Confissões de

Mokropsy, 20 de julho de 1921

Querido amigo,

É uma boa experiência espiritual, não a sua ou a minha, pessoalmente, mas uma verificação da alma, do seu poder de penetração, de sua potência – de seus limites.

Digamos isso em sã consciência: não há entre nós, no momento, a menor animosidade e asseguro que, enquanto estivermos nas cartas, não haverá nenhuma. A animosidade virá consequentemente se surgir dos corpos, de uma confrontação dos corpos: de alguns indícios terrestres, das roupas. (O corpo, não o considero absolutamente como uma metade à parte do indivíduo. O corpo, na juventude, é um enfeite, na velhice – um túmulo, do qual você gostaria de escapar!)

Pode acontecer que a sua voz não me agrade, pode acontecer – que a minha voz não agrade a você (não, a voz irá lhe agradar, mas um jeito de ser meu – pode ser que – não) etc. De fato, os corpos (nossas quedas, nossos gostos!) não são humanos. Psiquê (a invisível!), nós a amamos eternamente, porque apenas a alma ama em nós aquilo que não se vê. (…)

Existe, é claro, um amor-limite (ou seja – sem limite!); “eu te amo, tal como és.” Mas como deve ser este tu? É, certamente, um milagre. (…)

 

Vivendo Sob o Fogo, Confissões, Marina Tsvetáieva. Ed Martins Fontes,2008. (p. 277-278)

 

Torres, 9 de março de 2016

Querido amigo,

Eu queria estar te dizendo com estas mesmas palavras… Choramingar da distância. Choramingar deste envelhecer decrépito …

O corpo, uma casca que não nos pertence, mas, infelizmente, ela, exatamente ela será o escudo. Não vamos reclamar, apenas vamos seguir a nos escrever.

 

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