Nossa conversa …

Voltou o sol. As calçadas estão possíveis, e as pessoas abrem janelas e se animam. Vou mentalizando o que pretendo te dizer e vou construindo enormes parágrafos como se pudesse lembrar vinte minutos depois …. Esqueço. E na rotina já estou envolvida a limpar isso e aquilo. Quero acordar a vontade de reciclar, renovar, mas me vejo apegada, rastejando os olhos pelo apartamento sem me desfazer de nada, amontoo. E o que deveria ser não apenas iluminado, aberto, espaçoso e agradável fica superlotado de lembranças. Há qualquer coisa no ar, na memória nos pequenos e grandes desencontros… Um ranço que não sei definir. No entanto, meu amigo, sei que temos aquela afinidade da palavra, da ideia, do fluxo sei lá bem o que é. Nossa conversa se mistura como se fosse uma hera invasora que sobe muros, árvores e se esparrama perdida, sem começo, e acaba apenas suspensa cheia de vontades e perguntas ansiosas.

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Onde estás? Quero retomar a fala, e os resmungos também. Sigo amorando, mas muito menos do que gostaria. Os dias são pequenos dentro da rotina de levantar fazer o café varrer aspirar polir aqui e ali e sair. Abrir um livro, fazer uma citação, olhar fotos, abrir e fechar caixas. Ir de uma janela para outra. Sonhar. Pensar: onde estás? Por que deixamos de ser apenas nós para nos impor uma representação teatral, não fosse saber que estamos sempre nesta exposição enlouquecida que é viver. Eu te penso. O dia amanheceu mais claro depois de chover cinzento, enfiado a trovejar por três dias e três noites…. Viajo pelas estantes limpando livros, separando os que não lerei, os que vou doar, os que vou esquecer, mas também separo aqueles que, possivelmente, vou reler se tempo houver…  Circular e misteriosa relação. Elizabeth M. B. Mattos  –  outubro de 2016 Torres

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A verdadeira pátria

“A verdadeira pátria do homem não é o orbe puro que subjugou Platão. Sua verdadeira pátria, à qual sempre regressa ao fim de seus périplos ideais, é esta região intermediária e terrena da alma, este dilacerado território em que vivemos , amamos e sofremos e, em um tempo de crise total, somente a arte pode expressar a angústia e o desespero do homem, pois, diferentemente de todas as demais atividades do pensamento, é a única que capta a totalidade de seu espírito, especialmente nas grandes ficções que conseguem adentrar o âmbito sagrado da poesia. A criação é essa parte do sentido que conquistamos em tensão com a imensidão do caos. ‘Não há ninguém que tenha alguma vez escrito, pintado, esculpido, moldado, construído, inventado, a não ser para sair do seu inferno.’ Absoluta  verdade, querido, admirado e sofrido Artaud.” (p.69)

ANTES DO FIM – Ernesto Sábato

Outra vez Simone e as fotos

A chuva parou. Parece. As árvores  imóveis. Talvez aconteça de se sacudirem mais tarde. Talvez chova outra vez muito e bastante. As buganvileas estão lavadas e floridas. Eu me agarrei nas velhas leituras, e na limpeza.  Lavo, tiro o pó, lustro. Empilho. E sinto o cheiro do papel que me excita. Os livros me esperam  espalhados, prioridade número um, desfazer-me dos que não vou ler, dos que deixaram de ser, dos que … já estão esquecidos. Guardar os amados, os lidos, e os que lerei. Talvez. Espaço.Limpeza. Depois vou eu mesma pintar as pareces. Renovar o estofado dos sofás, e depois vou ficar bem quieta para não gastar. E também vou comer salada, muita salada, e frutas como a Magda me explicou. Pode ser que emagreça… Ou talvez  abra um café livraria, e coloque o som do piano na eletrola, ou Jacques  Brel cantando. E fico atrás do pequeno balcão para descobrir quantos cafés posso vender numa tarde. A Ana Maria vai trazer pão integral feito por ela, a Joana o maravilhoso bolo de laranja. Pedro prepara os sanduíches, e a Luíza serve as mesas com aquele sorriso largo, e faz as contas.

Das arrumações de armários juntei duas caixas de louças, talheres e sonhos para doações. Agora vou aprender o que é viver com Simone … ler e cantar, mas certamente, vou amar. Tenho paixões inexplicáveis. “…minha vida em seus impulsos, suas depressões, seus sobressaltos, minha vida que tenta dizer-se, e não servir de pretexto a ademanes.”

Vou me molhar outra vez se a chuva não parar nesta quarta-feira de prender o  Eduardo Cunha… Trovejou, trovejou. Choveu. E fiquei com os cabelos colados no rosto porque Ônix e eu caminhamos na chuva.

“Mais uma vez, cortarei o mínimo possível. Espanta – me sempre que se reprove um memorialista por se estender; se ele me interessa, irei segui -lo durante volumes; se me aborrece, dez páginas já são demais. a cor de um céu, o gosto de uma fruta, não os sublinho por complacência para comigo mesma; ao contar a vida de outra pessoa, eu anotaria com a mesma abundância, se os conhecesse, aqueles detalhes que se dizem triviais. Não  só  é   por meio  deles  que sentimos  uma  época e uma pessoa em carne e osso, mas,  por  sua não significância,  eles são, numa história verídica, a própria marca de verdade; nada indicam além deles próprios, e a única razão de evidenciá -los é o fato de estarem ali: isso basta.”

“[ …] tenho mais prazer em me descobrir do que em me lisonjear, pois meu gosto pela verdade ganha, de longe, das preocupações que tenho com a minha pessoa: esse mesmo gosto explica – se pela minha história, e não me vanglorio.

“Um comunista ou  gaulista contariam de outro modo esses anos; e também um operário, um camponês, um coronel, uma Elizabeth Mattos, ou um músico. Mas minhas opiniões, convicções, perspectivas, interesses, compromissos, estão declarados: fazem parte do testemunho que dou a partir deles. Sou objetiva, evidentemente, na medida em que minha objetividade me envolve.”(p.6-7)

A força das Coisas Simone de Beauvoir

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Projeto de

Projeto de escrita, de memória, uma história.

  1. É no avesso das barras, das famosas bainhas que se esconde a perfeição, o bem feito da costura, o verdadeiro bordado… O cimento, a argamassa no bem feito avesso da pintura na parede de uma casa. Este avesso escondido, o detalhe prefeito, o bem feito…
  2. Em toda a curta e medida palavra, o ponto inteiro. Toda a verdade entre dois pontos. A palavra é o mínimo, o menor texto dos textos sem derramada explicação. Sem assertiva nem desvios, ou curvas. A palavra virada em poema.

Fosse qual fosse a precisão dos detalhes verdadeiros ou falsos que se pudesse vir a acrescentar ao que já é …. Penso.  Ironia, emoção, aridez ou paixão ….  Posso ver no teu olhar, meu menino, os fantasmas e as fabulações.

É um sem fim entre a sinceridade de uma fala e o artificio da escrita a erguer uma muralha. Eu sei.  E afinal, lembrar é como E M B A L A R

bala perdida, bala achada, bala doce como mel, que não vem do fel, e sim da rima. Escrever brinca e brinda.

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Passeio e chuvisco

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Passeio e chuvisco. Um dia, ou foram dois ou três com chuva chuva chuva e trovoadas? Cinzento de manhã cinzento de tarde, e sem a lua prometida…

Ônix de roupa cirúrgica, mas faceira, eu sem guarda-chuva fomos passear. Já parando de molhar, molhando só pouquinho…, até a praça. Estranheza das poças na calçada. Agora o ventão!

E já tem alegria enfeitando minha casa.

 

A Roda Gigante de Pedro

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Sensação de estar fora do contexto, noutro lugar. Um lugar que não é meu, mas assim mesmo meu. De tantas coisas não participei, passaram, pulei…, e vem a tristeza. Ando triste e o tempo jogado nesta tristeza…  Acho que a vida deve ser tranquila mesmo sendo triste. A tristeza é um recolhimento, um silêncio, até uma descoberta que te põe na roda novamente… se estás triste, não entra na Roda Gigante, não vais ver nada lá de cima. A tristeza pede silêncio. Depois chega a hora alegre de alegria. Não jogar o tempo fora, mas ficar com a tristeza o tempo de ficar. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2016 – Torres

(O grifado foi retirado de uma carta sem data de Pedro Moog)

Simone de Beauvoir

“Que alegria poder fechar a porta e passar dias ao abrigo de todos os olhares! Durante muito tempo permaneci indiferente ao aspecto do ambiante em que vivia; talvez por causa da ilustração de Mon Journal, preferia os quartos que ofereciam um sofá e prateleiras, mas eu me acomodava em qualquer canto; bastava-me ainda poder fechar a porta para me sentir plenamente satisfeita.” (p.16)

“Felicidade é uma vocação menos comum do que imaginam. Parece-me que Freud tem inteira razão de ligá – la à satisfação de nossos desejos infantis; normalmente, a menos que empanturrada até a imbecilidade, uma criança formiga de apetites: o que tem nas mãos é tão pouca coisa em confronto com essa superabundância que percebe e pressente ao redor de si! E ainda é preciso que um bom equilíbrio afetivo lhe permita  interessar – se pelo que tem, pelo que não tem. Observei- o amiúde: as pessoas cujos primeiros anos foram devastados por um excesso de miséria, de humilhação e de medo, ou – principalmente – de ressentimento, não são capazes, em sua maturidade senão de satisfações abstratas: dinheiro, (se o dinheiro, como dinheiro, não dá felicidade, diz Freud, é porque nenhuma criança deseja o dinheiro) honrarias, notoriedade, poder, respeitabilidade. Precocemente presas de outrem e de si mesmas, desviaram – se de um mundo que só lhes reflete mais tarde a antiga indiferença. Em compensação, como pesam, que plenitude de alegria podem trazer – lhes as coisas em que aplicaram o absoluto!” (.31)

A Força da Idade  (1929-19440)  Simone de Beauvoir

individualismo irredutível

Chove. Chove e chove em Torres. Sem ventania.

Primeiro Dai Sijie, depois  vou me derramar nas ponderações sobre

Jean-Christophe. de Romain Rolland.

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“Durante todo o mês de setembro, depois do roubo bem-sucedido, fomos tentados, invadidos, conquistados pelo mistério do mundo exterior, sobretudo o da mulher, do amor, do sexo, que os escritores ocidentais nos revelavam, dia após dia, página após página, livro após livro. Não apenas Quatro-Olhos havia partido sem ousar nos denunciar, mas ainda, por sorte, o chefe da nossa aldeia tinha-se ausentado para participar de um congresso dos comunistas do distrito, em Yong Jing. Aproveitando-nos da vacância do poder político e da discreta e momentânea anarquia reinante, recusamo-nos a trabalhar nos campos, coisa que em nada afetou os aldeões, ex-cultivadores de ópio constituídos guardas de nossas almas. Desse modo pude dedicar-me aos autores ocidentais, por trás da porta mais que nunca trancada – e, com a frivolidade e seriedade de meus dezenove anos, encantei-me de Flaubert, Gogol, Melville e até de Romain Rolland.

Falemos de Romain Rollad. Na maleta de Quatro-olhos só havia um de seus livros: o primeiro dos quatro volumes de Jean-Christophe.  Como se trata da vida de um músico, e como também eu era capaz de capaz de tocar ao violino peças tais como Mozart pensa em Mao, desejei folheá-lo, como quem flerta levianamente, tanto mais que havia sido traduzido por Fu Lei, o mesmo tradutor de Balzac. No entanto, assim que o abri, encantei-me. De costume preferia livros de contos que apresentam histórias bem amarradas, cheias de ideias brilhantes, às vezes engraçadas, ou de tirar o fôlego; histórias que nos acompanham por toda a vida. Sempre desconfiei dos romances, com raras exceções. Mas Jean-Christophe, com aquele individualismo irredutível, sem nenhuma mesquinharia, foi uma revelação edificante. Sem ele nunca teria conseguido compreender o esplendor e a amplitude do individualismo. Até aquele encontro roubado com Jean-Christophe, minha pobre cabeça educada e reeducada simplesmente ignorava que se pudesse lutar sozinho contra o mundo inteiro. O flerte se transformou em grande amor. Até mesmo a ênfase excessiva à qual o autor havia sucumbido não me parecia nociva à beleza da obra. Sentia-me literalmente devorado pelo fluxo poderoso de centenas de páginas. Para mim, era o livro sonhado: ao término da leitura, nem a maldita vida nem o maldito mundo poderiam ser como antes. ” (p.95-96) Dai Sijie

Balzac e a Costurerinha chinesa

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Segredos nem tão secretos

No fundo dos olhos azuis houve um lampejo de intensa tristeza. E raiva. Que cena tão simples havia sido lembrada? Tão dilacerante! O dia que tudo terminou. A certeza de que não há nada para ser dito. Altera a voz, e o olhar… Seguimos caminhando pela rua Redentor. O sonho, não é mais o seu sonho, nem sua escolha, ou decisão. A vida rasga o tempo, e separa o amado do amor. E já houve confidência, deslumbramento. Correr para o nada, entender o medo, saber o segredo daquela mala vazia. Ouvir, mas principalmente falar, e contar histórias enfiadas umas nas outras. Entrar naquela vida como se fosse possível desaparecer nos olhos azuis… E reaparecer dentro dos segredos secretos. Como se o outro fosse eu, e eu o outro. Estar enfiada naquele abraço. No para sempre… Ideia velha do para sempre será. Em contos de fada existe a obscura e misteriosa intenção de não terminar… E viver felizes para sempre (engraçado eterno inconsciente) que permanece para sempre. E nada é para sempre. Nem a terra, o mar, nem o sorriso, nem a pedra, nem a história, o exílio, e menos ainda a presença, o amor, ou a amizade. Tudo tem tempo, validade. Não há tempo neste tempo delimitado. Olho para suas mãos presas nas minhas mãos. E já nos contamos o incontável. A distância reside neste inexplicável. A esta entrega já chamamos de amor… Como você escreveu em telegrama demorado.

De perto é fácil amar e de escasso mérito quando objeto amado, cheio de doce ternura na voz, no jeito, nos lábios merece algo transcendente insubstituível abarcando não mundo, mas também vida e morte. Talvez assim Gaal entenda que estando ausente se ama ainda mais. Cartas não chegaram. Mantenho data viagem para o dia nove. Avisa hora oculista não tocar na marca que marca o pescoço, nem pintar parte superior da cabeça, pois nada mais elegante que cabelos brancos quando o interior é jovem. Arroz integral bom companheiro de dias noites de solidão junto ao mar. Beijos. Abraços.

Perdoa se eu o feri ao abandoná-lo, também não deixei de me ferir. Descobrir o vazio, e este enorme nada também doeu. Temi você pensar que eu me reservava a parte mais agradável sem me preocupar em deixar-lhe o lado desagradável. Não é verdade. Eu me senti infeliz por fracassar. Você me fez falta de todas as maneiras, em todos os instantes, e a ideia do erro, por mais de uma vez me fez absolutamente infeliz. Assim eu procuro reestabelecer a mesma convicção, vozes, odores, toques, rosas, petúnias, hortênsias. Cravos, laranjas, pêssegos e morangos. Sem esquecer das amoras azuis, e das lágrimas que me sufocam neste momento de adeus. Aperto sua mão, agarro sua tristeza…

“Agora, quando roço a tua pele e no silêncio te sinto estremecer, me pergunto para que evocar o exílio, aqueles longos dez anos [… ] Eu me lembro tanto de tanto ou de tudo que, talvez por isso, tentei esquecer. Quando te amo, este amor enfurecido de beijos e abraços ocupa todo o espaço da memória, e só então, vivo tranquilo e em paz. […] Esquecer? Impossível, pois o que eu vivi caiu também sobre mim, e o corpo ou a alma sofridos não podem evitar que a mente esqueça ou que a mente lembre. […] E por não esquecer te conto, minha amada. Como um grito te conto. Ouve e lê.”(12-13) Flávio Tavares – Memórias do esquecimento

Penso que as idades passam, os interesses, os amores, os amados e fica apenas o vácuo. É o novo se acomodando dentro de mim. Ou é apenas um novo que sempre foi, e vai voltar e vai desaparecer… A tal nostalgia. Afinal o que dizemos se revela no que não falamos. E está dito nas entrelinhas. A sutileza do contexto que não se explicita.20140219_125557

Apenas mais tempo

Se o tempo voltasse e me despejasse nas mãos arrependimento dor e tristeza. Mágoa e perda e também encantamento. Alegria juvenil, ou apenas amor, apenas bondade, apenas o melhor …, o que eu diria se o tempo voltasse? Eu responderia para o  tempo que eu quero tudo igual, tudo igual e a mesma coisa, quero apenas mais tempo senhor tempo. Elizabeth M.B. Mattos – 2018 Torres

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