Elocubrações

A mesma história: com cada pessoa, diferente.

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O novo não pode vir de uma vez, tem que vir, assim, em pequenas porções: pitadas.

Sou arisca, não sou tímida, afirma Beatriz, mas sou mansa. Lenta.

Dá uma trabalheira ser feliz! Se não me atendo, eu me perco, e constato: o incompetente é invejoso e mau.  Mas, e o inimigo? Qualquer coisa, ou pessoa, ou ideia que esteja me paralisando, ou tirando meu foco de mim.

Os brincos

As coisas têm valor no uso. Naturalmente. Ou não importam. Troféus não importam. Num gesto cansado,  alucinado, abandonei os óculos naquela esquina, na casa roxa da esquina. O alinhamento da vida com o que de fato se pode e deve fazer… Há despedidas, constantes adeuses para nunca mais, perdas, ou desencontros, desacertos. Um peso estranho ao tempo, sem espaço, sem concreto. Levo uma mala, uma única mala. E tudo fica pra trás, em caixas. A espera… Cheiro do recomeço, que afinal, é um começo. Não existe voltar. Assim, o bom seria retomar o hoje esticado na rotina de tirar o pó, lavar, esfregar, polir. Escovar. Usufruir daquelas quatro horas precisas, diurnas, sem sono. Colocar os brincos. Mas nunca mais pude usar os brincos! Longe de ser o peso do ouro, os brilhantes, o trabalho do ourives. Apenas os brincos que  me encantaram, alegraram ! A luz do aniversário. Desapareceram. Deveria ter sido cuidado, perfeito, foi atabalhoado, estreito, desencontrado o dia deste aniversário. Cansado. Tenho quebrado as coisas. Como as quatro taças de licor que o vento derrubou, estupida ventania! Minha tumultuada volta para Torres! Tudo fora do lugar. Perdida. Destruída, a recomeçar. Afetos medrosos. O brinco, bilhete, a moeda, restava pouco! E fora do lugar. Outra vez coloco em prateleiras  sentimentos. Outra vez achada, encontrada. Tão difícil! As caixas escondem, tudo aparece e desaparece. O que escrevo faz sentido, e logo já não faz nenhum sentido. Estrangulamento, estranhamento. Não vou ao encontro do fato, desapareço, eu também, nas caixas, nas estantes.

Elizabeth M.B. MATTOs – novembro de 2014- Torres

Estacionada

Enquanto sonho  no meu sono repasso detalhes: o que perdi ontem, ou o que de fato não consegui fazer? Por que sonhei este sonho? Os equívocos, minuciosamente detalhados. Como posso, tão serenamente, aceitar perda, vazio, e sorrir disfarçando. Desconectar. O sonho me desperta. E a noite não termina. As cores estão guardadas para o amanhecer. Este desencontro com a beleza me inquieta. Não faz sentido, não há motivo para se deixar ficar parada no mesmo lugar, no entanto, este lugar existe, o de estacionar. Estupefação da imobilidade. Como se neste mundo hoje de hoje, neste meu mundo que é o de todos nós, não fosse possível, de jeito nenhum, controlar imobilidade. Não irei a Feira do Livro, a exposição de Iberê Camargo. O fazer acontecer se esvazia na impossibilidade de pegar o lápis, o caderno, o livro. Seguir. Os objetos, o dia derruba minha vontade, a coragem, mais ou menos assim, estou sem freio, sem controle, e nesta corrida contra o tempo, estacionada.

Fragmento

DEVANEIO DE VERÃO

                                                                                 

“Miriam pendurava na parede uma reprodução de Santa Catarina, do Veronês. Adorava aquela figura de mulher, sentada à janela, a meditar. As janelas da casa eram demasiadamente pequenas para que alguém se sentasse junto. Mas uma frente da casa estava rodeada de madressilvas e de vinha virgem, e dava para os altos ramos de carvalho, daquele lado do pátio, enquanto a outra das traseiras, quase do tamanho de um lenço, não passava de uma clarabóia que olhava o nascente, e de onde se via a aurora despontar sobre os montes familiares.”[1]

 

 

 

Primeiro Tempo

 

 

Errei o rumo: entrei na única e possível loja de tecidos que Porto Alegre abre entre óleos, aquarelas, panos e cheiros: telas, rendas, algodão.

Deleitada pelas sedas de amarelo-ouro, azul-celeste, preto levando ao verde desmanchado em rosado com o branco, mas fechado na palha seca do Manabu Mabe. Compro um tecido, metragem para casaco: seda com roxo, castanhos, pontos em vermelho: saliências entrelaçadas. É o pano usado pelo pintor Kirchnner no seu autorretrato. Saio da loja como a Mariana de Millais: idealizo o vestido de veludo.  Na tela de tema medieval imagino a corrente da castidade. Vejo aberta diante dos vitrais das Virgens a preguiça imóvel. E, também, como ela, não sento na banqueta de estofado vermelho. Atravesso os olhos pela janela, como no quadro, e sonho com as pilhas de tecidos cheirosos do incenso e da madeira lustrosa do mogno… Espio, através dos vidros dos armários fechados, as rendas bordadas. Toco de leve no quadro de um Cristo, pendurado entre estantes, pintado por Georges Rouault: A cruz domina a composição e ocupa toda a tela. Cores ricas e formas rudemente desenhadas aumentam o poder desta imagem de salvação. Toda a realização, inclusive as densas linhas que contornam as áreas de cor, lembra os vitrais…

Lembro, agora, o quadro do pintor Graham Sutherland onde a figura de Somerset Maugham está toda em tons de amarelos, castanhos e dourados, com a manta vermelha no pescoço. Escolho estas cores em tecidos de algodão que misturados à seda farão o vestido longo que eu quero usar na dança, depois de beber o vinho e … E então será como O beijo, de Gustav Klimt, onírico. A luxúria e a decadência. Devaneios.[2]

[1] Filhos e Amantes, de D.H.Lawrence.

[2]  A reprodução das telas citadas, e descrições se encontram no Livro de Arte, de Mônica Sthahel: Ernest L. Kirchnner,  Autorretrato; Sir J.John E.Millais Mariana; Georges Roualt Cristo na Cruz; Graham Sutherland, Retrato de Somerset Maugham.

Jacarandá em flor

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Flores de jacarandá.Tapete colorido no túnel verde da rua Luciana de Abreu. Chove miúdo, contínuo. Ao vento elas caem roxas, silenciosas, nas calçadas. Posso escorregar! Sigo lentamente ao teu encontro, logo, a Santo Inácio, teu sorriso. Devagar! Posso escorregar…

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Respostas

Imprevisibilidade. Como tu espera pode ser reflexo do que tu realmente esperas. Raras situações requerem respostas instantâneas…Impaciência existe no despropósito. Difícil imaginar! A humanidade já se correspondeu por cartas transportadas de navio! E o encanto podia ser lúdico, intenso, completo, e perfeito.

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Vala Seca

Meu amigo:
Vencer a doença, ultrapassar a barreira. Dar o passo necessário para receber outra dádiva. Abrir a porta, e debruçar-me em tua direção. Confesso sofrimento. Dor no corpo, principalmente, membros. Também as costelas apertam, como se usasse espartilho reajustado, a cada meia hora. Depois, respiro, vingada.
Li a carta com redobrada atenção: conviver intimamente com tal arrogância! Insuportável. No entanto, a sobrevivência do ser humano transita por necessidades, aparentemente, exacerbadas. Exponho estas questões em devidas proporções. Transitar, verbo coloquial, absorvido por um contingente de jovens descolados. Pois é, meu amigo, estamos todos deslocados do real, ou desfocados. Readaptar sentimentos, impossível. Espelho, arestas se transformam em acessórios importantes. A vaidade nunca é excessiva, mas alavanca. Sobrevivência meio a concorrência. Alimento importante, robustez. Não existe excesso… não se mede, nem compara… A cada pessoa o particular, eis a diferença. O que parece excesso é vitória. O módico, o ajustável, impreterivelmente, atrás do sucesso. Orgulho segunda-pele, proteção contra julgamentos. Flutuar na vaidade da própria beleza, da própria competência é um estado isolado de poder. Realização. Ser acariciado, festejado, sabatinado por qualidades inerentes e obvias, prazer. Cuidado diário com o corpo, a roupa-fantasia adequada a cada espetáculo, valoriza quem assiste, quem participa. Competência! Vaidade armadura, defesa, imposição interna. O sucesso exige. Segue solto e frouxo pelo caminho de realizações. Não te preocupes com a medida, horas desperdício, preparativos! Tempo é medida parcial. A produtividade se ajusta ao tempo. E tua convivência com ela, lentamente, será moldada, e serás contaminado. Neste momento, meu amigo, ou te dissolves no amor, ou abandonas a mulher.
Amanhã pegarei o ônibus, e certamente, estarei no aeroporto às quinze horas. Mudar de ares, acertar o relógio com outra temperatura. A montanha me fará bem. Escreverei tão logo esteja instalado no hotel, acima de qualquer preocupação. Espero que consigas convencê-la a tirar férias deste intenso, não excessivo, sucesso! Ficaríamos bem, os três. Dez dias de alegria na inteligência e na beleza.
Tuas cartas alimentam prazer, desejo. Aplacam a dor. A cada palavra meu corpo responde. Presença indispensável, a tua. Albertina
Vala Seca, 20 de outubro de 2014.

Autobiografia

Fotografia. Silêncio ruidoso. Cinzento temporal.
Elizabeth professora Beth aposentada. Fazedora de costuras, alinhavos, pinceladas, feijoada. 1946, setembro. Quatro filhos três netos. Dois amores amados. Dois casamentos. Romance alegria gosto e cheiro.  Brasileira, gaúcha, ou carioca tudo junto. Aos dezenove anos Porto Alegre. Vinte anos Rio de Janeiro. Montevidéu, Buenos Aires, Torres. Santo Ângelo, Ponta Grossa, Torres, Santa Cruz do Sul, Rio Pardo. Limoges, Paris, Porto Alegre, Limoges . Torres. 1964 importante, 2010, 1999. 1995, 1968, 1970, 1972. 1985. 1909. 2014, vinte anos passados.

Cabelos brancos. Aos setenta anos azuis. Destemida. Medrosa. Paz pequena. Disfarçada. Apaixonada.

De Bandeira a memória (importa). Memória enterrada a voar. Perdida ou achada. Ancorada. Cartas, bilhetes, telegramas, mentiras, risadas. Telefone. Galeria. Fotos recortes e pintura. Livros, potes, pedras. Magro gordo forte azul personagem: história derramada enterrada. Autobiografia no/ do recorte: bordada.

Elizabeth M.B. Mattos TORRES

BETH no Rio de Janeiro

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Diferentes

Sou eu a carregá-lo, o mundo. A pequena Ilha dos Lobos,  as torres da Guarita.  Areia redesenha o vento. Imagino, volto. O mundo, somos nós. Dentro de cada um se esconde o mundo. Nós o imaginamos, contornamos, afundamos, elegemos…. Não existe mundo sem o meu olhar… Como será o mundo com o teu olhar? O mundo temos dentro de cada um, diferentes. Quero o teu mundo, fronteira aberta: nossos mundos. Beth Mattos – outubro de 2014 – Torres