Gosto deste cinzento, desta chuva miúda que se apresenta lenta, modesta. Calçada molhada, a poeira descansa. O verde das folhas veste matizes amareladas, lustrosas. E o silêncio, cheio das vozes agitadas da passarinhada, me agita por dentro nesta gramática canhestra. Gosto do cinza, e do preto daquelas nuvens.
Eu estava lá
Talvez eu tenha estado lá com a ambição juvenil de mostrar teu engano, que as coisas não se resolveriam daquela maneira, não com lógica, evidências, ou comparações. Avanço afetivo, soluções chegam com as constantes novas versões…A repetição. Construímos enigmas sobre as questões fundamentais da vida e da morte (tempo, amor, permanência), sobre questões para as quais não temos a resposta. É esta falta de resposta mesma que nos anima a ir em frente. Pelo que sabemos até agora, precisamos dos enigmas para continuar a viver. É uma maneira de estruturar a vida e dar-lhe sentido. Flutuando, ou não, eu estava lá.
Desculpas
Cada um à sua maneira, feliz. A sua maneira soluções, e alegrias. Retorna-se ao começo. Retoma-se ao erro, ao acerto. Arrancar, extirpar equívocos. Reconhecer a Zuleica, o Fernando, a Mariela. Com vagar e paciência, olhar, esmiuçar: o reflexo no espelho. Diário, relato, memória possível! Atenção particular à surpresa, à ruptura, ao imprevisível visível. Ao desejo oculto, ao perdão. Trilhar, e reconhecer trajetória íntima, virtual, ou do outro… Reconhecer corpo, idade específica do problema. Nada fácil. Respirar é difícil.
Mergulhar na rotina, na disposição cotidiana. Lugar, morada, jardim. Cães, filhos, ou amigos. Irmãos tios, primos, desconhecidos: a infância. Fingir desconhecer, não reconhecer, não repousar dentro de si mesmo: abismo pessoal. Sofrer antes do sofrimento chegar. Pausa. Parêntese. Ponto depois de tantas virgulas. (Generosidade). Não recuar, não fugir. Não perder o hoje, reconhecer a mão que pede socorro. Matemática com todas as operações que ainda não aprendemos. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2014
Preconceito
Preconceitos: alfabeto, regional, cor, sotaque, ideia, floração, cerca em círculo. Apertado azedo, e complicado. Divergência em coquetel: beleza, fluído, estupefação, trabalho. Diferença explode em nuances alegres, trágicas. A ser descoberto, o mundo.
– Não posso comer. Não vou pentear o cabelo.
Janelas fechadas, segregam.
– Não sou voraz.
– Fecho os olhos, mas voto, aperto, teclo.
Caótica escrita. Corrompemos o corrompido. Crianças se espantam… indecisas, encolhidas. Preconceito. Elizabeth Menna Barreto Mattos – Porto Alegre – 2014
Vamos pra Paris agora, imediatamente
Bois de Bologne novo mundo de vidro: luzes, surpresas, dobras, outras luzes, um museu.
Ciranda Cirandinha
Torres com vento, vento nordeste, aquele vento já grudado na infância da praia agreste. Conversa com mar marrom. O vento sacode areia na peneira azul do pescador. O vento dá voltas, volta inteiro para trás!
Copo vazio. Cabeça transborda luzes natalinas. Reiteradas notícias, duvidosas, assediadas. Estupefação! Velho medo. Desconhecemos o vazio desta novidade televisiva. O revólver, o estupro, outras flores esmagadas…
Uma xícara de chá, depois a raiva. Certeza pequena. Mentira, realidade, e mais vento. Estupefação. Teremos ministro? O que é mesmo que acontece? Quem é esta senhora raivosa que se apresenta positiva? Vamos recortar personagens, todos, recontar a história, fechar a repulsa, recomeçar modesto, singelo, sem prepotência. Cantaremos CIRANDA cirandinha vãos todos cirandar!
Silenciar
A escrita se desfaz, desaparece, aos poucos, silenciamos. Não faz sentido o dito, tão pouco! A corrente amigável se desfaz, lenta. Desaparece, estamos isolados. Um dia menos, outro, menos ainda. Conversas não dizem, não falam mais… A televisão, música, e a leitura. Muito? Não. Pouco, quase nada, porque não existe o outro. Há que fazer acontecer o encontro, a roda, a ciranda da música. E o amigo, quieto do outro lado fica mudo. Jogo frenético das cartas, do game? Computador, olhos parados. O que posso mesmo fazer neste dia de mormaço? Tantas outras gavetas para remexer, ordenar. E depois? Entregue ao som do minuano – primavera. Forte pelas frestas. Elizabeth M. B. Mattos – TORRES
Mariana Alcoforado
Cartas de Mariana Alcoforado (1640-1723)
No ano de 1669, surgiu em Paris um livro intitulado Lettres portugaises traduites en français (“Cartas portuguesas traduzidas para o francês”), publicado por Claude Barbin, o editor de La Fontaine e de Mme. De La Fayette.
Fragmento da Terceira Carta:
(…) Sentir que eu estava com você era tão maravilhoso que eu não tinha como imaginar que um dia você estaria longe de mim (…). Prefiro sofrer mais do que esquecer você. Será que isso depende de mim? (… Não invejo sua situação, e você me dá pena. Desafio você a me esquecer para sempre. Orgulho-me de tê-lo conduzido a um estado tal que somente comigo você experimente o prazer perfeito; e sou mais feliz do que você, porque tenho mais ocupações. (…) Sua ausência cruel, e talvez definitiva, não diminui em nada o êxtase do meu amor. Quero que o mundo inteiro saiba dele, não faço segredo, e me sinto feliz por ter feito tudo o que fiz por você, ainda que contra todo o tipo de decência. (…)
(p.43-44) Editora Imago, 1992. Cartas de Amor de Mariana Alcoforado, Coleção Lazuli. Tradução e apresentação Marilene Felinto.
Gaveta de memórias
Meu amigo:
Sinto falta das tuas cartas… Difícil encontrar o outro! Silêncio, o não vivido. Escrever, dizer, ouvir, entender, mas palavras não ultrapassam a experiência. Nem uma palavra, nem uma só tem sentido, ou explica. Dizes amor e ódio! Não há amor, não há ódio, não há amigos, não há inimigos, não há fé, não há paixão, não há bem, não há mal…O que nos dissemos não conta, o fato é o que vivemos.
Ao te escrever volto às cartas que não chegaram! Penso no que não apreendi…Por tanto tempo estivemos perto, estando separados! Irônico e generoso.
Não escrevo a tua história…Tu escreveste esta memória. A traiçoeira memória! Desenhos, personagens, palavras, a doença. Tuas memórias pelas minhas…O último azul: três solitárias figuras. O código. Porto Alegre te devorou. A solidão te queimou. As cartas contam do desespero. Maltratei nossa correspondência…A história que tenho para contar não tem começo, escorrega.

