Beleza é frágil

Sete Dias com Marlyn Monroe / ColinClark  escreve sobre este tempo que passou com a atriz  Monroe. Essencia da sedução, a fragilidade da beleza. Não se pode fugir, apenas seguir em frente… Envelhecer é uma experiência de beleza! O lugar certo, a hora certa. O peso, ou o preço da beleza! A sedução. O que amar?

O filme transita na experiência do enamorar, do apaixonar, da vida aberta… Nos apaixonamos sempre: esta consciência  é importante: nos apaixonamos sempre… A beleza é passageira, ou eterna… E nos apaixonamos! Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2012 Porto Alegre

Insônia

Não nos damos conta do efêmero.

Vive-se como se fosse para sempre.

Acredito em estradas abertas… Caminho azul, amoras na calçada… e também devoro as pitangas desta terra de areia. Graúdas e vermelhas, azedas pitangas. Penso em laranjas, em bananas e no abacaxi. Tudo pode ser apenas uma ideia…

O cheiro da insônia! Anestesia… Equívoco… Lobo Antunes, autor português. Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? Ou ainda este outro O Meu Nome é Legião. Títulos magníficos! Arquipélago da Insônia.

A insônia persegue, acelera ansiedade, inquieta os batuques de noite… A insônia mata, torce tudo lá dentro, atropela. No dia seguinte, ainda alerta, areia nos olhos!  Como será este arquipélago que conseguiu reunia estas ilhas todas insones?

O vento está tão forte que as buganvílias se esticam, as flores voam assustadas. Mas o sol veio, e está na casa. E ontem tanta chuva! Elizabeth M. B. Mattos – setembro de 2012 – Torres

 

O passado das amoras…

Uma ventania, um uivo. As árvores se dobram, a água da lagoa se agita crespa. Pelas frestas da janela entra o vento. A luz treme como se fosse apagar… Os aparelhos fora das tomadas, menos a geladeira. Sinto a ventania entrando no meu corpo, e fico inquieta. Como se a tempestade pudesse estar mais perto, e o vento levasse muito mais. Não vejo o mar. Pressinto. E queria estar no meio de um tempo diferente…

Volto aos dias mansos da fazenda: dias compridos, amigos, com cheiro de terra, feijão com arroz e sonhos. E dentro do vento o silêncio da felicidade mansa de estarmos todos no abrigo.  Acendíamos o fogo no galpão, as velas iluminavam o banho aquecido nos tachos, e as conversas se misturavam com as risadas das crianças. O chão de terra batida… E o galpão de concreto armado. O dia seguinte era apenas o outro dia de afazeres, e café forte. Gostávamos de jogar cartas. Apostávamos o amor a cada partida. Dormíamos logo, acordávamos no vermelho do amanhecer. A cerca pequena dividindo a casa do campo. Os cinamomos, os eucaliptos, os açudes a serem feitos, as curvas de nível. O risco do pomar. A sesta. A rede. Os cavalos. Labuta com bombachas.

O vento que sopra aqui chega lavado em Miguel Pereira… Vocês duas vestem os casacos, e se enroscam nas mantas tricotadas de azul. Aquecem a sopa, conversam baixo, enquanto a televisão conversa com teu pai. A voz deste vento que grita assusta minhas meninas.  Penso que ainda queria estar com todos juntos, na serra carioca.  Não, quero o Rio Grande do Sul: a casa perto do açude. O marido. Penso nas ovelhas, cães e frutas maduras. Engraçado! As tranças do casamento se torcem! E todos nós estamos de mãos dadas neste tempo de ser feliz! Todos! Os namorados perdidos, os maridos, os filhos deles, os nossos. Estamos protegidos no sonho desta luz de lembrança… O vento que sopra forte, meu, teu, nosso congela os dias. Vou deitar logo porque nesta hora o sono me agarra traiçoeiro, e já está escuro. Apago as velas, acendo a lamparina e começo a contar aquela história de fazer vocês dormirem. A minha história na Fazenda Santa Branca. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2012

 

Amoras Azuis como uma brincadeira séria. Platon assimile ainsi la philosophie à une sorte de jeux sérieux ( par exemple jeu sérieux au livre III des Lois). Tu n’est pas seulement poète, tu es aussi philosophe de toi même. JMG 

 

Ainda Serena

“A minha sorte era que quase toda a prosa inglesa daquela época tomava a forma de um documentarismo social fácil. Não me impressionavam os escritores (eles se espalhavam entre a America do Sul e do Norte) que se infiltravam nas suas páginas como parte do elenco, determinados a lembrar ao coitado do leitor que todos os personagens e até eles mesmos eram puras invenções e que havia uma diferença entre a ficção e a vida. Ou, pelo contrário, insistindo que a vida era uma ficção. Só os escritores, eu achava, poderiam um dia chegar a correr o risco de confundir as duas coisas. Eu era uma empirista nata. Acreditava que os escritores eram pagos para fingir, e deveriam usar o mundo real onde coubesse, aquele que nós todos compartilhávamos, para dar plausibilidade ao que inventavam. Então nada de palavrório chique sobre os limites da arte, nada de demonstrar deslealdade para com o leitor ao parecer cruzar e recruzar sob algum disfarce as fronteiras do imaginário. Nos livros que eu gostava não havia lugar para agentes duplos. Naquele ano tentei e descartei os autores que os meus amigos sofisticados de Cambridge tinham insistido que eu devia ler – Borges e Barth, Pynchon e Cortázar e Gaddis. Nenhum inglês entre eles, eu notei, e nenhuma mulher de qualquer raça que fosse. Eu era mais como as pessoas da geração dos meus pais, que não só não gostavam do gosto e do cheiro de alho, mas desconfiavam de todos que o consumiam.” (p85)

Às cinco horas da tarde daquele sábado nós já éramos amantes.” (p212)

Ian AcEwan: Serena (um romance) Editora Companhia das Letras. Tradução de Caetano W.Galindo. São Paulo 2012.

 

 

Ventania

Amoreiras pequenas se vergam. Por que tantas frutíferas foram plantadas ao longo da lagoa? De repente a calçada inteira vai ficar violácea. Pequenas e grandes amoreiras esperam a natureza dizer… A água se aquieta porque logo vem a chuva. Elizabeth M.B. Mattos –  setembro 2012 Torres

Por tão pouco sucumbimos!

Eu me emocionei. Li o artigo em voz alta para a mãe: comentamos, e repetimos como a Luft: dá vontade de chorar pelo resto da vida… porque sentimos a lição de amor-amor. Por tão pouco sucumbimos! Pequenos atalhos da vida. Não vemos a árvore com frutos, mas lamentamos isto ou aquilo com o desconsolo de qualquer frustração, diante do primeiro galho quebrado.

VEJA (12 de setembro 2012) Lya Luft

Então apareceu seu artigo Meu pequeno búlgaro, que me atingiu, e a muitos, como um raio: ali estava um momento extremamente pessoal, uma revelação íntima escrita de maneira singular. Zero sentimentalismo, mas tudo de pungência. Sério, grave, fatal, sem autopiedade nem lamentação, apenas a estranheza diante do fato: o filhinho que por erro médico nasceu com paralisia cerebral. A perplexidade. O não entender. Como não entenderia o idioma búlgaro.

Tempos depois nos conhecemos pessoalmente  e lembro de ter comentado, talvez sem muito tato, o artigo, o choque que me havia causado, a admiração e afeto que tinha despertado em mim. Acho que naquele instante sem muitas palavras ficamos amigos, desse jeito de ser amigo de pessoas que quase nunca se encontram, mas sabem que pertencem a uma mesma raça, ainda que não as ligue nenhum fato comum. Mas de alguma forma, a gente “sabe” o outro.

Agora sai o livro de  Diogo Mainardi, A Queda, no qual ele fala das experiências de ter um filho “ diferente” e por outro lado tão igual, porque objeto de amor, fonte de alegria e preocupações como todo filho – este, especialmente por sua condição, é, antes de tudo, uma pessoa. Talvez esse seja o legado que Mainardi nos dá falando de Tito (depois dele nasceu outro menino, forte e saudável): ali não está em primeiro lugar um deficiente, um problema, um drama, está um menino. Um filho. Uma pessoa.

22/12 de setembro, 2012/ VEJA. Edição 2286 –ano 45- n.37. Ed ABRIL

Angústia azul

O motivo  da angústia, da tristeza súbita nem sempre é objetivo, transparente. Caminhos internos, pequenas decisões nos arremessam para um terreno pantanoso, dolorido. A chaga ferve. A experiência anterior de frustração, o pavor diante do erro se manifesta na paralisação. E queremos dormir. Aquietar o corpo, viajar na sonolência. Estamos no limiar…

Olhei para meu pai sentado na cadeira grande perto da lareira. As portas do alpendre escancaradas. Sob a mesa redonda, abertos os livros de consulta. Quieto, olhos semicerrados, pensativo. Não interrompo. Recuo. Subo as escadas para o quarto. Sentimentos de interdição. As decisões não me parecem objetivas, mas embaralhadas pelo pânico. Abro as duas janelas, e me jogo na cama vestida, eu também espero o tempo passar…

Duas amoreiras carregadas! As frutas estão verdes, algumas rosadas, outras vermelhas. Um matiz de primavera. Sinto frio. É o vento! Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2012

 

 

Amoreira carregada

Frutinha selvagem solta pelo chão rosadas, quiçá verde. Devorada. Este sol de hoje deixa viçosa a buganvília. Cães apaziguados pela luz!  Lagoa reflete o azul deste céu. Vejo a Serra do Mar. Em casa com o pai, a mãe, conversa amiga. Serena de Ian McEwan: romance sobre leitura. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2012

Eu estava descobrindo que a experiência da leitura fica enviesada quando você conhece, ou está prestes a conhecer, o autor. Eu tinha entrado na mente de um estranho.” (p.135)