Jacques Prévert

 
Os poemas escritos por Jacques  foram transformados em música por Joseph Kosma. Como  Les Feuilles Mortes. Em 1946, publicou  o livro de poemas Paroles que alcançou enorme sucesso. Prévert passa a ser reconhecido, e os seus poemas estudados em várias escolas francesas.
Jacques Prévert faleceu aos 77 anos.
 

A quinta caixa

Depois de abrir a quinta caixa encontro o livro. Abro, releio e volto pra você… Passeia no desejo velado, dolorido e inquieto. Volta, e vem e vai ao encontro de. Como Lispector… Que possa transitar na sua vontade e na minha. A vida faz cócegas. Urgente abraçar! Ouço o calor na chuva quente do verão! E sou outra vez carioca…

Abraço de palavras

Palavras se soltam! Deslocadas, achadas, banais… Algumas dizem, outras fazem, outras sentem! Nem fazem, nem dizem. Juntas escrevem… E o tempo não escorrega, abraça. Palavras! Num recorte a imagem… Ordenada beleza. Gosto das tuas palavras! E da imagem! E deste abraço em palavras! Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2013

Augusto Rodrigues

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 Augusto Rodrigues nasceu em Recife, 21 de dezembro de 1913. Morreu em 1993  no Rio de Janeiro. Foi pintor, desenhista, gravador, ilustrador, caricaturista e fotógrafo. O  meu encontro com o artista plástico aconteceu em 1965 no Jornal Feminino na TV Gaúcha – Canal 12 – durante uma entrevista. ficamos amigos.

Célia Ribeiro era a jornalista responsável.

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Explicação de saudade…

Boca do Acre, 15 de maio de 1967.

Beth, minha querida

Há muito que tenho em mãos a tua carta. E esta é a tática que uso quando gosto das cartas: custo a responder. Pois, assim, ela é lida muitas vezes. Após ser respondida toda carta é posta de lado, pertence ao passado. Isso não quer dizer que não tenhamos nos impregnado de um pouco dela. Apenas amadurecemos aquele conhecimento o suficiente para dispensar sua presença física; passa, pois, a ser uma presença permanente, ainda que, às vezes, não nos demos conta.

A vida aqui, minha cara Beth, é apenas a continuação da minha vida, enquanto vista como história individualizada. Coisas interessantes as há, e muitas. Seria para mim difícil contá-las. Por um lado porque o tenho feito lá para casa e por outro porque não poderia dar o colorido necessário no papel. Aliás, as experiências foram feitas, se assim pode-se dizer, para ser vividas, e não para ser contadas. Talvez tu vás classificar o que direi como  amava ao passado (Quero saber tudo de ti menos das tuas saudades da gente daqui.”). Pois, quero saber  como vão meus amigos, parentes e mesmo simples outrora conhecidos. Pois,  quero saber uma palavra dita por uma determinada pessoa. Enfim, quero contar que sinto saudade. Mas tu talvez não saibas como são as saudades de quem parte. São um bocado diferentes das que ficam. Há que fazer todo um caminho até purificá-la. Explico. No início o que sentimos é o que o inglês define muito bem como home sick. Uma doença causada pela falta de afeto e pela saudade de si mesmo, de sua vida pregressa e pelas incertezas do futuro. Aos poucos os sentimentos vão se depurando e no fim sobra só o que verdadeiramente podemos chamar de saudade. Uma doce saudade. É uma lembrança alegre e, sobretudo gratificante; nos anima a enfrentar as novas situações. Não estamos sozinhos. Penso que para se poder sentir esse tipo de saudade precisa-se ter um estado de liberdade interior. É  precisamente por ter essa liberdade (mesmo quando falta tanto no mundo objetivo) é que tu me pediste para não falar disso e achei, então que podia, e tinha, alguma coisa para te dizer sobre isso, precisamente.

 […]

Para ti,  Betinha, um grande e afetuoso abraço do Eduardo

(Eduardo Azeredo Costa)

 

Desaparecem e voltam. Como a memória de tantas histórias: enterradas ou não, elas respiram. Cada detalhe, um borrão na memória do amor. E sempre, muito amor. Elizabeth M.B. Mattos

Olhar nos olhos

Aquilo que dizem nem sempre é o que sentem, pelo olhar sabemos. O olhar é mais do que a palavra. Silencioso, eloquente. O que sentimos está no olhar. Difícil explicar. Pode-se ler o olhar, o corpo, a roupa, o movimento, o texto. O exercício é olhar sem censura. As palavras saem depois como jatos que flutuam.  Ler as pessoas ocupa todo o espaço-tempo neste nosso tempo. Pensa o teu olhar, exercita o olhar. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2013 – Torres

CONVERSASCOMXICOSTOCKINGERVERDADESVERDADEIRAS

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EMAILS COM BETH MATTOS E XICO STOKINGER 1983. BASTIDORES.

 

Beth: Conforme letra antiga do Chico Buarque, “tem dias que a gente se sente / como quem partiu ou morreu”. Mas o bom é que tudo passa: tristezas e alegrias. E, no instante seguinte, recomeçamos. Outra vez o mesmo trajeto. Como Sísifo. Outra vez! Outra vez! Verbo intransitivo… Ação. O trabalho precisa ser feito, refeito, feito outra vez. O verão terminou ontem, e cá estamos no agradável outono. Retomando meu amigo.

Xico:
Explico: a coisa toda, minha irritação não tem absolutamente nada com dinheiro
e também não sou nem nunca fui mão fechada. A minha irritação foi por
outras razões! Acho cafona comemorar uma coisa que ainda não terminou, não houve. Talvez não funcione! O editor é outra coisa, mas isso tem que se ver e saber, e eu, não vi nada nem sei nada sobre esse assunto, razão porque penso que se deve esperar  e ver tudo e não sair cheio de salgadinhos por ai…
É preciso andar mais devagar com o andor, e não fazer papel ridículo, o que fica muito mal pra um cara de 83 anos. Abraços do teu Xico. Responde sobre o assunto,  tá?

Beth:  Na verdade misturei os assuntos livro, jantar e Garagem de Arte. A questão é o galerista, e as vendas. Por isso sublinhei o que escreveste: “Tens razão nas tuas ponderações. Na verdade o vil metal atrapalha tudo.” Afirmo que o mecenas precisa existir. O artista carrega a pedra, e transforma. Beleza e verdade surgem. A obra! Não homem comum, mas o eleito. Quando te coloquei a questão eu me referia ao vender a obra no atelier, ou na galeria. A preocupação com a comercialização. Medir custo e trabalho. Quem vende liberta o artista… Outra questão o tal jantar de divulgação. Acho que também tens razão quando dizes que os sonhos não são apenas os teus. Brindar com editor e jornalistas, familiares, o artista é festa! Há juventude e confraternização. Tumulto e agitação, mas benéfico. Contornaremos a situação.

Xico: Não sou europeu coisa nenhuma, aprendi a falar aqui no Brasil, ESTUDEI AQUI minhas diversas profissões foram todas adquiridas no Brasil, quando falo Brasil deveria dizer Rio de Janeiro, pois foi lá que me desenvolvi como gente foi lá que praticamente aprendi tudo. Não falo alemão ou inglês regular mais por falta de ocasião, de pratica, já foi bom. Embora nascido na Europa, sou puro sangue Brasileiro, somente vim a conhecer outros países depois de morar no Rio Grande do Sul… Tenho que parar. 

Sou uma pessoa simples. Como pai não sou dos melhores, tudo por colocar a arte acima do resto. Sabia que, se quisesse ser alguma coisa em arte, tinha que me dedicar a ela em tempo integral. E o fiz quando meus filhos eram pequenos, e mais necessitavam o meu apoio e eu estava mais noutra. Felizmente, com o tempo, fui melhorando, e, com  a vida mais folgada, meus filhos tiveram o que necessitavam. Sou mais pra feio, mas me dizem simpático, o que tem me salvado de ficar batendo numa tecla só.Marido sofrível; mas, sendo surdo, feio e metido a besta, era difícil ser melhor.  Como artista fiz tudo para ser bom, mas a coisa é complicada; tem ismo  de tudo quanto é jeito e tem gosto para tudo que é ismo. E para que o teu ismo seja válido, é preciso que supere os ismos…

Fragmentos não publicados do  livro Xico Stockinger Memórias  da editora Artes e Ofícios. Organização de Elizabeth Menna Barreto Mattos

 

Receita para a DOR DE AMOR

002 - Cópia

POA-8/12/1998

OPINIÃO sobre teu texto de 139 páginas –

Comportamento romântico de adolescente escabelada. A carência afetiva regada a fel, envenena. Até quando derreterás no sol, olhando para a estátua do teu totem quixotesco (F.T.)? Hipnotizada, não é fácil. Procure te libertar do Édipo. Ressuscites, minha amiga, ou serás engolida pelo Minotauro. Muitas vezes empregas o NÓS como todos encerrados na jaula de teus problemas. Generalizando situações…, um tanto pessimista no contexto geral. Recoles os cacos, não procures outro para chorar no ombro a história do amor desfeito e umbilicalmente paterno.

Voltando ao teu texto, acho que escreves bem; discordo do Paulo Hecker aconselhando-te a largar as chuteiras. Ele não é o dono da literatura e parece-me um tanto presunçoso. Todavia concordo com a falta de unidade nos teus escritos. Parecem fragmentados com seixos multicor. Ausência poética, falta mais descrição dos ambientes, observações psíquicas ou físicas dos personagens, da natureza, etc.,etc..Diário-crônica-conto-romance- transcrição de cartas! O que pretendes? Não podes desconfiar das pessoas negativamente, considerando medíocres, se desconheces seu drama. Porque não pertencem a tua angústia tribal ou existencial. Ou culpar o mundo porque te refugiaste de sua realidade em frente à ilha dos lobos. Não estou pretendendo te desestimular, escreves bem… Mas falta conteúdo narrativo no todo. Um todo repetitivo apenas com riqueza de vocabulário.

Receito dares descarga no príncipe encantado, pô!

Por que não tentas ouvir historias de teus alunos ou relatar o drama assalariado das professoras intelectualizadas e fales menos de coxas abertas, sexo e cheiro de pele, chinelos de veludo, louças de porcelana, etc.

Quem sabe até se o perfume do zorrilho não contem algo mais original para motivar um texto surpreendente?

Estou enfaticamente realista, não radical, nessas considerações. Crente de que a direção do mistral deve ser urgentemente direcionada a favor DA tua literatura. Não estou sentenciando, apenas alertando.

Também passei pelo ciclo em que, inseguro, pensava ser dependente da mulher (no amor) para produzir melhor na arte. Depois, descobri que esse estímulo direcionado tinha criado um fantasma no castelo pessoal. Passei a entender que a OBRA ARTÍSTICA é mais importante. O envolvimento com ela exige combustíveis diversos. E, sendo necessário, se faltarem, toca-se o carrinho de mão com a energia física.

O amor paranoico, obsessivo oxida.

É necessário arquivar fobias. Sair da traiçoeira gaveta carcerária. É saudável driblar a desilusão e a “eternidade’ do amor. Acreditar no outro lado do rio. Consultar os anjos. Aplaudir o que a vida nos brinda, mesmo que sejam gramas de sanduíche. Nem existe receituário para o fazer artístico. O menu é frugal para o gosto de cada indivíduo. Porém, é preciso reconhecer que certos caminhos são aproximados a todos. E com endereço certo para chegarmos lá. A disciplina do fazer e refazer, a teimosia, é o segredo digital do cofre. Inútil ficar chorando na lápide funerária da frustração ou escutar o réquiem do amado ou da amada. O grande desafio tem que ser enfrentado, se realmente tencionamos alcançar a obra maior. Não existem evidentes, A auto-crítica é decisiva na superação do narcisismo artístico. Nada ajuda ficarmos cheirando o fofo e cheiroso travesseiro doméstico. A arte exige seguramente doação egoísta e sacrifício. Não podemos misturá-la com os ingredientes do quindim rotineiro…Prevalece, logicamente o resultado de nossa conduta favorável ou não. Não basta só o talento. A ação é tão decisiva quanto ele. O artista tem que estar só, quando necessário, conivente com seu mundinho ou mundão. Esquivo da dependência colante do casal. Mas, nunca se isolando da comunidade.

Repito: acho que deverias escrever sobre o teu drama como professora assalariada, enclausurada na burra Torres. Escreves bem, mulher, saias do casulo! E a lembrança dos maridos não contas? Abras o baú do passado, pode nele existir algo para motivar textos inúmeros.

Fragmento de uma carta de Danúbio Gonçalves, amigo de toda vida,  para  E.M.B.Mattos quando morava em Torres, frente pro mar.

Danúbio Vilamil Gonçalves

Bagé, 1925. Pintor, desenhista, gravador e escritor.