Demônios aquartelados

Demônios aquartelados

Deixa o amor do amado te tocar. Não importa que meio adormecida…

Deixa que teus demônios avancem aquartelados: isso te fará bem. Mostra ao querido o lado negro, talvez cruel, mas assim mesmo teu. Quando não quiseres responder, não responde. Deixa de ter pena de ti. Abandona as queixas amarelas, vermelhas e azuis… Elas reafirmam o sofrimento. Queremos ter/usar esta armadura pesada a nos proteger, e como Joana D’Arc ter fé inabalável, vencer a guerra. No entanto as mazelas de amor são apenas batalhas… Ganhas ou perdidas, batalhas… As queixas? O pão com café preto de todas as manhãs. Alimenta tuas fantasias, aplaca tua ansiedade com o som da flauta mágica… Confirma tua peregrinação. Se amares o amor, ama. Exerce teu poder de mulher, de criatura. Ultrapassa barreiras de preconceito. Depois! Se não for amor, usa o ponto no final da frase, resolve. Não procura respostas, nem faças perguntas. Abra os braços. Elizabeth M.B. Mattos – 20 de dezembro de 2012 – Porto Alegre

A Partilha

Laudo Médico de Cardiologista : Intensivo tratamento médico por sofrer de alterações isquêmicas desde o ano de 1967 e, como tal, necessita de medicamentos de uso contínuo. O referido informa que o paciente usa prótese total, do quadril direito, dor permanente devido à coxatrose severa, que necessitou de substituição, bem como também atesta que ele sofre de insuficiência cardíaca classe 1 da NYHA, e fibrilação atrial permanente, necessitando usar antiadesivos plaquetários, para evitar a anticoagulação, e marca-passo por AVC isquêmico (embolia, e, ainda, mais uma prótese total de quadril, agora à esquerda, realizada em agosto de 2010.

Prosseguindo, o mesmo aponta que o paciente sofreu agravamento do seu estado de saúde, pois, no momento, ele está com um quadro de insuficiência ventricular esquerda, em tratamento.

Passou para classe 2 da NYHA, o que limita muito suas atividades, e o impede de exercer atividade laboral e ortopédica que lhe exija esforço. O Autor é um homem com 73 anos de idade e que está com a sua capacidade muito reduzida devido à extensa lista de doenças que o acomete, segundo os CIDs que descreve de 1 a 8, conclui que o paciente necessita de tratamento e uso contínuo de medicamentos.

Rele o Laudo Médico. Todas aquelas especificações constantes do processo judicial favorecem sua permanência na casa. Evita sua saída imediata. Permanecerá em Rosado até o fim. Depois de um casamento de infidelidades, mas sem complicações aparentes sua mulher o abandona. Logo conhece Mariana, mulher de poucas palavras, amarga, mas paciente. Introspectiva. Uma relação que se ajusta na cumplicidade.

Abandonar Rosado? O dia termina lânguido, silencioso. Escurece. Pelas janelas percebe luzes na casa ao lado.

Pensa na irmã viúva! Deve entregar Rosado? Doente, tomado pela angústia, confia no laudo médico. Rosado ultrapassa o sentido de morar… A cada detalhe o prazer. Ou a lembrança do amor por Isabel… Sempre Isabel! Mariana não deixa transparecer aborrecimento com esta nostalgia. Suporta as estranhezas. Jaime é o homem que precisa: pouco exigente porque sempre ocupado com sua compulsão, outras mulheres. Uma relação que se ajusta: gostam de cinema, das leituras. Nunca viajam, os negócios absorvem seu tempo. Marina se deixa ficar passivamente. Ele se desloca de uma mulher para outra na certeza de dominar aquele mundo libidinoso que conhece. E mesmo acompanhado carrega pesada solidão interior. Ambos escondem desgastadas lembranças.

Jaime sente um peso enorme por ter abandonado a empresa de Rolamentos Cassel. Desistira de trabalhar no escritório. O cunhado gerenciava o negócio. A crise no mercado, o crescimento da cidade. A concorrência o obrigou a reduzir a empresa: empregados despedidos. Importações de matéria prima impraticáveis. Ele herdou a loja. Agora o patrimônio se reduzia. E a multinacional alemã: perdeu dinheiro. Restou a casa de Rosado. Um pequeno apartamento na capital, e um chalé em Santa Catarina, Ilhota. Volta a pensar na irmã: feitas as contas a propriedade lhe pertence. Chora escondido na sala semi escura. Por um momento  se desespera. Nenhuma necessidade de dinheiro. Reivindica justiça com frieza, até covardia. Eles tinham diferenças, é verdade, e Jaime lhe devia uma boa quantia em dinheiro, mas  a casa? Pensa no passado. Rosado tinha para ele um significado que ultrapassava o sentido de morar. Durante aqueles anos todos ele se dedicara a casa de pedras: novas vigas, assoalho, a grande lareira que conseguira projetar na sala menor, a biblioteca. Cada detalhe destas empreitadas lhe traz a lembrança do enlouquecido amor por Isabel… Não se conforma de tê – la perdido, às vezes, se surpreende a pensar nela, e sente vontade de correr ao seu encontro e suplicar. Doente luta pelo direito de morrer na casa.  As reformas foram feitas em tempo de plena saúde. Tempos de festas quando ele ainda podia dançar pintar tocar piano usando os pedais para os acordes. Atualmente a casa se transfora num instrumento de tortura, não apenas pela quantidade de escadas, mas amargava em saudade maior – a da juventude. Saudade indefinida de uma vida que não era/não é mais. Enfrentar escadas era o seu calvário: o que a casa lhe oferecia/oferece agora? Não sabia/sabe explicar. Fazia/faz questão de morrer ali, como se esta teimosia fosse consolo, e não uma batalha legal.

As água do lago se aquietam sem vento. O entardecer ilumina o arvoredo.

A casa estava tomada por telas sombrias pintadas por ele. Segue copiando os mestres na tentativa de apurar a técnica. Deitado no meio da sala repassa o tempo perdido entre idas e vindas fiticiamente produtivas. Sua vida não passa de um amontoado de tentativas. A nobreza não trabalha, usufrui. Dilapidara o patrimônio do avô, do pai. Guardou Rosado. Sequer poderia comprar a parte da irmã. Precisa comovê -la com sua doença, com seu tempo de vida contado… Ela quer a propriedade. Elizabeth M.B. Mattos – setembro 2011 – Torres (ainda não está completo).

Desgastadas lembranças.

 

 

Comentários:

Magda Franciosi

Lucia Maria Ramos da Silva Texto que mergulha fundo na vida de quem sabe do inconsciente coletivo. Vontade de deitar embaixo de uma árvore, carregada de laranjas, cerrar os olhos, escapulir do cotidiano para espiar atentamente todas as cenas que descreves. Texto maravilhoso e dá vontade que nunca acabe. Alguém impotente diante de realidade amarga; sem escapatória, sem filtro.

 

Carmen Lícia Palazzo Gostei muito, é forte, gosto de textos fortes. Outra coisa: tu consegues nos fazer “ver” as cenas. Eu vi a casa, o lago e até as telas pintadas por ele…

 

Ana Helena Loureiro Macedo
Ana Helena Loureiro Macedo Qto ao teu texto Beth ,como tds gostei mto !!!

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Elias Canetti a reler

Quem tem certeza? De quem é a razão? Do Pedro, ou da Luiza. De Lucia e Pedro de Romain Rolland? De Cabeças Trocadas de Thomas Mann? De Karl Marx? De Mao? De Lênin? De Jesus Cristo? Do Buda? De quem foi o sacrifício maior? Platão? Ou Sócrates? Heráclito? Napoleão?  Canetti? O meu sacrifício foi maior… E houve dor? Todos os livros lidos, mesmo os não lidos sem resposta. A vida, a graça de viver se deve a nós mesmos… Desta responsabilidade não escapamos. Quem É afinal?

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“Aprendi de todas as maneiras possíveis, sem jamais sentir o aprendizado como uma obrigação ou um peso, pois nada havia que mais me instigasse ou me ocupasse secretamente. Tudo o que em mim penetrava, criava raízes fortes, havia lugar para tudo, nunca tive a sensação de que algo me era regateado; pelo contrário, parecia-me que tudo estava a meu dispor, eu só precisava absorvê-lo. Tão logo eu absorvesse, relacionava-se com outras coisas, se unia a elas, continuava a crescer, criava sua própria atmosfera e clamava por novos conhecimentos. Era justamente este vigor com que tudo tomava forma, e não apenas se somava a outras coisas. Talvez eu fosse ingênuo ao viver só no presente, sem que o sono o interrompesse. […] a avaliação. Jamais tive que ouvir que se fazia algo por motivos práticos. Nada se empreendia porque pudesse Sr ‘útil’ para nós. Todas as coisas que eu quisesse apreender tinham os mesmos direitos. Eu avançava por cem caminhos diferentes, sem ter que ouvir que este, ou aquele era mais cômodos, mais generosos, mais lucrativos. O que importava era as coisas em si, não a sua utilidade. Devíamos ser meticulosos e profundos, capazes de emitir uma opinião sem rodeios, mas esta profundeza cabia à coisa em si, e não a qualquer proveito que dela pudéssemos usufruir.” (p.190-192)

A língua Absolvida História de uma Juventude/ Companhia das Letras

Elias Canetti

Fotos do Blog http://thefullerview.tumblr.com/

Elias Canetti

Eu a vigiava, como ela a mim, e quando se está tão próximo a alguém, adquire-se uma sensibilidade infalível para todas as emoções do outro. Por mais que eu estivesse empolgado por suas paixões, jamais teria desculpado um tom falso. Não era presunção, mas sim a intimidade, o que me dava direito à vigilância, e eu não hesitava em interpretá-la tão logo pressentia uma influência estranha, inusitada. (p.187)

A Língua Absolvida História de uma Juventude

jogo de paciência

Depois de pensar que devo escrever todos os dias eu me vejo jogando paciência na tela do computador. Jeito estranho de passar o tempo. Nem um livro, ou uma revista. Ou a rua, as pessoas. Cartas. O jogo de paciência descamba em lances perdidos, estou distraída. Criança  silenciosa. Obediente. Sinto-me prisioneira. Grades voluntárias. Ativista? Ativista de um mundo que se modifica tão rápido! Volta ao passado? Uma oposição derrotada, iludida numa luta interna sem causa. Insatisfação. Bilhar? Sinuca? Xadrez, Pôquer. Ou Canastra? Copas? Uísque, conhaque, vodca ou cachaça? Revolucionária. Onde estão os heróis? Sigo às cegas limpando, perfumando, colocando o que eu chamo de beleza em cada possível recanto. Ordeno, esfrego o tempo. O polimento é a possibilidade. O fictício prevê o massacre… O soluço que permanece armazenado. Outra quebra outra guerra! O burguês, o operário oprimido, o rei. Invertido, ereto, horizontal, vertical, o poder noutras mãos…  Dom Quixote, Fausto, Demo, Ulisses. Prometeu. O encontro está na criação da obra de arte: o vestido, este prato, ou uma aquarela. A escultura, a flor, aquela árvore, um sapato. O beijo, a referência, um grito. A paz, um aperto de mão. Nos pequenos gestos de todos os dias. Não está nas cinzas. Ou estará em Hiroshima? O massacre. As torres de 11 de setembro? As crianças mortas  dentro da escola. A dor continuada dos oprimidos. A prepotência de quem exige. A violência está no olhar, na luta, na submissão ao mestre? Não importa o lado. A pirâmide segue misteriosa, e nós, os pequenos omissos seguimos tateado.

Um galho solto que completa o tempo. O ciúme, uma exagerada saudade. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2012 – Torres

No recuo do amor

Como venta! Aqueles velhos ventos torrenses que assobiam. E gritam que ainda é primavera. Leva folhas, sacode a cidade, e tempera o verão. Tomo banho demorado. Cheiro de sabonete. Agua perfumada. Separo dois vestidos, abro a mala. Não são as roupas que importam. Guardo vaidade. É preciso colocar na mala certezas menos doloridas. A roupa importa sempre. Ah! Envelhecer é que parece doença de silêncio belicoso. Vou quebrar os gestos. Na sombra do entardecer observo outra sombra, quero definir. Da beleza que nego um braço se espicha pedinte. Equívoco. De volta aquela sensação de tempo perdido, lacrado. O dia termina. Dois vestidos, a mala aberta. Será que vou mesmo a Porto Alegre?  Impotência, esquisitice e vulnerabilidade! A conversa sacudida me levou ao centro do problema. É doença este ir e vir arrastado. Dores alheias, ou  são as minhas escondidas que atrapalham?  Esquisito estar sem lugar. Pesa a conversa telefônica. Por que estou acuada? Estou encostada na cadeira, penso nas palavras. Não deixo acontecer. Sempre o meio do caminho. Ou empurrada pelo tempo de urgências, seguindo o sinal da emergência. Foi no recuo que o afeto surgiu.

Cartas. Conversas telefônicas! Quando fui ao teu encontro definitivamente já não estavas mais lá. Enfrentar a cidade também te aterroriza. Entrei no apartamento vazio. Duas amplas salas envidraçadas, lindas e vazias. Recuaste. Neste recuo, nesta volta desapareci atrás dos jacarandás… Desci as ladeiras.Todas as cartas voltaram. Nem o lápis, nem a caneta, nem o papel, ou qualquer tempo, nem teu amor… Eu me perdi outra vez.

O que eu ia mesmo escrever? Eu queria encontrar uma saída para tanta instabilidade interior… Ah! Queria te contar do vento de Torres. E do banho perfumado!

Creio que em cada vida há períodos em que o homem existe realmente, e outros em que não passa de um aglomerado de responsabilidades, de fatigas e, para os cérebros fracos, de vaidade. ”

Marguerite  Yourcenar, Golpe de Misericórdia. Página 107

Enfrentamento

O tempo deveria passar lento. E o dia inteiro deveria preencher a angústia, que satisfeita, faz dormir. Os livros são a respiração artificial para o doente. Num mundo que se pretende organizado, liso, e compreensível somos a própria doença, por isso asfixiamos. A leitura o remédio. Queremos este mundo visível virado, diferente; queremos mais, ou menos, não igual. Como o calor que sufoca estas vozes conjuntas que indicam o certo, o errado alucina. Estar em lugar preciso define gestos: aquele grupo social exige determinado comportamento. Quando estamos já do outro lado, o que passou nem se faz ainda distante e já viramos o rosto. Retornar tem gosto de recomeçar de início. Por que inicio pode ser duro? Porque iniciar repetidas vezes nos dá uma sensação de não ter avançado? Estagnação. Voltar, enfrentamento. Rompo barreiras naturais forçando aceitação.  Não me aceito. A libertação chega aos poucos, se é que um dia nos libertaremos…

os treze anos, os quinze ou os vinte sete anos…

Os dias chamam para o Natal… Para o nascimento, o recomeço, a confirmação de sermos irmãos. Tempo de acreditar em sinos repicando de alegria, rezas, e na natureza que conversam. Corações abertos a confraternização, nos recolhemos no desassossego… No vestíbulo entre forasteiros, inquieta neste tempo avassalador que substitui o promissor da vida… Por quê? Expectadora, ou mensageira num eterno ir e vir, sem respirar… O ano de 2013 sinaliza… Aberto aos pequenos novos cidadãos, irmãos. Talvez os treze anos, os quinze ou os vinte sete anos destes jovens sejam sinaleiros para mim… Rezo, e desejo que eles consigam abrir a beleza… Não me conformo com as mortes prematuras de tantas crianças que mancham a América, nem com a violência do Brasil lacrada pela droga, o veneno… Por onde abriremos as novas picadas? Como serão as novas orações?  Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2012 –

Em que lugar está a fé? Talvez,  como escreve Mariás:

a consciência das minhas horas mortas me deprime imensamente… “

Assim mesmo quero que nós todos tenhamos um Feliz Natal!

“O próprio vestíbulo do hotel, por definição repleto de forasteiros, de gente – como eu – de passagem, produzia-me infinito desassossego e inveja: todos, até os que estão visivelmente esperando, descansando ou matando tempo, dão a impressão de saber tão bem a que se propõem, todos parecem tão atarefados, tão decididos, tão a ponto de ir para algum lugar cuja existência adquire sentido por aguardá-los, tão absortos em suas atividades presentes, ou iminentes, ou sonhadas, ou projetadas, que a consciência das minhas horas mortas me deprimia imensamente (…)”

p.29/ O homem Sentimental de Javier Marías

Grama molhada

Sono profundo… Não vi a tempestade passar. Árvores danificadas, objetos voadores, e muita água pesada se faz presente na grama úmida. Folhas lavadas, calçadas tomadas…

A manhã é fresca, e os passarinhos se agitam. Estou de volta.

As notícias descem lentas entre dívidas, futebol, assassinato e roubo. Nada mudou. Onde estão as crianças americanas?