O instante seguinte

Estou sempre começando. Mas, na verdade, eu não sei onde é o início. Deve ter havido mesmo um início…

 

Tudo deu certo. Ou não.

Mas por que continuar?

Terminou, terminou.

Há que inventar depressa

algo a tentar,                             

que por sua vez acaba                                                                

 e nos devolve à vida.                                                                 

E o que fazer com a vida?                                                           

Outra coisa, mais uma, mil                                                                    

ou mesmo nada                                                                

e não se evitará                                                                

que a vida volte!

Poema de Paulo Hecker Filho – O instante seguinte –

XIX -19 acordes

                                                I – Primeiro movimento

Não deixá-lo cair. Inesperado movimento. Tropeçou. O corpo se inclinou na minha direção, solto. Eu o abracei. Olhos azuis. Mãos geladas. Esticar  o corpo modificou olfato, tato. O corpo magro, no meu abraço. Beijei o pescoço ousando. Caminhamos de mãos dadas, depois ele me abraçou … Bizarro e natural. Saímos do Museu. Atravessamos a passarela. Cidade vazia. Centro de Porto Alegre. Uma hora da manhã. O velório duraria ainda toda a noite. Apertei meu corpo contra o dele. Caminhamos pelo viaduto, encontramos  … Chegamos. Rua Santo Inácio deserta.  Antes de abrir a porta nos olhamos, nos olhamos na intimidade da exaustão, da tristeza. Estupefatos, cheios de estranheza. Nossas bocas se tocaram. Tinha os lábios gelados. Decidira tudo sobre o velório,  a máscara. E não dormia já faz um dia… Estranho querido! Queria embalar o corpo dele. Desci do carro com frio.  Nos vemos em Torres, ele disse. Anotei telefones e endereço. Espera por mim . Vou esperar. Sorri. Entrei na casa da minha irmã! Exausta!

                                              II – Segundo movimento

 Ainda te amo.

Não é Mário, nem o Pedro, nem o Gianfranco ou o Luis, ou Antônio

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Compreendo o que escreveste sobre o Sergio! A dor de saudade! E mencionas o importante – valorização -. Algumas pessoas fazem a diferença. Eu diria até que o ‘como’ estas criaturas conseguem o feito é misterioso, mas nos sentimos inteiras, melhores, como explicaste: valorizadas. Não são elogios. E não é simples. Não é dizer que somos lindas, ou inteligentes, ou coisas desse gênero… É mais. Por um motivo único, ou pelo próprio jeito de ser, de se aproximar, a mágica ocorre. Estar com elas nos valoriza. A referência. O guia do amor próprio… Então, escutar a voz já nos alerta para este generoso doador. O amor nos dá auto-estima. Ele, o danado do sentimento amor entre homem e mulher que apesar do sexo, apesar da ausência, apesar dos beijos, apesar das palavras, apesar do silêncio nos sustenta. Não é amor pelo amor. É um amor que nos valoriza como ser humano. Indica a saída. Aponto o caminho. A vida não é afagos, boa comida, bom sono, e beijos. O significado de estarmos no mundo, de atropelarmos a vida com metas, dinamismo, conquistas, perdas, tropeços, e outra vez vitórias está neste amor que tudo valoriza! Esta roda gira, e se transforma em caleidoscópio. Assim, minha amiga, não são os belos olhos azuis, nem as sacadas que se estendem no mar, nem terras, nem o fluxo do rio, nem poemas, nem dinheiro, nem falta de. O caminho, a estrada, as mãos dadas aliada a esta valorização faz a diferença. O mesmo esforço interno, pessoal de cada um permite esta essência de vida, – o amor. E só conseguimos dar um passo depois do outro quando confiamos em nosso poder de equilíbrio. Não é assim com a criança? Supera o medo, qualquer medo. Depois de vários joelhos esfolados um dia levanta e caminha. Bem! Um novo encontro, um novo processo. Não é Mário, nem o Pedro, nem o Gianfranco ou o Luis, ou Antônio. Esta constelação favorável pro amor nós é que vemos… Precisamos descobrir o motivo, a luz… Minha amiga: amamos perdidamente no silêncio, e na ausência tanto quanto no abraço, e no beijo. Ninguém ama melhor ou pior. Vale o que escreve Henry Miller:

Nossas leis e costumes relacionam-se com nossa vida social, nossa vida em comum, que é o lado menor da existência. A vida real começa quando estamos sozinhos, face a face com nosso eu desconhecido.” (p.29)

Henry Miller– apresentação de Otto Maria Carpeaux – O mundo do Sexo

Editora José Olympio – 2007.


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Búzios – Rio de Janeiro:- Praia de João Fernandes, Armação e Manguinhos.

Diana a caçadora solitária

Não há pior servidão que a esperança de ser feliz. Deus nos promete um vale de lágrimas aqui na Terra. Mas esse sofrimento é, afinal, passageiro. A vida eterna é a eterna felicidade. Respondemos a Deus rebeldes, insatisfeitos: Não merecemos uma parcela de eternidade em nossa passagem pelo tempo? – Podemos amar na Terra e merecer um dia o Céu? Não como penitentes, flagelantes, eremitas ou famélicos da vida, mas participando plenamente dela, obtendo e merecendo seus frutos terrenos, sem sacrificar por isso a vida eterna; sem pedir perdão por termos amado  not wisely but too well ? ” Fuentes – Diana a caçadora solitária –

Difícil traça um plano, ou fazer acontecer quando temos todo o tempo, todo o tempo do nosso dia. É justamente quando começamos a nos dar conta que não é o fator tempo que nos impede de agir… Não conseguimos agir por estar/ ser incapaz. E incapaz por ter me dado tanto tempo livre. Esta disponibilidade é que enlouquece. O teu silêncio me deixa enjoada. Simultaneidade de mal estar inexplicável. Se conseguir arrumar as gavetas, limpar o quarto, executar tarefas mínimas, e necessárias todo o corpo corresponderá ao prazer… A inércia nos faz menores, muito menores. Prazer. Será o prazer que corrompe? Toda a relação possível com o exterior é necessária, curativa. Qualquer atividade como caminhar no parque, verdejar a planta do vaso com boa água, e terra preta. Ou podar ansiedades, fazer um bolo, varrer. Lavar. Cuidar do gato. Pensar grande pensando o mundo. Ser gentil com a vida. Andar com os pés descalços, sentir a água no banho como se fosse mergulho no rio, no mar. Enfim, a natureza precisa entrar no nosso corpo. O desejo morno, tão manso que imobiliza é nocivo. Sim. Carecemos do beijo, do afago, do sorriso. As pessoas importam. Não podemos descartar o afeto. Terrível nos dar conta que em pleno poder do amor ousamos rejeitá-lo. É preciso medir. Somos prepotentes até quanto aos nossos sentimentos. Não importa se atravessamos a mata, o abismo do corpo para tocar a lenda… Beber ilusões e desfazer possibilidade. Mas…

“Mas quem é Prometeu, o que rouba o fogo sagrado? Por que usa sua liberdade apenas para perdê-la? Teria sido mais livre se não a usasse e não a perdesse apesar de que tampouco a teria ganhado? Pode a liberdade ser conquistada por um outro valor que não seja a própria liberdade? Nessa terra só podemos amar se sacrificamos o amor, se perdemos o ser amado por nossa própria ação, por nossa própria omissão? É preferível algo a tudo ou a nada? Perguntei-me isso quando terminaram os amores que aqui vou relatar. Ela me deu tudo e me tirou tudo. A ela pedi que me desse algo. Esse “algo” só pode ser o instante em que fomos ou acreditamos ser felizes. Quantas vezes não me disse: Sempre serei o que sou agora? Recordo e escrevo para recuperar o momento em que ela sempre seria como foi, aquela noite, comigo. Mas toda singularidade, amatória ou literária, lembrança ou desejo, logo é abolida pela grande maré que nos rodeia sempre como um incêndio seco, como um dilúvio flamejante. Basta-nos sair por um minuto de nossa própria pele para saber que nos rodeia um pulsar todo-poderoso que a nós precede e sobrevive, sem importar-lhe a minha vida ou a dela: nossas existências (…)”  CARLOS FUENTES –  Diana a caçadora Solitária – 

A vontade de viver, ser tocada, transgredir parece mais forte do que o selo comportado da moça bem comportada. Presta atenção! Este carnaval de boas maneiras me exaspera! Então quero ser transviada, ou obscena. Esbravejar. Mas o que se entende da vida quando crescemos em quintal cercado? Há que ad infinito adaptar-se.

 

 

Antiquário Azul

Foto-0057Por que temos esta tendência de guardar tanto troço inútil? A memória é assim tão pequena pra armazenar lembranças?

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Tendência natural.  Guardar para construir nossa história. Armazenar para que um dia, quem sabe, talvez… E as caixas começam a ocupar os armários. É o medo de esquecer de lembrar. E lembranças se espicaçam, não permanecem, e se deformam. Papéis, certidões, foto são como marcos, e parte desta sonhada eternidade. A casa é o nosso museu particular. Quando nos mudamos incêndio … A cada mudança um pedaço da identidade. Mas recomeçamos… E os guardados passam a ocupar o melhor espaço. Se as lojas estivessem todas abertas para o consumo assim mesmo o vaso mais importante seria o que guardei da casa da minha avó. E se não temos nada pra guardar entramos no primeiro antiquário azul…

O último documento fotografado é o Passaporte de Francisco d’Assumpção Martins Cardozo  que passa a assinar Francisco Martins Cardozo de Mattos, pai do Pedro Alexandrino, o pai de Roberto Menna Barreto de Mattos –  meu pai. Dados  detalhados do Passaporte em Comentários. Tenho também a certidão de casamento de Pedro Alexandrino de Mattos com Maria Luiza Menna Barreto.  E  pais de Rita Menna Barreto de Mattos. Mãe de Roberto Menna Barreto de Mattos.

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Para Ana Maria

Juremir Machado da Silva – Correio do Povo – Porto  Alegre, 6 de outubro de 2004. Ser feliz 

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É tudo o que se pode. Mas  nem sempre os outros deixam. São tantas as recomendações: não se queixe, não conte vantagens, não demonstre ressentimento, lute, não se deixe abater pelas derrotas, não seja invejoso, não seja arrogante, ajude os outros, seja humilde, não banque o dono da verdade, não seja fútil, não seja pernóstico, pense nas pessoas… Cada um tem tantas vontades e tantas limitações que a felicidade parece o horizonte perdido, ou o pote de ouro no fim do arco-íris. Quando mais a gente se aproxima dele mais ele se afasta. Muitos se assustam com tantos imperativos categóricos, e não se atrevem mais a pôr a felicidade no colo numa tarde qualquer de primavera. Mas a felicidade anda sempre por aí à espera de um carinho. É certo que não se entrega para sempre, porém encontra mil maneiras de satisfazer uma pessoa que esteja disposta a correr esse risco.

Exatamente, um pouco de felicidade exige uma boa dose de risco. Não se imagine, contudo, que correr riscos tenha algo a ver com aventuras terrivelmente perigosas em campos minados. O maior risco continua sendo o de se abrir para o mundo, fugir das parcas certezas que nos prendem ao sofá como ao rochedo da salvação e mergulhar no extraordinário do cotidiano. Por trás da aparente banalidade do dia-a-dia esconde-se um universo fantástico de pequenas grandes coisas. É difícil esquecer banho de chuva de verão ou de mangueira em tardes de janeiro. A infância, mesmo que os adultos tentem estragá-la, é um reservatório de sonhos. Mais difícil ainda é ver que há, felizmente, muito dos jogos infantis na vida dos adultos de coração aberto às coisas simples.

Do futebol de sábado à tarde às rodas de amigos nos bares ou nos parques, numa atmosfera de não está acontecendo nada, está acontecendo o principal: a vida. A grande lição, sem preço, da vida é sempre a mesma: seja autêntico. Brigue se tiver de brigar, rompa se tiver de romper, não abra mão dos ideais, salvo se eles se tornarem prisões dogmáticas ou armaduras do passado, e perdoe quando chegar a hora, pois ela quase sempre chega. Eu estava pensando nisso, domingo, atravessando a Redenção, quando um mendigo me chamou. Tentei evitá-lo. Ele insistiu. Finalmente, do alto dos meus preconceitos, certo de que me daria uma facada, olhei para ele. Sorriu. ‘Viu como esse raio de solte persegue?’, perguntou. Não, eu não tinha visto. Estava pensando na felicidade.

Foto:  Rua Marquês de Pinedo – Laranjeiras – Rio de Janeiro