Órbita dos filhos

Buscamos a referência no outro. Será uma identificação positiva ou negativa? Atuar no emaranhado da órbita de filhos, netos, pais, tios, irmãos, estranhos, e amigos…Comunicar? Cercamos a área, e delimitamos quem, como e quando. Esquecemos alguma coisa, sempre esquecemos. Talvez o mais importante. O único elemento modificador e propulsor de uma boa e saudável mudança é recomeçar a contagem desta família eleita. O mundo deterioraria se não houvesse o novo. Onde se localiza o prazer de olhar? Estabilidade, permanência de tempo, esticar o ritmo,  o certo. Jogo físico e mental.

Algumas pessoas resguardam a energia interior. Sofrimento rasgado da infância? Desencontro com a realidade forjada por nós mesmos? Queda no abismo de outras vontades como fuga do reconhecimento da fragilidade interior? Queda. Apagamos as marcas anteriores da rebeldia com a mesmice de agora, afastamos a ousadia e fechamos as possibilidades de recriar. Há que existir sempre uma  atração entre os astros  onde a órbita se faz circular entre os homens: chamo de gerenciar o condomínio. Com cercas, policiamento e estrutura de quietude. Apenas olhamos pela janela: o sol e o arvoredo, o horizonte limite aquece. Ponto. Não foi prazer nem desprazer. A observação propiciou  a constatação da ausência que se estica no não-relacionamento. Sem voz, sem tato, sem olhar. Pensar o outro é entrar no imaginário fictício, o equívoco? Por mais forte que seja o impulso sexual entre o homem e a mulher ele não se faz único gerenciador de possibilidades. Racionalmente acomodamos tudo nas caixas confortáveis onde protegemos o tempo. Olhando o que acontecia a minha volta, ainda no prazer da quietude, e da minha própria tristeza interior, constatei a diferença entre o que eu vejo, e o que significa a visão do outro. Ainda amo a possibilidade. Arrefecida estou dos impulsos do riso solto e da fala livre. Observo o vazio que se abre, e pressinto outras certezas. Tudo é superficial. De certa forma as necessidades básicas como comer feijão no dia marcado dormir a sesta  no sofá certo, trazer a faxineira nos horários possíveis, previstos. Aceitar o sono e o dengue do filho, buscar os netos pro passeio. Assistir ao jogo de futebol. Ver a novela. Fechar o cerco, fechar as portas e transitar nos jardins internos do seu próprio condomínio. Assim, o limite de estar na calçada, flertar no café, alimentar o gato da esquina é o limite mesmo de uma hora, duas no máximo, se for por mais tempo, significa perigo. É preciso respeitar as riscas da amarelinha na calçada, o caminho dos pedestres. Em tempo de guerra o sinal de recolhimento,  e as janelas fechadas marcam a segurança. Eu não sou a guerra, sou a desestrutura. 

A compreensão acalmou o sonho. Não mais repartir tempo de vida. O que antes parecia ser receptivo se torna equívoco. Engolir lágrimas, lágrimas. A galeria  está iluminada pela música de Bach. Volto os olhos para a exposição das telas azuis. Beth Mattos – Porto Alegre – outubro 2012

“Por outro lado, prontamente expressaríamos nossa gratidão a qualquer teoria filosófica ou psicológica que pudesse informar-nos sobre o significado dos sentimentos prazer e desprazer que atuam imperativamente sobre nós. Contudo, quanto a esse ponto, infelizmente nada nos é oferecido para nossos fins. Trata-se da região mais obscura e inacessível da mente e, já que não podemos evitar travar contato com ela, a hipótese rígida será a melhor, segundo me parece. Decidimos relacionar o prazer e o desprazer à quantidade de excitação presente na mente, mas que não se encontra de maneira alguma ‘veiculada’, e relacioná-los de tal modo, que o desprazer corresponda a um aumento na quantidade de excitação, e o prazer, a uma diminuição. O que isso implica não é uma simples relação entre a intensidade dos sentimentos de prazer e desprazer e as modificações correspondentes na quantidade de excitação; tampouco – em vista de tudo que nos foi ensinado pela psicofisiologia – sugerimos a existência  de qualquer razão proporcional direta: o fator que determina o sentimento e provavelmente a quantidade de aumento ou diminuição na quantidade de excitação  num determinado período de tempo. […]  Os fatos que nos fizeram acreditar na dominância do princípio de prazer na vida mental encontram também expressão na hipótese de que o aparelho mental se esforça por manter a quantidade de excitação nele presente tão baixa quanto possível, ou, pelo menos, por mantê-la constante”[1] 

 


[1]  Edição satandard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Volume XVIII ( 1920 – 1922) Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos. Páginas: 17,18 e 19.

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