TROVOADAS

Será Outono… Ou Primavera. Pode ser verão, temperatura  de quarenta graus. Pode ser inverno branco, São José dos Ausentes com neve. Tempestade, raios, trovoadas, vento e chuva. Alternância, troca de pele, dor no corpo, medo, alívio, fascínio. Grito. Os tempos, bem outros. Não mais possuídos, mas despencados, espalhados. A goiabeira  se agarrou na barranca. A buganvílias floresce. E esta amoreira se inclinou feito chorão. Pomar na Lagoa do Violão.

Água na rua se fazendo rio…

Aos poucos volto ao teclado, aos livros. Livro não lidos, aqueles que precisamos finalizar, os que estão na pilha dos que devem ser relidos. Os novos autores como Valter Hugo Mãe. O livro de Walter Galvani com as naus, Portugal, a memória de Anacoluto do princípio ao fim, o romance, ou O vértice do Impensável  de A.C.B. Gilbert: “Toda imagem carrega em si uma mensagem conotativa, não apenas por todo o seu processamento, mas também por se referir a como a sociedade, na qual esta imagem circula, entende e comunica determinado aspecto da realidade. (p.31) Seu tema científico introduzido por M. Helena Cabral de Almeida Cardoso: E o que é esse vértice? São pessoas ligadas a outras pessoas que fogem, retornam, lutam. Desanimam teimam em esperar na esperança e são obrigadas a pensar naquilo que nunca imaginaram se materializar.”

E os que parecem nos pertencer inteiros como A Casa de Papel de Carlos Marías Dominguez:

“Freqüentemente, é mais difícil desfazer-se de um livro do obtê-lo. Aderem-se a nós com um pacto de necessidade e esquecimento, tal como se fossem testemunhas de um momento de nossas vidas ao qual não regressaremos.Mas, enquanto permanecerem ali, acreditamos somá-los. Vi que muitos marcam o dia, o mês, e o ano da leitura; traçam um discreto calendário. Outros escrevem seu nome na primeira página, antes de emprestá-lo, anotam numa agenda o destinatário e acrescentam a data. Vi tomos carimbados, como os das bibliotecas, ou com um delicado cartão do proprietário deslizado para o seu interior. Ninguém quer extraviar um livro. Preferimos perder um anel, um relógio, o guarda-chuva, do que o livro cujas páginas já não leremos, mas que conservam, na sonoridade de seu título, uma amiga e talvez perdida emoção.” (p.20)

IBERÊ CAMARGO e artes plásticas

001 (3)Conheci Iberê Camargo na Aliança Francesa de Botafogo, Rio de Janeiro, na Rua Muniz Barreto. Na sala à direita de quem entra na casa de pedra,  exposição dos carretéis. Foi em 1974. Eu seguia o curso de francês intensivo. Passamos a conversar. Estabelecemos referências. O autor de Pioneiros e Bandeirantes, o acadêmico Clodomir Vianna Moog, amigo do pintor, meu sogro. Colecionador dos imensos quadros de Iberê Camargo, eram amigos. Sua casa na rua Marquês de Pinedo, Laranjeiras, já tinha acolhido o artista. Geraldo e eu gostávamos do sítio em Carangola, Petrópolis, chegamos a nos instalar por lá depois que o Pedro nasceu, assim sempre ausentes do Rio de Janeiro e do social… Nunca estávamos onde deveríamos estar. Nos encontramos, Iberê, Maria e eu nesta exposição. A conversa foi fácil. E foi amizade certa. Logo aconteceu o terrível incidente do tiro. Logo eu me separei. Logo aconteceu Santa Cruz do Sul e Rio Pardo.

O curso de gravura que Iberê ministrou em Porto Alegre foi frequentado pela minha irmã mais velha, as apostilas terminaram  em livro, técnica da gravura, um dos prazeres do artista.

Pintores amigos, referência em Porto Alegre, Rio de Janeiro: Glauco Rodrigues, Carlos Scliar. Danúbio Gonçalves, Francisco Ferreira, Vitório Gheno. Darel, Carmélio Cruz.  O Glauco, por exemplo, morou na  casa da Vitor Hugo. Dele o magnífico biombo feito em nanquim (foto abaixo a maquete emoldurada). Danúbio Gonçalves sabia contar as histórias de Paris de 1950 quando ser artista poderia ser  viver na Cidade Luz.  Devo ter registro em cartas de Danúbio Gonçalves detalhes destas histórias. Referências.

Meus escritos na Revista do Globo já mencionavam pintores…1964.  Xico Stockinger, curiosamente, acabei trabalhando, por indicação da galerista Tina (Galeria Tina Zappoli – exclusividade  com  Iberê Camargo), mais tarde, na Garagem de Arte, Luciana de Abreu, Porto Alegre – galeria de Francisco Antonio Stockinger, e Itamara. Carmélio Cruz, exposições em Porto Alegre, hóspede de minha mãe Anita Mattos. Pintou dois  retratos meus, 1968 (aquarela), Porto Alegre.1970 (óleo), em Torres.

Iberê morava na rua das Palmeiras, Rio de Janeiro. Picotes de lembranças. No atelier do artista apreendi sobre cores, volume. Como eu, gostava de rezar memória.  Escreveu biografia.  Flávio Tavares e  eu trabalhamos na seleção deste material.  Conversa, café descafeinado, cigarros. A foto com Ana Maria Vianna Moog menina, no apartamento da Viúva Lacerda, Humaitá. A minha correspondência com ele inicia  nos anos setenta.

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“Querida Elizabeth: Recebi a tua carta. Vejo-te a beira do mar. Enche, pois, a tua mão de mar, e os teus olhos de luz. Na minha lembrança, tu és uma presença. Eu perdi o jeito de correr pelas praias e de me misturar com os peixes. Faz isso por mim. De Torres guardo este fragmento, por certo o mais agreste, o mais autêntico. Ao pé do penhasco, o mar enrola-se como uma grande cobra verde. Ao longe ele é sereno. A distância dá placidez as coisas. Tenho produzido pouco ou nada. Espero melhores dias. Mando-te a minha saudade que é muita.

Afetuosamente, o Iberê         

 Rio, 28 – 1 – 75.”

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DESENCONTRO

Abro a última gaveta daquela cômoda grande da sala de jantar, agora no canto direito. Ali estão cartas, fichas, rascunhos. Passados tantos anos sem te escrever, retomo nossa conversa. Transcrevo parágrafos de um livro! Reconheço nesta leitura o sentimento de perda; a inexperiência…  No caso deles, como no  nosso, não houve o romance, mas  reconhecimento da paixão, e  posteriormente amizade.

“Rodin era baixo, troncudo, vigoroso, com o cabelo aparado curto, e umas barbas patriarcais.  Mostrou-me as suas obras com a simplicidade dos grandes homens. Por vezes, murmurava um nome diante das suas estatuas, mas percebia-se que esse nome, qualquer que fosse, não tinha a menor importância para ele. Depois, corria a mão pelas formas da sua criação, como que a afagá-las. Vinha-me a impressão de que sob estas carícias, o mármore se amolecia, igual ao chumbo derretido. Finalmente, pegou num bocado de argila dúctil, e passou a afeiçoá-la entre as palmas musculosas. Enquanto isto resfolegava com força. Todo ele era uma forja em trabalho, crepitando fogo. Num instante tinha moldado um seio de mulher, que lhe palpitava entre os dedos.Tomou-me pela mão, chamou um fiacre e fomos até o meu atelier. Vesti rapidamente a túnica e dancei para ele um idílio de Theocrito, que André Beaunier havia traduzido especialmente para mim:

Pan aimait la nymphe Echo,

Echo aimait Satyre, etc.”

A seguir parei para explicar-lhe minhas novas teorias sobre a dança, mas não foi difícil certificar-me que ele não dava nenhuma atenção às minhas palavras. Sob as pálpebras caídas, fixava-me com olhar brilhante. Depois, com aquela mesma expressão fisionômica que adquiria diante de seus trabalhos, aproximou-se de mim. Passou-me a mão pelo pescoço, pelo peito, acariciou-me os braços, correu-me os dedos pelos quadris, pelas pernas nuas, pelos pés também nus. Pôs-se a modelar-me o corpo, como se estivesse diante de um barro mole. Enquanto isso se desprendia dele um bafo ardente, que me queimava, enlanguescia… Por todo o desejo gostaria de abandonar-me entre os seus braços, e o teria feito, se não fosse a absurda educação por mim recebida, e que me levou a recuar num gesto de pavor. Então, sem mais pensar, enfiei, às pressas, o meu vestido, mesmo por cima da túnica, e conduzi-o precipitadamente até a porta. Que pena! Quantas vezes não lamentei, depois, aquela incompreensão pueril que me privara de oferecer a virgindade ao grande deus Pan, ao poderoso Rodin!”[1]

Escolhas erradas, ou atropelos do amor? A insegurança não nos permite sonhar com estrelas, mas com margaridas no campo. A beleza complicada, simplicidade. Somos ceifados. O encontro de Isadora com Rodin ferve, mas não transborda…

Lamento o que já não posso desfazer. Penso no que poderia ter sido diferente entre nós dois…O poema inspirou Drummond: eco e  ressonância. Pan aimait la nymphe Echo,  Echo aimait Satyre, etc. Curiosa conversa entre homens de diferentes tempos.Tu não és Rodin, não sou Isadora, mas também lamento minha incompreensão…

“Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que ão amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa foi para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J.Pinto Fernandes que não tinha entrado na  história.”

Carlos Drummond de Andrade

Desencontro. Conheci um alguém, uma pessoa diferente ou igual, a mesma…, pois é. Outra história se fez na imaginação, por escrito. Depois voltei. Aquietei. Penso: por que tanto desencontro a cada encontro? Nenhuma voz faz eco. Olhos boca pensamento se fecham. Apenas aquelas, aquelas mesmas fantasias. Abençoado mar de Torres, na nossa memória a história.  Estamos debruçados nas sacadas. Caminhamos na areia. Nossas, nossas ondas. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2018


[1] Ducan,Isadora -Minha Vida – Ed.Livraria José Olympio, Rio de janeiro,1938, p.104/105.

Correspondência FORA DO TEMPO

Caro amigo:

Passaram-se vinte e nove anos! Outra mudança, desta vez radical quanto a espaço. Os livros aqui, amontoados. Devo abrir um por um: recolher fotos, cartões, talões de cheque e até cartas… Um dia, dois, e no terceiro, encho um carrinho de supermercado, chamo os sebos interessados, e fecho os olhos. Esqueço. Há tanto para ler!Tão pouco tempo! Luxo inviável.Voltei para a cidade: o apartamento? Uma grande sala iluminada, duas janelas rasgadas até o chão abrem as venezianas para uma sacada de um metro  e tanto de largura. O balcão de ferro abaulado, uma grade pintada de branco. Coloquei vasos: carreiro de violetas, jasmins, orquídeas, alfazema, uma muda de pitangueira, e um arbusto de primaveras: bom espaço, ensolarado. Pelas venezianas, o jogo de luz. Trouxe os discos de vinil, a pequena vitrola, e muitos caixotes de livros. A estante, eu mesma pintei de vermelho queimado. Gostei de escovar, ordenar… Naquela mesa de centro, de duas gavetas, coloquei a pasta de papelão das gravuras, arrumei os livros de arte, dicionário, em cima dois vasos de cristal. O quarto não é grande. Banheiro com banheira, espelho sob uma janela de trinta centímetros de largura, lá no alto da parede do sol. O piso com branco e preto. Cozinha apertada.

Passaram-se 29 anos!

Hoje encontrei e reli tuas cartas. Uma delas colada, como se nunca tivesse sido aberta: quatro páginas de letra esparramada. Contas da morte da tua mãe, do testamento, do retrato que encontraste. Naquela tarde, fiquei contigo em pensamento. Estou de férias lá da loja.Olheiras, por noites em claro. Durmo pouco, os carros buzinam, as pessoas gritam, e há gatos na vizinhança.Na calçada, lá em baixo, as mesas do café–restaurante, também uma casa de sucos logo na esquina. Apenas a floricultura fecha as portas cedo. Os jacarandás enfeitam meu horizonte. Sinto-me como se estivesse bem no meio da calçada. Instalei a poltrona de orelhas ao lado da janela; lembras dela? Mandei estofar de amarelo escuro, comprei uma banqueta para apoiar os pés. Ias gostar.

Vinte e nove anos se passaram dos passeios, do café preto, do cigarro mentolado, das frutas secas, e dos pastéis da esquina. Elizabeth M.B. Mattos – 2012 – Porto Alegre

GASTON BACHELARD

A POÉTICA DO ESPAÇO

“O crítico literário é um leitor necessariamente severo. Apresentando às avessas um complexo que o uso excessivo depreciou a ponto de entrar para o vocabulário dos homens de Estado, poder-se-ia dizer que o crítico literário, que o professor de Retórica, sempre sabendo, sempre julgando, fazem muito bem um complexo de inferioridade. Quanto a nós, afeitos a leitura feliz, não lemos, não relemos senão o que nos agrada, com um pequeno orgulho de leitura mesclado de muito entusiasmo.Enquanto que o orgulho se revela habitualmente num sentimento maciço que pesa sobre todo o psiquismo, a pontinha de orgulho que nasce da adesão a uma imagem feliz permanece discreta, secreta. Está em nós, simples leitores, para nós, e só para nós. Ninguém sabe que lendo revivemos nossas tentações de ser poeta. Todo leitor, um pouco apaixonado pela leitura, alimenta e recalca, pela leitura, um desejo de ser escritor. Quando a página lida é bela demais, a modéstia recalca esse desejo. Mas o desejo renasce. De qualquer maneira, todo leitor que relê uma obra que ama sabe que as páginas amadas lhe dizem respeito.”

(p.11) Poética do Espaço. Tradução de Antônio da Costa Leal e Lídia do Valle Santos Leal/ Livraria Eldorado Tijuca Ltda,Rio de Janeiro)

serenidade sem tédio

Felicidade, serenidade sem tédio. Mansidão amanhã. Brilho no repouso. E segurança em semelhanças. Sigo o rebanho. Engraçado! Quero um alguém para alguém… Repito o gesto. Não posso recolher palavras ditas, gestos feitos, nem virar as costas. Está tudo colado na minha pele. Exaustão! É preciso dormir. Depois, encontrar esta serenidade sem tédio… E.M.B. Mattos – Porto Alegre – 2012

Como feitiço

Dormiu cedo. Estava mesmo exausto. Fiz o despertar lento, com piano, abrindo as janelas devagar, beijando um pouco, cobrindo outro pouco… Passei o café como ele gosta, esquentei o pão… E o amanhecer já preguiçoso estava lá bem em frente olhando pra ele… Como ele gosta! No rosto um prazer miúdo, inominável misturado com amor! Coisa boa! E nos demos conta que estávamos atrasados para a Olimpíada da Matemática… Oito e quinze, não quinze para as oito horas.  Saiu, às pressas, lindo, cheiroso, com a garrafa de água, e os lápis, a caneta e a borracha num saquinho. Claro! Esquecemos o estojo na casa da mãe! Nós dois! Nós dois ficamos neste jeito bom de mimar um ao outro! Quando separei os lápis, escolhendo… Ele foi logo selecionando os mais simples (sabe que é da minha coleção! Adoro lápis, e tenho o pote cheio…, não tão cheio como gostaria de ter) Este jeito de escolher os menos importantes me sensibilizou. E agradecer o café com leite que estava bem do jeito que ele gostava! E sair doce! Feliz apesar do atraso! Atraso meu, não dele! Tantas vezes me disse o horário, tantas vezes esqueci o horário! Deus! Um sentimento de amor tão agudo, tão forte! Para acordar, antes de chamar eu escolho o som de um piano, e num crescente para o alto. O som vai se apossando de tudo, pode ser Noturno de Chopin,  Mozart. Estes dias, ele veio chegando sonolento, e me argumentou meio sorriso:  com este som já vou dormir… E sorriu intrigado. E me olhou. É o jeito de dizer: Não gosto muito! Já hoje de manhã fui logo diminuir o som do vinil, ele abriu o sorriso: Deixa assim! Gosto deste jeito de entender, de ir levando para dentro a doçura dos sentimentos, como feitiço. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2012 – Torres

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