…que adianta tentar?

Procuro nas caixas de sapato, na papelada guardada… Nas estantes de tijolos. Encontro. Abro cartas, laudas e bilhetes… Como sigo descabelada, ansiosa, igual nestes anos todos! Quando o amor devora jeito, trejeito de saudade e sorri brejeiro… Ele volta.  Nas tuas cartas, nas minhas, a trilha, a picada, o rio, a praça, o hotel, caminhadas… Areia, mar, janelas abertas. Mosquitos. Tecido bordado, repassado. Tu e eu, os mesmos. F e l i c idade? Vivos, iguais!  Risadas nas minhas gargalhadas. Ponho-me a te escrever na absurda saudade daquele amor amado, compartilhado, imaginado na GAAL, na Albertina, no Gafa, no Y e no H. Como todas as normas de um documento eficaz.  Em qualquer letra misteriosa usada pelo ciclista, na curva da praça. Retrato riscado, e azul. Ausência de lantejoulas e vermelho. Ausência. O ciclista se aproxima, e nos sorri, ele também. No percurso de um ir e vir  esquecimento de pacotes azedos, e fitas pretas e verdes. Uma jovem moça loira se atravessa, tropeça, e cai nos teus braços cruzados. Esquisito.  Telefone, cartas, telegramas. E a minha sempre doente ansiedade! Ciúmes, carência, e transbordamento. Que saudade meu amado de amor passado, presente! Porque existia a vida toda escondido, a cutucar, cochichar nos meus ouvidos, chegou velho… Que droga! Mas ficou. Velho. Escondo outra vez o tremor deste amor… Máscara. Letras. Despistes, ou exposição. Beijo. GAAL

Esta coisa de se amar de amor, – nudez de alma  – importa! Tu me descreves do jeito que sou ‘voltada pra mim mesma’, excessiva em tudo. Barulhenta no convívio… Reflexiva ao escrever, repetitiva: cruela talvez! Carinho, presença, transbordamento criativo. Tua generosidade! Eu me vejo egoísta, egocêntrica, exigente. Tu desdobrado, presente. E nestes momentos de ‘reencontro’ amoroso que eu me permito dou-me conta do tamanho todo daquele sentimento enorme que foi te amar, enfiada agora no teu amor por mim. Dizes numa das cartas:

Às vezes tenho medo de nós. ‘O que salva nosso amor é nossa juventude’, escreveste numa das tuas lúcidas cartas. Mas tenho medo dessa juventude tardia, que me domina na velhice. Talvez só se possa ser verdadeiramente jovem na idade adulta, quando se perdeu a juventude.”

Sigo lendo tuas cartas descritivas, as minhas acometidas fúrias desenhadas. Tremo a cada encontro. Grito. Entre triste e furiosa, nervosa eu te beijo… A última vez que nos encontramos, e fomos assistir ao horrível filme sueco O submarino… E nos deixamos ficar na aba do velho prédio do Correio do Povo (acerto?). Eu me esforçava em te contradizer, negar, alterada. Sem nenhuma concentração, só vontade de abraçar. No amor não existe palavra, tens razão. Como não te beijei na chuva… Como picavas meu coração sem saber eu me precipitei numa volta de rompantes… Estrangulava-me o ciúme, a dúvida, e me sentia pequena, inútil, e sei lá quantas mortais doenças… Com esta natureza fervente me recolho! Importa ainda que saibas quanta força me entregas, quanto do explicitado amor. Inflama vida. Chego à França e só em ti penso. Chego aos amados atravessando teu corpo… Traindo a ti, a mim. Só contigo me ocupo. Não me esvazio do cheiro, do beijo. Tu me dás coragem, mesmo na fragilidade… Eu te abraço voraz!  Atropelo. Mas é bom saber que teclei na velocidade de toujours… Talvez nem leias, não respondas, não estejas, não vejas, não queiras, repudies… Que importa!

4 comentários sobre “…que adianta tentar?

  1. Expressão de amor ❤️ ardentemente sentido ,realizado ! Tu descreves os momentos com uma simplicidade encrível ! descrevendo um sentimento lindo até hoje vivo …!beijo Beth

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