Informar

O espanto vem da idade, do senso de observação, de um olhar… Embora tenha boa índole a criança sofre o abandono, a não orientação, alienação sob forma de zelo. Tratada com irreverência: não deve gritar, mas zelar, não deve sujar,  mas ajudar. Enquanto criança deveria brincar, perguntar, escutar. Suponho que participar do mundo, informar, seria educar…Mas não sabemos nada sobre educação.

Uma estante

As crianças deviam ser educadas em contato com grandes bibliotecas. A convivência diária com livros. Reflexão e silêncio. Contínua adaptação a mais meticulosa ordem. O exercício ajudaria a juventude.

Durante o tempo em que estivemos juntos imaginei cada palavra que poderia dizer, pensei o discurso, imaginei o pretexto. Separei qualidades e defeitos. Confundi amor com responsabilidade. Felicidade com abnegação. Elaborei mentalmente a conversa. Reconsiderei  dificuldades. Repassei leituras adequadas, selecionei autores. Não houve conclusão. Retomei os livros. Bibliotecas particulares da casa dos avôs, dos pais, do tio Almir… Necessárias mesmo sem ser manuseadas.

Pensei: uma estante pode ser uma instigante biblioteca de respostas.

Elizabeth M.B. Mattos – 2012 – Torres

Brincar o amor

O mundo se explica com guerras, monumentais cidades, superpopulação, desmatamento, usinas, fome, justiça, poluição, trabalho, ócio. Verde, azul, marrom, violeta, paz, silêncio, azul, pedra, rio, casa, planície. O mundo inteiro dentro da pessoa, da explicação, daquele corpo, daqueles braços, deste rosto, destes olhos que já não veem, apenas percebem. O mundo está dentro dela. O mundo existe de dentro para fora. E nós carregamos o universo a cada deslocamento.  Não existe mundo sem a pessoa.  Quem? Esta coisa que tanto se explica existe dentro… Justifica-se a vida! E sobrevivemos apesar de… Como já escreveu Lispector.  Afinal a  vida continua atada nela mesma. E se a vida continua atrelada aos cadáveres de outras vidas é porque seguimos… Reflexões de conversas compridas… Quem tu és? Quero saber. Diferente de quem sou.  Conceitos presos na tua inquietude, ou na minha vida burguesa? Seguimos afastados. A palavra preconceito resvala no liberalismo aberto de brincar o amor… E eu a pensar o mundo…

Lógica

Estar à margem direita, e ou à margem esquerda. O tempo escorrega… O risco da memória. A linearidade dos fatos não se ajusta. Internamente a desordem. A conversa de Alice  no famoso chá de Carrol ilustra: 

– Não é a mesma coisa nem um pouco! – protestou o Chapeleiro. – Seria o mesmo que dizer que “Vejo  o que como”, é o mesmo que “Como o que vejo”.

– Seria o mesmo que dizer  – acrescentou a Lebre de março – que “Gosto daquilo que consigo” é o mesmo que  “ Consigo aquilo de que gosto. “ [1]

Uma experiência no mundo do nonsense.

Experiência de pesadelo.  Espaço e tempo fechados. Exclui-se o afetivo. Subsiste apenas relações de rivalidade, a competição: a corrida vestida de relógio, contra o tempo. Discurso descabelado. O espelho é o outro. Lá do outro lado, com tempo, ou sem tempo…Elizabeth M.B. Mattos – 2012 – Porto Alegre


[1] Alice no Pais das Maravilhas de Lews Carrol

 

Anchovas sautées

“Você deixou o polvo vivo que tinha comprado no mercado de peixe de Pohang na cozinha, pois nem você nem sua mãe sabiam o que fazer com ele, e sentou-se à mesa na frente de Mamãe, como nos velhos tempos, comendo em silêncio uma refeição simples que consistia de arroz e banchan, acompanhamentos como kimchi, tofu assado, anchovas sautées e algas marinhas torradas.“

Não resisti… Por favor, cuide da Mamãe descreve sentidos sentimentos. O livro se entrega tão manso!

Estamos com Kyung–Sook Shin uma escritora da Coreia do Sul.

O Pai Marinheiro

O mergulho traz calor: súbita luz do mar ou do sol? O silêncio estaciona inquieto e produtivo. A leitura chega madura na página certa. As amoras estão na vasilha transparente, e a memória fica lambuzada no azul. Neste instante exato a criança abre os braços pro abraço. Chegou a hora! O corpo inteiro responde ao calor. A Serra do Mar desenhada na geografia da voz que descreve a ilha, o vento… Olhar pacífico. Palavra certeira que derrama histórias no risco do mapa. Rios e montanhas, planícies, oceano. O farol. O pai marinheiro de direito! O mergulho traz calor. Fiz um gramado na minha sacada, e o maracujá se espreguiça na buganvília. A história atravessa a vidraça… As uvas se preparam pro verão… Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2012

Cartas, Diários e memória

Imagem

A memória de cada um é apenas a guardiã da memória coletiva. É preciso não esquecer que todos estes pedaços em registros servem para lembrar do que é comum: angústia, incerteza, turbulência, genialidade com incredulidade,  e um dia depois do outro. Carne, sexo e sangue: energia. E o que mais? Um espelho com tinta de memória distorcido, ilusão e realidade…Beth Mattos – 2012 – Porto Alegre

Um deserto árido

 

Através da janela espraiam-se as luzes da cidade na chuva, e das avenidas iluminadas com um brilho nevoento. Sobre a escrivaninha, pastas abarrotadas de papéis, livros diversos abertos diante deles, cartões de várias cores, talvez um copo de uíque entre os papéis, e rascunhos, e vários bilhetes e anotações, tudo espalhado à luz da luminária de grife que projeta um agradável círculo de uma luz silenciosa e quente. E dos cantos do aposento, de entre as prateleiras carregadas,flui uma música suave. Lá está um homem debruçado sobre sua escrivaninha, estende a mão quando quer e toma um gole do uisque, enche um cachimbo quando quer, com energia e vivacidade preenche uma folha atrás da outra, escreve, apaga, se anima, se arrepende, amarrota e joga no chão, por trás dele, a folha rejeitada. Tenta de novo, o som de uma sirene distante ou o repicar abafado de sinos se ouve lá de fora, finalmente vem a inspiração e com ela a alegria e o homem atinge seu alvo. Então suspira aliviado, lento e cansado, de olhos fechados em sua bela cadeira. Só ergue a voz um pouco, e uma mulher de roupão ou de quimono se apressa a entrar no quarto. Essas são as coisas simples e fortes que se deve fazer acontecer, porque sem elas a vida mais parece um deserto árido. (68-69) Uma certa Paz / Amós Oz