A tua mão

Se a palavra amarra tem como significado tudo aquilo que prende, liga estendo o sentido à educação. O trabalho do professor, o processo mesmo de armazenamento, do conhecimento tem como base o estudo, e o saber deste mestre envolvido, alicerce do processo.  As amarras serão a convivência, o amor, as relações desta criança com a vida, com a família. Quando alguém se debruça nos livros para estudar; quando se aprofunda ilustra o conhecimento em conversa aberta exercita as possibilidades… Divide alegria, mágoa. Certezas concretas, e possíveis dúvidas, mas é assimilação. Talvez nesta conversa exista o sentido da política.  A universalidade de apreender e ensinar. Um bom piloto necessita de um número significativo de horas de voo simulado para pilotar um avião de verdade pela primeira vez, este esforço, esta combinação de exercício com competência precisa ser iluminado… Equívocos, erros, desastres, intolerância, injustiça, sofrimento, ausência e solidão é vida, partilhar é o que nós humanos fazemos de melhor. Estenda a mão…

Confissões de

Mokropsy, 20 de julho de 1921

Querido amigo,

É uma boa experiência espiritual, não a sua ou a minha, pessoalmente, mas uma verificação da alma, do seu poder de penetração, de sua potência – de seus limites.

Digamos isso em sã consciência: não há entre nós, no momento, a menor animosidade e asseguro que, enquanto estivermos nas cartas, não haverá nenhuma. A animosidade virá consequentemente se surgir dos corpos, de uma confrontação dos corpos: de alguns indícios terrestres, das roupas. (O corpo, não o considero absolutamente como uma metade à parte do indivíduo. O corpo, na juventude, é um enfeite, na velhice – um túmulo, do qual você gostaria de escapar!)

Pode acontecer que a sua voz não me agrade, pode acontecer – que a minha voz não agrade a você (não, a voz irá lhe agradar, mas um jeito de ser meu – pode ser que – não) etc. De fato, os corpos (nossas quedas, nossos gostos!) não são humanos. Psiquê (a invisível!), nós a amamos eternamente, porque apenas a alma ama em nós aquilo que não se vê. (…)

Existe, é claro, um amor-limite (ou seja – sem limite!); “eu te amo, tal como és.” Mas como deve ser este tu? É, certamente, um milagre. (…)

 

Vivendo Sob o Fogo, Confissões, Marina Tsvetáieva. Ed Martins Fontes,2008. (p. 277-278)

 

Torres, 9 de março de 2016

Querido amigo,

Eu queria estar te dizendo com estas mesmas palavras… Choramingar da distância. Choramingar deste envelhecer decrépito …

O corpo, uma casca que não nos pertence, mas, infelizmente, ela, exatamente ela será o escudo. Não vamos reclamar, apenas vamos seguir a nos escrever.

 

Corticeira

Calçadas molhadas, árvores, arbustos. Luz cinzenta! Brilhante matizado. Pequenas e valentes amoras. É possível? Não azuis, verdes e rosadas, nova floração. Calores excessivos, tanta chuva, frescor. Outra vez, quentura fervente… Curioso pomar nas beiradas da Lagoa do Violão. E, este galho de corticeira com ramas floridas…[1]


[1] Erythrina crista-galli da fam. das leguminosas, nativa do Brasil (MA ao RS) e Argentina e cultivada como ornamental armada de acúleos e muito ramificada, com tronco tortuoso, casca adstringente e cicatrizante, usada em curtume, para extração de tintura vermelha, e que encerra eritrina, madeira amarelada, leve e porosa como a cortiça, folhas trifolioladas, flores vermelhas ou róseas, vagens lineares e sementes pequenas; bucare, bucaré, coraleira, coraleira-cristada, coraleiro, cristada, flor-de-coral, maçã-de-cobra, mulungu, mulungu-crista-de-galo, sananduva, suinã, sumauveira…
Beleza nesta nomenclatura de rainha…Surge flor-de-coral, mulungu!

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Demônios aquartelados

Demônios aquartelados

Deixa o amor do amado te tocar. Não importa que meio adormecida…

Deixa que teus demônios avancem aquartelados: isso te fará bem. Mostra ao querido o lado negro, talvez cruel, mas assim mesmo teu. Quando não quiseres responder, não responde. Deixa de ter pena de ti. Abandona as queixas amarelas, vermelhas e azuis… Elas reafirmam o sofrimento. Queremos ter/usar esta armadura pesada a nos proteger, e como Joana D’Arc ter fé inabalável, vencer a guerra. No entanto as mazelas de amor são apenas batalhas… Ganhas ou perdidas, batalhas… As queixas? O pão com café preto de todas as manhãs. Alimenta tuas fantasias, aplaca tua ansiedade com o som da flauta mágica… Confirma tua peregrinação. Se amares o amor, ama. Exerce teu poder de mulher, de criatura. Ultrapassa barreiras de preconceito. Depois! Se não for amor, usa o ponto no final da frase, resolve. Não procura respostas, nem faças perguntas. Abra os braços. Elizabeth M.B. Mattos – 20 de dezembro de 2012 – Porto Alegre

A Partilha

Laudo Médico de Cardiologista : Intensivo tratamento médico por sofrer de alterações isquêmicas desde o ano de 1967 e, como tal, necessita de medicamentos de uso contínuo. O referido informa que o paciente usa prótese total, do quadril direito, dor permanente devido à coxatrose severa, que necessitou de substituição, bem como também atesta que ele sofre de insuficiência cardíaca classe 1 da NYHA, e fibrilação atrial permanente, necessitando usar antiadesivos plaquetários, para evitar a anticoagulação, e marca-passo por AVC isquêmico (embolia, e, ainda, mais uma prótese total de quadril, agora à esquerda, realizada em agosto de 2010.

Prosseguindo, o mesmo aponta que o paciente sofreu agravamento do seu estado de saúde, pois, no momento, ele está com um quadro de insuficiência ventricular esquerda, em tratamento.

Passou para classe 2 da NYHA, o que limita muito suas atividades, e o impede de exercer atividade laboral e ortopédica que lhe exija esforço. O Autor é um homem com 73 anos de idade e que está com a sua capacidade muito reduzida devido à extensa lista de doenças que o acomete, segundo os CIDs que descreve de 1 a 8, conclui que o paciente necessita de tratamento e uso contínuo de medicamentos.

Rele o Laudo Médico. Todas aquelas especificações constantes do processo judicial favorecem sua permanência na casa. Evita sua saída imediata. Permanecerá em Rosado até o fim. Depois de um casamento de infidelidades, mas sem complicações aparentes sua mulher o abandona. Logo conhece Mariana, mulher de poucas palavras, amarga, mas paciente. Introspectiva. Uma relação que se ajusta na cumplicidade.

Abandonar Rosado? O dia termina lânguido, silencioso. Escurece. Pelas janelas percebe luzes na casa ao lado.

Pensa na irmã viúva! Deve entregar Rosado? Doente, tomado pela angústia, confia no laudo médico. Rosado ultrapassa o sentido de morar … A cada detalhe o prazer. Ou a lembrança do amor por Isabel … Sempre Isabel! Mariana não deixa transparecer aborrecimento com esta nostalgia. Suporta as estranhezas. Jaime é o homem que precisa: pouco exigente porque sempre ocupado com sua compulsão, outras mulheres. Uma relação que se ajusta: gostam de cinema, das leituras. Nunca viajam, os negócios absorvem seu tempo. Marina se deixa ficar passivamente. Ele se desloca de uma mulher para outra na certeza de dominar aquele mundo libidinoso que conhece. E mesmo acompanhado carrega pesada solidão interior. Ambos escondem desgastadas lembranças.

Jaime sente um peso enorme por ter abandonado a empresa de Rolamentos Cassel. Desistira de trabalhar no escritório. O cunhado gerenciava o negócio. A crise no mercado, o crescimento da cidade. A concorrência o obrigou a reduzir a empresa: empregados despedidos. Importações de matéria prima impraticáveis. Ele herdou a loja. Agora o patrimônio se reduzia. E a multinacional alemã … perdeu dinheiro. Restou a casa de Rosado. Um pequeno apartamento na capital, e um chalé em Santa Catarina, Ilhota. Volta a pensar na irmã: feitas as contas a propriedade lhe pertence. Chora escondido na sala semi escura. Por um momento  se desespera. Nenhuma necessidade de dinheiro. Reivindica justiça com frieza, até covardia. Eles tinham diferenças, é verdade, e Jaime lhe devia uma boa quantia em dinheiro, mas  a casa? Pensa no passado. Rosado tinha para ele um significado que ultrapassava o sentido de morar. Durante aqueles anos todos ele se dedicara a casa de pedras: novas vigas, assoalho, a grande lareira que conseguira projetar na sala menor, a biblioteca. Cada detalhe destas empreitadas lhe traz a lembrança do enlouquecido amor por Isabel … Não se conforma de tê – la perdido, às vezes se surpreende a pensar nela, e sente vontade de correr ao seu encontro … suplicar. Doente luta pelo direito de morrer na casa.  As reformas foram feitas em tempo de plena saúde. Tempos de festas quando ele ainda podia dançar pintar tocar piano usando os pedais para os acordes. Atualmente a casa se transfora num instrumento de tortura, não apenas pela quantidade de escadas, mas amargava em saudade maior – a da juventude. Saudade indefinida de uma vida que não era mais … Enfrentar escadas era o seu calvário: o que a casa lhe oferecia agora? Não sabia explicar. Fazia questão de morrer ali, como se esta teimosia fosse consolo, e não uma batalha legal.

As água do lago se aquietam sem vento. O entardecer ilumina o arvoredo.

A casa estava tomada por telas sombrias pintadas por ele. Segue copiando os mestres na tentativa de apurar a técnica. Deitado no meio da sala repassa o tempo perdido entre idas e vindas fiticiamente produtivas. Sua vida não passa de um amontoado de tentativas. A nobreza não trabalha, usufrui. Dilapidara o patrimônio do avô, do pai. Guardou Rosado. Sequer poderia comprar a parte da irmã. Precisa comovê -la com sua doença, com seu tempo de vida contado … Ela quer a propriedade. Elizabeth M.B. Mattos – setembro 2011 – Torres ( ainda não está completo)

Desgastadas lembranças.

 

 

Comentários:

Magda Franciosi

Lucia Maria Ramos da Silva Texto que mergulha fundo na vida de quem sabe do inconsciente coletivo. Vontade de deitar embaixo de uma árvore, carregada de laranjas, cerrar os olhos, escapulir do cotidiano para espiar atentamente todas as cenas que descreves. Texto maravilhoso e dá vontade que nunca acabe. Alguém impotente diante de realidade amarga; sem escapatória, sem filtro.

 

Carmen Lícia Palazzo Gostei muito, é forte, gosto de textos fortes. Outra coisa: tu consegues nos fazer “ver” as cenas. Eu vi a casa, o lago e até as telas pintadas por ele…

 

Ana Helena Loureiro Macedo
Ana Helena Loureiro Macedo Qto ao teu texto Beth ,como tds gostei mto !!!

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Elias Canetti a reler

Quem tem certeza? De quem é a razão? Do Pedro, ou da Luiza. De Lucia e Pedro de Romain Rolland? De Cabeças Trocadas de Thomas Mann? De Karl Marx? De Mao? De Lênin? De Jesus Cristo? Do Buda? De quem foi o sacrifício maior? Platão? Ou Sócrates? Heráclito? Napoleão?  Canetti? O meu sacrifício foi maior… E houve dor? Todos os livros lidos, mesmo os não lidos sem resposta. A vida, a graça de viver se deve a nós mesmos… Desta responsabilidade não escapamos. Quem É afinal?

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“Aprendi de todas as maneiras possíveis, sem jamais sentir o aprendizado como uma obrigação ou um peso, pois nada havia que mais me instigasse ou me ocupasse secretamente. Tudo o que em mim penetrava, criava raízes fortes, havia lugar para tudo, nunca tive a sensação de que algo me era regateado; pelo contrário, parecia-me que tudo estava a meu dispor, eu só precisava absorvê-lo. Tão logo eu absorvesse, relacionava-se com outras coisas, se unia a elas, continuava a crescer, criava sua própria atmosfera e clamava por novos conhecimentos. Era justamente este vigor com que tudo tomava forma, e não apenas se somava a outras coisas. Talvez eu fosse ingênuo ao viver só no presente, sem que o sono o interrompesse. […] a avaliação. Jamais tive que ouvir que se fazia algo por motivos práticos. Nada se empreendia porque pudesse Sr ‘útil’ para nós. Todas as coisas que eu quisesse apreender tinham os mesmos direitos. Eu avançava por cem caminhos diferentes, sem ter que ouvir que este, ou aquele era mais cômodos, mais generosos, mais lucrativos. O que importava era as coisas em si, não a sua utilidade. Devíamos ser meticulosos e profundos, capazes de emitir uma opinião sem rodeios, mas esta profundeza cabia à coisa em si, e não a qualquer proveito que dela pudéssemos usufruir.” (p.190-192)

A língua Absolvida História de uma Juventude/ Companhia das Letras

Elias Canetti

Fotos do Blog http://thefullerview.tumblr.com/

Elias Canetti

Eu a vigiava, como ela a mim, e quando se está tão próximo a alguém, adquire-se uma sensibilidade infalível para todas as emoções do outro. Por mais que eu estivesse empolgado por suas paixões, jamais teria desculpado um tom falso. Não era presunção, mas sim a intimidade, o que me dava direito à vigilância, e eu não hesitava em interpretá-la tão logo pressentia uma influência estranha, inusitada. (p.187)

A Língua Absolvida História de uma Juventude