inteira. Não estás aqui, mas poderias estar…, eu te espero. E.M.B. Mattos. A Beth em junho de 2018 a que tu encontraste no Amoras.

 

lírios e alfazemas

Caminho  / meio, bastante ausente. Perambulo pela livraria e penso: escrever é passado. Revisitar o que ainda guardo na memória. Compro noturnos e sonatas e livros. Ordenar tem que ser mais do que passar lençóis, dobrar roupas, arrumar gavetas, apontar lápis, comprar novas borrachas, ou pijamas. Ordenar seria te ver. E te tocar. Eu quero.

 

Lírios em botões. Hortência azul. Sabes o que eu gostaria de fazer?  Viajar sem bagagem /apenas juventude.

 

Finalmente a visita. Quieta, paralisada. Estupefata. Nada está em ordem. Não importa. Talvez possamos apenas caminhar, caminhar. Faz frio!  Comprei alfazemas. Passei álcool nos vidros. Deixei livros espalhados pelas mesas: leituras abertas…

 

Persigo sombras num jogo lúdico. Brincadeira séria. Mas tu sabes, eu sei que não sabemos nada de ciranda. Estamos tensos. O melhor seria aquela pedra em cima de tudo. Mas não consigo te esquecer, então, decides vir: decides aplacar esta curiosidade amorosa e inquieta. Examino meu rosto. Marcas rugas, e a boca não é a mesma. Não sou definitivamente a mesma. Terei coragem de me despir? Terei coragem de te beijar, tocar mesmo sabendo que és só (apenas) um momento, só  este agora. Mesmo sabendo que és o menino brejeiro. Marcas da idade acentuadas. Se eu fizer uma maquiagem escondo ansiedade alegria tensão, mas não o desejo de te devorar. A menina distraída se descola e enxergas/vês uma velha senhora ansiosa. Cinquenta anos para este olhar. …, sabes como me sinto neste momento? Em paz, tranquila e, enroscada em ti na maturidade de nossas vidas. Incrível intimidade que nunca existiu e parece nunca terminar”. Beth M.B. Mattos –  junho de 2018 Torres

DESENHO INTERESSANTE RECORTE

ilustrações

não sei …”Na verdade, nada sei quanto à história, mas gosto das ilustrações. Isso me mantém ocupada e razoavelmente sensata durante o dia. À noite, porém, fico agitada demais para dormir. Rondo o jardim como uma leoa enjaulada. Sinto sua falta.”

eu eu eu eu

O CAMINHO do MEIO  Onde termina a Extraordinária Correspondência de Griffin&Sabine

compatíveis

Compatibilidade exasperada enorme única.  Amorosa.

E o tempo …, este inverno desce ventoso gelado. Eu te penso. Volto ao mundo colorido, ao teu presente. Sonho o dia inteiro a noite inteira. Somos viáveis em quase tudo. Sim, fica o quase para o inviável. E a distância. Meu lugar pode ser junto de ti, independente / dependente. Feliz com muito ou quase nada. Beth Mattos

presos

Ainda presos um no outro. A forma física determina o ritmo da respiração, e também do desejo. Apaziguada …, como explicar? Alegria. Guarda esta alegria. Não quero que te sintas triste porque não estarmos lado a lado. Em nenhum momento deixei de estar contigo. Se não fisicamente, estou no sonho. No beijo. A vontade vai nos dar o presente: fomos/somos/ estamos afundados na mesma nostalgia.  Beth Mattos – junho de 2018 – Torres

Dos 17 anos aos 18 anos: memória e lacunas

Protegida pela vida. Sim, sempre a ousar, mas com retaguarda e cuidados. Cabeça nas nuvens ideias próprias e fantasia. Situação particular. Aos 17 anos circulo pelas galerias de arte com interesse e cuidado. REVISTA DO GLOBO abre espaço e publico trabalhos sobre homens-pintores recebo cachê no valor de um livro. Neste ano eu me sinto poderosa e completa. Posso dançar, estar na noite, conversar até amanhecer. Não penso em namorar, mas em trabalho. E o mundo parece ordenado ao meu gosto e prazer. Célia Ribeiro me convida para participar do Jornal Feminino na televisão com uma coluna de sugestões para leituras. Ainda era branca e preta, programas ao vivo. Decorar o texto minutos antes de entrar:  Marlene, Paulo e Célia, e a Cristina (tão bonita!) atentos uns aos outros. Uma pauta a seguir, mas também buscávamos / apresentávamos nossas próprias notícias. O programa acontece de segunda a sexta feira. Aos 17 anos eu me sinto gente grande. Estávamos competindo com a TV Piratini, o canal forte da época. O horário é das 18 horas até às 19 horas. A Revista Globo faz uma matéria com fotos ao vivo. Sucesso. Lembro do orgulho ao ser convidada a participar do Jornal das 22 horas com o Lauro. Ganho também o meu primeiro salário. O meu dinheiro. O valor deste começo início: maior do que eu possa explicar. Não esqueço que o pai me levava até o Morro da televisão e ficava me esperando, cuidando. Como se eu fosse a um baile de gala. Ou uma festa no palacete dos Cirne Lima na Avenida Independência. Tia Manoela, se a memória não me falha. Os casarões ainda estavam lá… como Porto Alegre mudou! Eu caminho de mãos dadas com o encantamento. Meu verdadeiro baile de debutantes foi trabalhar na televisão com segurança. E deu certo.

Parei para fotografar, de jeito pouco nítido, notícias de jornal para ilustrar a matéria. Tempo de coluna social de vestir Rui e trabalhar, e fazer acontecer, das ilusões. De leituras até a madrugada. De textos longos e inacabados. Da Aliança Francesa, das Cônegas Colégio Bom Conselho. Dos noivados desfeitos. Desafios. E bailes. Eram os 17 que se preparavam para os 18 anos. E Torres. Os verões na Sociedade Amigos da Praia de Torres (SAPT) coroavam o ano. As fantasias com gosto de sal. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 – memória em Torres, agora meu lugar.

cabelo curto diante de um quadromeu rimeiro poema publicado

Eu procurava o amor  e esperava, como faço ainda hoje. ” Eu te espero”: incrível! Aos 72 anos este amor, o definitivo, não chega. A vida uma passagem de desencontros, onde estão os acertos? Esta matéria é bonita.  Jornalismo de Manoel Aranha.

Manoel Aranha

luis carlos lisboa.jpgfoto que me acho linda.jpgAdoro esta matéria.jpgum livro aos 18 anos.jpgos trajes de gala.jpg

O livro prometido que não aconteceu. Estranho voltar no tempo porque a matéria testemunha a vontade de escrever, de estar engajada, de trabalhar, o gosto pelas letras e pelo mundo. O que aconteceu? Fiquei ancorada em mim mesma, atrelada aos casamentos, e ao gosto da maternidade. Os filhos coroaram sonhos. Afinal, como respondi na entrevista: “o casamento é um acidente pode acontecer ou não.” Que audácia! Bem, eu não tinha namorado.

Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2018 TORRES que me acolheu. Quem diria? É verdade que o Rio de Janeiro tem uma fatia enorme da minha vida. E me deu amigos inesquecíveis como Iberê Camargo Roberto Acízelo Sonia Bastos Paulo Sérgio Carlinhos Lyra Eduardo Costa, e  não posso citar assim de cabeça. A Viúva Lacerda, o Humaitá a faculdade de Letras, o magistério no Colégio da Providência, descobertas poderosas de se saber possível. E depois Santa Cruz do Sul, Rio Pardo, e a ULBRA (Universidade Luterana do Brasil) em Torres, sem esquecer Montevidéu, mas não aprendi a falar castelhano. Teimosa.