A Partilha

Laudo Médico de Cardiologista : Intensivo tratamento médico por sofrer de alterações isquêmicas desde o ano de 1967 e, como tal, necessita de medicamentos de uso contínuo. O referido informa que o paciente usa prótese total, do quadril direito, dor permanente devido à coxatrose severa, que necessitou de substituição, bem como também atesta que ele sofre de insuficiência cardíaca classe 1 da NYHA, e fibrilação atrial permanente, necessitando usar antiadesivos plaquetários, para evitar a anticoagulação, e marca-passo por AVC isquêmico (embolia, e, ainda, mais uma prótese total de quadril, agora à esquerda, realizada em agosto de 2010.

Prosseguindo, o mesmo aponta que o paciente sofreu agravamento do seu estado de saúde, pois, no momento, ele está com um quadro de insuficiência ventricular esquerda, em tratamento.

Passou para classe 2 da NYHA, o que limita muito suas atividades, e o impede de exercer atividade laboral e ortopédica que lhe exija esforço. O Autor é um homem com 73 anos de idade e que está com a sua capacidade muito reduzida devido à extensa lista de doenças que o acomete, segundo os CIDs que descreve de 1 a 8, conclui que o paciente necessita de tratamento e uso contínuo de medicamentos.

Rele o Laudo Médico. Todas aquelas especificações constantes do processo judicial favorecem sua permanência na casa. Evita sua saída imediata. Permanecerá em Rosado até o fim. Depois de um casamento de infidelidades, mas sem complicações aparentes sua mulher o abandona. Logo conhece Mariana, mulher de poucas palavras, amarga, mas paciente. Introspectiva. Uma relação que se ajusta na cumplicidade.

Abandonar Rosado? O dia termina lânguido, silencioso. Escurece. Pelas janelas percebe luzes na casa ao lado.

Pensa na irmã viúva! Deve entregar Rosado? Doente, tomado pela angústia, confia no laudo médico. Rosado ultrapassa o sentido de morar … A cada detalhe o prazer. Ou a lembrança do amor por Isabel … Sempre Isabel! Mariana não deixa transparecer aborrecimento com esta nostalgia. Suporta as estranhezas. Jaime é o homem que precisa: pouco exigente porque sempre ocupado com sua compulsão, outras mulheres. Uma relação que se ajusta: gostam de cinema, das leituras. Nunca viajam, os negócios absorvem seu tempo. Marina se deixa ficar passivamente. Ele se desloca de uma mulher para outra na certeza de dominar aquele mundo libidinoso que conhece. E mesmo acompanhado carrega pesada solidão interior. Ambos escondem desgastadas lembranças.

Jaime sente um peso enorme por ter abandonado a empresa de Rolamentos Cassel. Desistira de trabalhar no escritório. O cunhado gerenciava o negócio. A crise no mercado, o crescimento da cidade. A concorrência o obrigou a reduzir a empresa: empregados despedidos. Importações de matéria prima impraticáveis. Ele herdou a loja. Agora o patrimônio se reduzia. E a multinacional alemã … perdeu dinheiro. Restou a casa de Rosado. Um pequeno apartamento na capital, e um chalé em Santa Catarina, Ilhota. Volta a pensar na irmã: feitas as contas a propriedade lhe pertence. Chora escondido na sala semi escura. Por um momento  se desespera. Nenhuma necessidade de dinheiro. Reivindica justiça com frieza, até covardia. Eles tinham diferenças, é verdade, e Jaime lhe devia uma boa quantia em dinheiro, mas  a casa? Pensa no passado. Rosado tinha para ele um significado que ultrapassava o sentido de morar. Durante aqueles anos todos ele se dedicara a casa de pedras: novas vigas, assoalho, a grande lareira que conseguira projetar na sala menor, a biblioteca. Cada detalhe destas empreitadas lhe traz a lembrança do enlouquecido amor por Isabel … Não se conforma de tê – la perdido, às vezes se surpreende a pensar nela, e sente vontade de correr ao seu encontro … suplicar. Doente luta pelo direito de morrer na casa.  As reformas foram feitas em tempo de plena saúde. Tempos de festas quando ele ainda podia dançar pintar tocar piano usando os pedais para os acordes. Atualmente a casa se transfora num instrumento de tortura, não apenas pela quantidade de escadas, mas amargava em saudade maior – a da juventude. Saudade indefinida de uma vida que não era mais … Enfrentar escadas era o seu calvário: o que a casa lhe oferecia agora? Não sabia explicar. Fazia questão de morrer ali, como se esta teimosia fosse consolo, e não uma batalha legal.

As água do lago se aquietam sem vento. O entardecer ilumina o arvoredo.

A casa estava tomada por telas sombrias pintadas por ele. Segue copiando os mestres na tentativa de apurar a técnica. Deitado no meio da sala repassa o tempo perdido entre idas e vindas fiticiamente produtivas. Sua vida não passa de um amontoado de tentativas. A nobreza não trabalha, usufrui. Dilapidara o patrimônio do avô, do pai. Guardou Rosado. Sequer poderia comprar a parte da irmã. Precisa comovê -la com sua doença, com seu tempo de vida contado … Ela quer a propriedade. Elizabeth M.B. Mattos – setembro 2011 – Torres ( ainda não está completo)

Desgastadas lembranças.

 

 

Comentários:

Magda Franciosi

Lucia Maria Ramos da Silva Texto que mergulha fundo na vida de quem sabe do inconsciente coletivo. Vontade de deitar embaixo de uma árvore, carregada de laranjas, cerrar os olhos, escapulir do cotidiano para espiar atentamente todas as cenas que descreves. Texto maravilhoso e dá vontade que nunca acabe. Alguém impotente diante de realidade amarga; sem escapatória, sem filtro.

 

Carmen Lícia Palazzo Gostei muito, é forte, gosto de textos fortes. Outra coisa: tu consegues nos fazer “ver” as cenas. Eu vi a casa, o lago e até as telas pintadas por ele…

 

Ana Helena Loureiro Macedo
Ana Helena Loureiro Macedo Qto ao teu texto Beth ,como tds gostei mto !!!

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9 comentários sobre “A Partilha

  1. Beth! vc escreve com a naturalidade e fluência dos que são mkuito bons.Continua que eu te sigo!!! bjs

  2. Lucia Maria Ramos da Silva Texto que mergulha fundo na vida de quem sabe do inconsciente coletivo. Vontade de deitar embaixo de uma árvore, carregada de laranjas, cerrar os olhos, escapulir do cotidiano para espiar atentamente todas as cenas que descreves. Texto maravilhoso e dá vontade que nunca acabe. Alguém impotente diante de realidade amarga; sem escapatória, sem filtro.

  3. Carmen Lícia Palazzo Gostei muito, é forte, gosto de textos fortes. Outra coisa: tu consegues nos fazer “ver” as cenas. Eu vi a casa, o lago e até as telas pintadas por ele…

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