Receita para a DOR DE AMOR

002 - Cópia

POA-8/12/1998

OPINIÃO sobre teu texto de 139 páginas –

Comportamento romântico de adolescente escabelada. A carência afetiva regada a fel, envenena. Até quando derreterás no sol, olhando para a estátua do teu totem quixotesco (F.T.)? Hipnotizada, não é fácil. Procure te libertar do Édipo. Ressuscites, minha amiga, ou serás engolida pelo Minotauro. Muitas vezes empregas o NÓS como todos encerrados na jaula de teus problemas. Generalizando situações…, um tanto pessimista no contexto geral. Recoles os cacos, não procures outro para chorar no ombro a história do amor desfeito e umbilicalmente paterno.

Voltando ao teu texto, acho que escreves bem; discordo do Paulo Hecker aconselhando-te a largar as chuteiras. Ele não é o dono da literatura e parece-me um tanto presunçoso. Todavia concordo com a falta de unidade nos teus escritos. Parecem fragmentados com seixos multicor. Ausência poética, falta mais descrição dos ambientes, observações psíquicas ou físicas dos personagens, da natureza, etc.,etc..Diário-crônica-conto-romance- transcrição de cartas! O que pretendes? Não podes desconfiar das pessoas negativamente, considerando medíocres, se desconheces seu drama. Porque não pertencem a tua angústia tribal ou existencial. Ou culpar o mundo porque te refugiaste de sua realidade em frente à ilha dos lobos. Não estou pretendendo te desestimular, escreves bem… Mas falta conteúdo narrativo no todo. Um todo repetitivo apenas com riqueza de vocabulário.

Receito dares descarga no príncipe encantado, pô!

Por que não tentas ouvir historias de teus alunos ou relatar o drama assalariado das professoras intelectualizadas e fales menos de coxas abertas, sexo e cheiro de pele, chinelos de veludo, louças de porcelana, etc.

Quem sabe até se o perfume do zorrilho não contem algo mais original para motivar um texto surpreendente?

Estou enfaticamente realista, não radical, nessas considerações. Crente de que a direção do mistral deve ser urgentemente direcionada a favor DA tua literatura. Não estou sentenciando, apenas alertando.

Também passei pelo ciclo em que, inseguro, pensava ser dependente da mulher (no amor) para produzir melhor na arte. Depois, descobri que esse estímulo direcionado tinha criado um fantasma no castelo pessoal. Passei a entender que a OBRA ARTÍSTICA é mais importante. O envolvimento com ela exige combustíveis diversos. E, sendo necessário, se faltarem, toca-se o carrinho de mão com a energia física.

O amor paranoico, obsessivo oxida.

É necessário arquivar fobias. Sair da traiçoeira gaveta carcerária. É saudável driblar a desilusão e a “eternidade’ do amor. Acreditar no outro lado do rio. Consultar os anjos. Aplaudir o que a vida nos brinda, mesmo que sejam gramas de sanduíche. Nem existe receituário para o fazer artístico. O menu é frugal para o gosto de cada indivíduo. Porém, é preciso reconhecer que certos caminhos são aproximados a todos. E com endereço certo para chegarmos lá. A disciplina do fazer e refazer, a teimosia, é o segredo digital do cofre. Inútil ficar chorando na lápide funerária da frustração ou escutar o réquiem do amado ou da amada. O grande desafio tem que ser enfrentado, se realmente tencionamos alcançar a obra maior. Não existem evidentes, A auto-crítica é decisiva na superação do narcisismo artístico. Nada ajuda ficarmos cheirando o fofo e cheiroso travesseiro doméstico. A arte exige seguramente doação egoísta e sacrifício. Não podemos misturá-la com os ingredientes do quindim rotineiro…Prevalece, logicamente o resultado de nossa conduta favorável ou não. Não basta só o talento. A ação é tão decisiva quanto ele. O artista tem que estar só, quando necessário, conivente com seu mundinho ou mundão. Esquivo da dependência colante do casal. Mas, nunca se isolando da comunidade.

Repito: acho que deverias escrever sobre o teu drama como professora assalariada, enclausurada na burra Torres. Escreves bem, mulher, saias do casulo! E a lembrança dos maridos não contas? Abras o baú do passado, pode nele existir algo para motivar textos inúmeros.

Fragmento de uma carta de Danúbio Gonçalves, amigo de toda vida,  para  E.M.B.Mattos quando morava em Torres, frente pro mar.

Danúbio Vilamil Gonçalves

Bagé, 1925. Pintor, desenhista, gravador e escritor.

2 comentários sobre “Receita para a DOR DE AMOR

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