Esdrúxula sequência

 

A vida se desorganiza. As horas se sacodem pequenas… Pequenas lembranças, anotações do passado-presente no papel rabiscado… Uso amoras azuis, bebo o suco, como  frutinhas do pote chinês. Alguém do outro lado. Palavra! ‘Gostei, não entendi, não sei o porquê, talvez esteja certa…’ Interlocução. Virtual impreciso. E se a angustia aperta, e se fico impotente fecho os olhos. Hoje amanheceu frio, cinzento, úmido. Escuro! Velhas cartas cinzentas! Lembrança extravagante. Cinzas engraçadas? Ou apenas o passado? Ou apenas uma carta? Fragmento de carta da minha mãe. Elizabeth M.B. Mattos  / Torres acontecendo… Quando a Garagem de Arte era trabalho e o tempo acontecia em Porto Alegre no Moinhos de Vento. Uma exposição. Luiza, eu, Magda e a vida. E Iberê Camargo.

 

 

 

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Querida Elizabeth:

Recebi a tua carta. Vejo-te a beira do mar. Enche, pois, as tuas mãos de mar, enche os teus olhos de luz. Na minha lembrança, tu és uma presença. Eu perdi o jeito de correr pelas praias e de me misturar com os peixes. Faz isso por mim.  De Torres guardo este fragmento, por certo o mais agreste, o mais autêntico. (aqui tem um desenho) Ao pé do penhasco, o mar enrola-se como uma grande cobra verde. Ao longe ele é sereno. A distância dá placidez as coisas. Tenho produzido pouco ou nada. Espero melhores dias. Mando-te a minha saudade que é muita.

Afetuosamente, o Iberê

Rio, 28 – 1 – 75.

2013-02-09 19.12.13

Esdrúxula sequência

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