Sobre Iberê Camargo

Vida clandestina escondida que se desenvolve paralela à vida pública. O artista tem caverna. Alguns vivem como pessoas comuns: mulher, filhos e trabalho. Recebem visitas, tomam café nas esquinas caminham e veem amigos. Mas, em nenhum momento, deixam de ser estranhos ao olhar comum.  Isolado, clandestino, camuflado. Compreendido ou incompreendido. Nunca no trilho comum. Viajam para estranhos lugares e conhecem coisas estranhas. Nós, os outros, não admitimos o mundo como ilusão e  viajando vemos cidades, colinas, rios e pontes.

Nós nos tornamos o que constrange. Constantes conflitos e deslocamentos de insatisfação. Iberê esteve na clandestinidade da justiça protestando no exílio do atelier em Nonoai. (…)

Agora a loucura domina o mundo, comanda com a autoridade da razão, fala como se fosse à verdade. Pobre dos inocentes, pobre dos peixes, pobre dos animais. (…), o homem é o único animal que não deveria estar na arca. As criaturas vão ao extermínio jogando bombas atômicas e gases venenosos, como se fossem confetes. Ah! A imagem da loucura entrará em todas as casas pelo mundo afora, para a alegria sádica que dá ver morrer. Depois se põe coroas no túmulo do herói desconhecido, e o Papa reza pelos mortos.[1]

Conhecer Iberê Camargo é ser tocado por sua fúria de amor, seu abafado afeto, suas perguntas instigantes. Nunca a calmaria. Sempre a espera. O mundo será salvo por insubordinados. Estes insubordinados são o “sal” da Terra e responsáveis pela presença de Deus. Iberê Camargo explodiu como Hiroxima.  Ardeu queimou anos seguidos com outros nomes: tendinite, artrite, mal de coluna, dores de cabeça, depressão, estômago em fogo, enfim, nomes e mais nomes para explicar o câncer. A explosão atingiu os amigos, minou, transformou  …

Estranho e limitado é o ser humano, incapaz de entender o seu próprio ego. Não raro sinto-me como meus ciclistas, que vagam por um mundo deserto, morto. No fundo (…) eu sou eles. Mas eu tenho que dizer, tenho que pintar a verdade porque só ela importa! E a beleza? Talvez verdade e beleza sejam uma só coisa.”[2]

Releio Iberê em poema assim: “Teu silêncio me faz pensar no Vento da Desesperança que nos fala Mário Quintana. Este vento que ninguém sabe aonde mora e de onde vem, vento que vive como cão, que sopra sobre os charcos, que enraivece o fogo e propaga incêndio. Que sopra sobre tudo que é podre, morte e ruim; este vento separa os amantes, separa os irmãos,separa os amigos e fará com que não  mais se vejam,não mais se falem e, tudo isto, sem explicação ou razão.Ele transforma o amor em ódio. Ele apaga a vida. Será, Elizabeth, que este vento mau soprou sobre nós? Desconfio que ele nasce e morre no coração do homem.[3]

(Torres, sexta-feira, 17 de abril de 1998.Iberê está enterrado dentro de nós, os agonizantes.)

A existência do indivíduo “é aquela contínua caça de si mesmo, espiando astutamente as próprias pegadas (…) num eterno andar em círculo; aquele aparente mergulho no rio da vida, mantendo-se, no entanto sentado, lançando o anzol à espera de pescar a si mesmo sob sabe-se lá qual estranho disfarce!” Jacobsen in Niels Lyhne.

 


[1] Iberê Camargo, 16 – 1 – 1991. Fragmento da correspondência com Elizabeth Mattos.

[2] Iberê Camargo. P. Alegre, 13 – 2 – 1990. Fragmento da correspondência com Elizabeth Mattos.

[3] Iberê Camargo, 7 – 3 – 1988. Fragmento da correspondência com Elizabeth Mattos.

 

3 comentários sobre “Sobre Iberê Camargo

  1. Amiga, nao entendi se a carta foi escrita por ele ou por ti, desculpe fiz leitura rapida , mas o q li , amei, fecha exatamente com o q penso e sinto.

  2. Este artigo eu escrevi no tempo da famosa polêmica com o professor Augusto Massi, Flávio Tavares e eu… Ficou engavetado: nele tem fragmentos de cartas angustiadas de Iberê Camargo. Bom que gostaste. Estou aproveitando o BLOG para Publicar estas coisas. De repente surge a ideia de fazer um livro só com Iberê Camargo. Outro só com Paulo Hecker Filho. Bom poder contar contigo minha amiga!

  3. Eu estava com a mesma dúvida da “Magda”…mas agora ficou esclarecido.
    Mais uma vez tantas coisas coicidem com nosso modo de viver e pensar. Ou seria pensar e viver?

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