O caminho percorrido

O caminho percorrido

Atualmente, a casa se transformava em instrumento de tortura, não apenas pela quantidade de escadas, mas também porque amargava a saudade… Fisicamente não era mais possível caminhar.  Todas as direções era sofrer. Precisava enfrentar quinze lances de escada à direita, e ou seis lances a esquerda. Para chegar à oficina, era preciso descer mais vinte lances de escada. Quando chegava a casa, era preciso carregá-lo nos braços, os degraus de acesso eram estreitos. Enfim, enfrentar escadas era o seu calvário: o que a casa lhe oferecia agora? Mesmo assim fazia questão de morrer ali, como se esta teimosia fosse o consolo, e não uma batalha legal.

 

 

 

Foto: edinilson karnopp

Santa Cruz do Sul

Santa Cruz do Sul

Uma casa é uma coisa estranha. Tudo fica muito gasto quando é utilizado, e às vezes é possível sentir o veneno de uma pessoa quando nos aproximamos dela, mas nada disso acontece com uma casa. Até uma boa casa desmorona rapidamente quando ninguém cuida dela. Uma casa está viva apenas quando há pessoas morando nela, tocando nela e permanecendo nela. (p.200)

Kyung – Sook Shin : Por favor, cuide da mamãe

Foto: edinilson karnopp

Só liguei para dizer que te amo

 

Privacidade, para mim, não significa manter minha vida pessoal longe dos outros. Significa me manter longe da vida pessoal dos outros. ’ (p21)

 E assim, quando lá estou comprando minhas meias na Gap e a mãe atrás de mim na fila solta um ‘eu te amo!’ no aparelhinho, não tenho como evitar o pensamento de que é impossível não pensar que há alguma representação naquilo; uma representação até meio exagerada; uma representação pública; imposta em tom desafiador. Sim, muitos assuntos domésticos são tratados em público, embora não sejam para consumo público; sim, as pessoas perdem o controle. Mas a frase ‘eu te amo’ é relevante e intensa, e dita assim, como se fosse um anúncio, de forma demasiadamente autoconsciente, me leva a crer que o fato de eu ouvi-la não é algo acidental. (p27)

Jonathan Franzen autor de COMO FICAR SOZINHO

Garagem de Arte

Entrevista lenta. Regada com uísque. Fato desviado, riso frouxo, ato falho anotado. Importa menos a experiência, mais a personalidade. Risadas. Pontos lúcidos de temperamento anárquico. O texto sou eu. Firmou-se ali o salário curto. Na memória desta sala posso ver os quadros encostados uns nos outros revestindo paredes como se fosse um painel. Nenhum destaque, todos saltando por conta própria. Neste mosaico encontrei o Carmélio Cruz. Referência especial. Outra parede fechada com as gravuras do Stockinger, o escultor, e a Revista do Globo voltou com pequenas e pretensiosas entrevistas culturais: memória. Não encontrei uma tela do Avatar Morais, nem vi Glauco Rodrigues, tampouco Danúbio Gonçalves, nem Scliar, nem Bianchetti. Eram outros artistas. Não mais dezoito anos. Nova escola. Esculturas por todos os lados, lareira a nossa frente. Porto Alegre inteira pelas janelas. Gerenciar a galeria Garage de Arte. Entusiasmo,  retorno a Porto Alegre. Dispunha de estrutura, apoio administrativo, chofer, telefone, computador e liberdade. Liberdade. Ainda a possibilidade de criar pequena livraria-bar-café. Eram os propósitos.

Tua carta, meu amigo, deixa-me ansiosa. Quando afirmo ser a beleza escudo de horror, tu refutas. A beleza é uma aliada útil, talvez preponderante num mundo competitivo, mas pode reinar na mediocridade. Mal aproveitada, degrau, obstáculo. Preciso estímulo, não de beleza (fanada beleza). Houve um doce tempo de ser menina.  A graça nos rosários de madeira, terços com tantas Marias! Cantos gregorianos, serviço social, missa festiva, procissão, retiro espiritual… Frei Celso. Infindáveis e possíveis diários introspectivos. Rezas, leituras bíblicas  outras missas diárias, e matutinas. Não sem caminhadas com chapéu vermelho, e pequenos lanches para os piqueniques escolares, e salve as pitangueiras, amoreiras, e passarinhada do Colégio Nossa Senhora das Graças!  Triste ironia transcrita em tempo de acertar. Coisa picada da infância! Estímulos têm cheiro de leite materno. Espaços vazios cobrem de sombras o café preto, o cigarro, as vozes. Onde estou que me apequeno no mesmo colo de cinqüenta anos passados? Busco incertezas certas no refúgio paterno da casa silenciosa. Insegura afirmo negando o que aconteceu de fato naquele tempo de galerista.

O espaço ocupado, o brilho interno das pessoas limita-se ao desconhecido tempo de permissão. Assim, somos generais e vencedores naquela específica batalha. A terra não nos pertence, nem o rio, nem os mortos, e, os louros são do espaço entre ontem e amanhã: um fugaz momento que determina  a felicidade que sequer apalpamos. Está solta no ar que se respira, pressentida, alimenta. A felicidade conjugada na alegria é fugaz…  Se antes a âncora podia ser o Iberê Camargo acertando meus medos com  evidentes propostas de ser marchand, agora galerista…sem Iberê

Coloco neste pote amarelo, amoras azuis …as últimas desta temporada.

Tua mão na minha mão

Sol! Vem me buscar. Pega o braço, o corpo. Beija a testa. Aquece a dor. Depois quebra a luz pra ficar noite, pra nascer de novo na água do rio da Restinga Seca que brotou na pedra… Da história te entrego texto fechado: cartas,  fotos, nós. Do espaço às caixas, e das caixas presas nas pilhas outras caixas… Solta o braço, bebe a música.Deixa cair tua mão na minha mão. Elizabeth M.B. Mattos novembro de 2012 – Torres

Porto Alegre, 31 de julho 1987.

Querida Beth,      

Pensei que tivesses te esquecido de mim. Há muito que não recebia notícias tuas. Tua carta  – nela tu estás inteira –  me reacende a saudade. Vejo que te jogas de corpo e alma nos teus afazeres, talvez querendo fugir à monotonia da vidinha de província. Eu te compreendo. No interior até o pensamento para. Há no ar um sossego pesado que sufoca. Nesse ambiente é impossível criar. A gente termina mugindo como boi. Porto Alegre também oferece muito pouco. Beth, vivemos num país pobre e choco. Somos pobres, principalmente de cabeça. Talvez tu me aches um pouco amargo e cáustico. Remeto-te dois convites das exposições que realizarei no Rio e São Paulo. Pelas reproduções poderás ver o que faço, isto é, como vejo o mundo. Sei que a minha visão é trágica, sombria. Porém, eu digo a verdade. Beth, eu te quero muito bem. Não esquece isto. Estive em Montevidéu onde fiz uma exposição de desenhos, oportunamente te remeterei xerox do que disseram os críticos. Escreve sempre que for possível. Eu te abraço com o carinho de sempre o Iberê.

                                                    

 

Kyung – Sook Shin

FOLHAS DE BORDO

“Antes da nova casa ser construída, Mamãe escolhia um dia de sol pouco tempo antes da Lua Cheia da Colheita e retirava uma a uma as portas da casa. Esfregava as portas com água e as colocava para secar ao sol, depois fazia uma espécie de cola e, com um pincel, grudava papel de amoreira novo, quase translúcido, nas portas. […] Mamãe pegava o pincel rapidamente o enfiava na cola como se, com extrema perícia, estivesse desenhando orquídeas para uma pintura tradicional no papel e, sozinha, colava o papel no alizar limpo da porta com movimentos precisos. Seus gestos eram despreocupados e alegres. […] Embora houvesse muitas árvores no quintal da casa, pés de caqui, de ameixa, árvore- do- céu, jujubeiras, Mamãe pedia especificamente folhas de bordo, que eles não tinham em casa,  (p.102-103) O sumiço de Mamãe desencadeou a lembrança de acontecimentos que ele julgava ter esquecido, como as portas com folhas de bordo.” (p.104)

Quando o ano termina quero trocar as portas da casa, como nesta história da memória…

Por favor, cuide da Mamãe de Kyung – Sook Shin 

Coréia do Sul