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EMAILS COM BETH MATTOS E XICO STOKINGER 1983. BASTIDORES.

 

Beth: Conforme letra antiga do Chico Buarque, “tem dias que a gente se sente / como quem partiu ou morreu”. Mas o bom é que tudo passa: tristezas e alegrias. E, no instante seguinte, recomeçamos. Outra vez o mesmo trajeto. Como Sísifo. Outra vez! Outra vez! Verbo intransitivo… Ação. O trabalho precisa ser feito, refeito, feito outra vez. O verão terminou ontem, e cá estamos no agradável outono. Retomando meu amigo.

Xico:
Explico: a coisa toda, minha irritação não tem absolutamente nada com dinheiro
e também não sou nem nunca fui mão fechada. A minha irritação foi por
outras razões! Acho cafona comemorar uma coisa que ainda não terminou, não houve. Talvez não funcione! O editor é outra coisa, mas isso tem que se ver e saber, e eu, não vi nada nem sei nada sobre esse assunto, razão porque penso que se deve esperar  e ver tudo e não sair cheio de salgadinhos por ai…
É preciso andar mais devagar com o andor, e não fazer papel ridículo, o que fica muito mal pra um cara de 83 anos. Abraços do teu Xico. Responde sobre o assunto,  tá?

Beth:  Na verdade misturei os assuntos livro, jantar e Garagem de Arte. A questão é o galerista, e as vendas. Por isso sublinhei o que escreveste: “Tens razão nas tuas ponderações. Na verdade o vil metal atrapalha tudo.” Afirmo que o mecenas precisa existir. O artista carrega a pedra, e transforma. Beleza e verdade surgem. A obra! Não homem comum, mas o eleito. Quando te coloquei a questão eu me referia ao vender a obra no atelier, ou na galeria. A preocupação com a comercialização. Medir custo e trabalho. Quem vende liberta o artista… Outra questão o tal jantar de divulgação. Acho que também tens razão quando dizes que os sonhos não são apenas os teus. Brindar com editor e jornalistas, familiares, o artista é festa! Há juventude e confraternização. Tumulto e agitação, mas benéfico. Contornaremos a situação.

Xico: Não sou europeu coisa nenhuma, aprendi a falar aqui no Brasil, ESTUDEI AQUI minhas diversas profissões foram todas adquiridas no Brasil, quando falo Brasil deveria dizer Rio de Janeiro, pois foi lá que me desenvolvi como gente foi lá que praticamente aprendi tudo. Não falo alemão ou inglês regular mais por falta de ocasião, de pratica, já foi bom. Embora nascido na Europa, sou puro sangue Brasileiro, somente vim a conhecer outros países depois de morar no Rio Grande do Sul… Tenho que parar. 

Sou uma pessoa simples. Como pai não sou dos melhores, tudo por colocar a arte acima do resto. Sabia que, se quisesse ser alguma coisa em arte, tinha que me dedicar a ela em tempo integral. E o fiz quando meus filhos eram pequenos, e mais necessitavam o meu apoio e eu estava mais noutra. Felizmente, com o tempo, fui melhorando, e, com  a vida mais folgada, meus filhos tiveram o que necessitavam. Sou mais pra feio, mas me dizem simpático, o que tem me salvado de ficar batendo numa tecla só.Marido sofrível; mas, sendo surdo, feio e metido a besta, era difícil ser melhor.  Como artista fiz tudo para ser bom, mas a coisa é complicada; tem ismo  de tudo quanto é jeito e tem gosto para tudo que é ismo. E para que o teu ismo seja válido, é preciso que supere os ismos…

Fragmentos não publicados do  livro Xico Stockinger Memórias  da editora Artes e Ofícios. Organização de Elizabeth Menna Barreto Mattos

 

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