Supermercado ou armazém

Vou ao mercado. Não sei de armazém, nem caderno pra pagar no fim do mês. Armazém de importados: sem lista. Vinho, amêndoa, noz, tâmara, lombinho temperado, damasco. Uvas, presunto. Café da manhã cheio de reais e de calorias: pães e croissant de chocolate. Mas  não. Vou mesmo ao supermercado com lista: café Melita (tradicional), detergente, paciência, sabão em pó, óleo de peroba, generosidade, manteiga, ervilhas, cera vermelha pro assoalho, farinha de trigo, feijão, chá de boldo, e Sonhos de Valsa… Alegria. Batatas e bergamotas, laranjas de umbigo, carinho, e compreensão.

Associação possíveis

Vestidos de lã me lembram de ti… As xícaras de chá da irmã. O sorriso é o pai. A máquina de costura tia Joana. Certos objetos nos remetem a esta ou aquela pessoa… O batom, a mãe. Os lenços de seda ao Marco. O ritual do café me faz lembrar a Lorena, pepinos a Márcia, bananas fritas a Magda. Juliette me devolve o trabalho! O fusca Porto Alegre. Avião Rio de Janeiro.  Fogos em Copacabana, o nascimento do João. Ovelha, o Jorge. Os livros a Vitor Hugo. Uma carta, os amigos… Confidências, o vinho.  Quando caminho, quero o mar… O frio a lareira. Ao voltar para casa sou feliz!

Esdrúxula sequência

Esdrúxula sequência

A vida se desorganiza. As horas se sacodem pequenas… Pequenas lembranças, anotações do passado-presente no papel rabiscado… Uso amoras azuis, bebo o suco, como  frutinhas do pote chinês. Alguém do outro lado. Palavra! ‘Gostei, não entendi, não sei o porquê, talvez esteja certa… ’Interlocução. Virtual, impreciso. E se a angustia aperta, e se fico impotente fecho os olhos. Hoje amanheceu frio, cinzento, úmido. Escuro! Velhas cartas cinzentas!
Lembrança extravagante. Cinzas engraçadas? Ou só passado? Ou apenas uma carta?

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Querida Elizabeth:

Recebi a tua carta. Vejo-te a beira do mar. Enche, pois, as tuas mãos de mar, enche os teus olhos de luz. Na minha lembrança, tu és uma presença. Eu perdi o jeito de correr pelas praias e de me misturar com os peixes. Faz isso por mim.  De Torres guardo este fragmento, por certo o mais agreste, o mais autêntico. (aqui tem um desenho) Ao pé do penhasco, o mar enrola-se como uma grande cobra verde. Ao longe ele é sereno. A distância dá placidez as coisas. Tenho produzido pouco ou nada. Espero melhores dias. Mando-te a minha saudade que é muita.

Afetuosamente, o Iberê

Rio, 28 – 1 – 75.

2013-02-09 19.12.13

Clementina

Clementina

Vida sem passado nem futuro. Um agora ininterrupto. Branco. Apagar tudo, esvaziar para recomeçar. Deixar-se cair na infância que temos guardada. Temos? Correr no quintal. Abrir os olhos já era inquietante… Seria fácil arrancar as páginas do caderno, picar todas, jogar no fogo. Limpar o espaço, as prateleiras. Doar os livros. Deixar-se ficar no começo, naquele começo do nada necessário! Talvez um desenho, uma volta solta com o lápis para descobrir a curva certa, o resumo, a sinopse! Clementina é um bom nome.

Torres existe

O mar azul  deslumbra… E a Ilha dos Lobos responde com seu risco sinuoso. Não sei se  o céu azula o mar, ou o mar  está no  céu. Manso, aquoso, dadivoso confraternizando com o sol. Neste momento somos, estamos abençoados! Torres existe!  “O sonho de verão” está aquecido neste outono aberto!  Nos ‘tomaram’ a privacidade, a exclusividade porque estamos na Democracia! Graças!Estão todos em Brasília!  As pedras ficaram, e o mar não é de ninguém. Lamentamos as dunas no cimento das construções!  Não somos veranistas, somos da terra. Somos? A beleza abre os braços com gentileza! As pessoas só invadem no verão… Como está frio, o frio fica gelado nas calçadas sombreadas, mas um outono espetacular ao sol, no que está iluminado… Na Praça da Lagoa do Violão o jovem casal estende a manta no gramado e reza. Se voltar os olhos pra serra pode ver o desenho alinhavado pelo verde! E Torres é dádiva sem  formigamento… Silêncio de beleza! Um respeito antigo se instala!

Nada Somos

Carta – testemunho do Acidente do Morro do Chapéu em 1950. A importância de voltar no tempo explica o  Nada Somos…Estamos na memória. A decisão de caminhar importa tanto quanto a de ficar, ver as sombras de dentro da caverna. Acendemos  luzes…

Porto Alegre, 2 de agosto de 1950 (quarta-feira)

Querida Anita:

Logo após a horrível tragédia que enlutou o nosso Rio Grande do Sul e levou nossos amigos Ligia, Alice e Coracy, pretendia te escrever. Mas, os dias chegaram, se foram, e fui deixando que soubesses das notícias pelos jornais. Agora, refeito deste sonho e depois de ter em minhas mãos tuas cartas do dia 22, 25, 27 e 28, posso contar-te o que foi a maior perda que sofremos. Eu estava com a Maria Guilhermina, aí pelas 8 horas da noite em casa da Ligia, esperando que o Agilberto trouxesse Ligia, Alice e Coracy, que viajavam do Rio pelo “Constellations”. Um pouco antes das 9 da noite chegou Agilberto, pálido e com os olhos no fundo, dizendo que o “Constellations” fizera uma aterragem forçada lá pra S. Leopoldo e que as ambulâncias tinham ido para lá. Pus minha capa e um chapéu da Joana e saímos os três, no carro do Agilberto rumo a S. Leopoldo. Quando estávamos em Sapucaia já sabíamos que ele batera num morro, adiante de S. Leopoldo. Agilberto chorava. Fora do carro a chuva se derramava cada vez mais. Entramos por uma estrada completamente enlameada e lá pelas tantas quando o carro não podia avançar mais, em sentido contrário vinha uma caminhonete. Desci na frente e perguntei onde estava o aparelho. Cinco rapazes informaram que tinham já estado no local, um morro de difícil acesso, que todos estavam mortos e que nós não chegaríamos lá, tais as dificuldades a vencer. Resolvemos dar volta, mesmo porque o Agilberto não queria saber de mais nada. Quando voltamos, ainda patinando o carro sobre terrível barro, encontramos um carro da “Aeronáutica” que nos perguntava notícias sobre o local. Mal parei e vi dentro o Major Abel Azambuja, nosso colega do Colégio Militar e perguntei-lhe aonde ia, tendo me contado que ia até o local, de qualquer jeito, pois ia fazer o inquérito. Deixei Agilberto e meti-me no carro com ele. Mais uns 2 kilometros e o carro parou. Descemos e caímos na lama a patinar no meio da noite e da chuva. Caminhamos uns 8 km a pé e depois já vendo o clarão do incêndio no morro, começamos a escalar o monte, procurando uma vereda dentro do mato que nos levasse até lá. A 1 ½ da madrugada chegamos no topo, no meio de uma cerração medonha e chuva que tirava a visibilidade num raio de 15 metros. O quadro era horrível: 4 pessoas tinham sido jogadas para cima e estavam perto de nós. Mais abaixo a fogueira do avião, com 10 000 litros de gasolina a arder. Pelas 2 ½ resolveram suspender a busca em face da cerração, da chuva, para recomeçarem ao clarear do dia. Descemos, e até hoje não sei como subi e desci. Pela primeira vez bebi cachaça e por isso nem me resfriei, nem nada. Até as 5 horas da manhã chegamos ao Q.G. da base aérea, em Porto Alegre, e logo fui até o Januário. O coitado não sabia de nada e começou a chorar. O resto pode imaginar. Encontraram Alice e Ligia com os rostos perfeitamente reconhecíveis. Coracy foi identificado pelos dentes e uns 14 dos 50 não puderam ser identificados: haviam ficado presos no avião em chamas. Como vês nada somos. Falei com o Dionélio, e lhe disse que estavas na Europa com meu consentimento. Que até então jamais indagara de ninguém se fizera bem ou mal (…) e, bendizia tua viagem, (…)

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Coracy Prates da Veiga – 39 anos, Alice Veiga, 32 anos, Ligia Dornelles Franciosi, 31 anos. Todos jovens!

Maria Guilhermina irmã de Ligia. Joana, irmã de Anita. Dionélio Machado amigo da família.

“ (…) a queda do Constellation da Panair do Brasil, prefixo PP-PCG, durante os procedimentos de aproximação no Aeródromo de Gravataí, em Porto Alegre, na tarde de sexta-feira dia 28 de julho de 1950, teve um ingrediente dramático adicional. O avião era pilotado pelo lendário comandante Edu, um dos pilotos mais experientes do Brasil na época…[1]


[1]Acidente no Morro do Chapéu – A Queda do Constellation em Sapucaia do Sul – livro escrito por Abrão Aspis –

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Justiça

Quem não vê bem uma palavra não pode ver uma pessoa. Quem não sente a cor, não compreende as árvores. Quem não distingue o movimento do mar…não sente a emoção do outro. Eu não escuto quando não quero escutar.  Não vejo quando não quero olhar,e não desejo, nem penso, nem sinto que um dia atravessa o outro…É preciso querer isto ou aquilo como poetava Cecília Meireles. O querer transita no conhecimento, não pela negação. Chutou o cão filhote…e ensinou o filho a chutar o cão filhote: precisa levar muitos chutes, e tapas aquela mulher, não justiça, porque esta é humana …

Percurso

Retomo a verdade que se esconde em pequena mentira: palavras. História, narrativas que se contam, e se escondem! Ao abrir o livro, observar a tela, a flor… Uma aquarela! Óleo, desenho,pedra, gravura, escultura, colagem…O cheiro da tinta! Não. O percurso inteiro da exposição! Questiono. Sento no  primeiro banco inquieta, exausta! O ateliê.  E percorri  apenas um salão! Arte, escrita, pincelada, manuseio, a roupa importa. Estou exausta! Um quadro que salta ou se esconde… Incerteza.  Será que devo gostar, ou não? O olhar é uma volta ao que já conheço. O que é mesmo que se encaixa na história, na biografia, nas letras, nas cores. Estremeço com vergonha. Como vou explicar? Ruborizada, fecho por um minuto os olhos. Não é  Gustav Klimt, nem Jean Lehmans, ou Iberê. Sou eu a pensar!

“De um rancor nasce uma ideia. E essa ideia torna-se, à medida que avanço dentro de mim uma obra, mais serena e mais indestrutível. Eu o sei, eu o testemunho: a ordem social não se mantém senão ao preço de uma infernal maldição que aflige os seres, dentre os quais os mais vis, os mais nulos, estão mais próximos de mim – quer isso agrade a vocês ou não – que qualquer burguês virtuoso e assegurado.” Jean Genet

 

Esqueceram…

Alemães, Santa Cruz do Sul no Rio Grande do Sul. O fumo, multinacionais, francês, inglês.  Doris Lessing. Amigos. Escolas. A estação, a ideia – galeria. Irene. Exposições. Casa de Cultura! Flores.  Lenha. Memória. Descobri. Divulguei os desenhos de Regina… tantos! A casa de pedra. O silêncio. A terra dos barrancos. Um vazio diferente.  Luzeiros. O barro. Iberê Camargo, a história sem texto. Esqueceram… Mas Iberê não me esqueceu.

Sem título, 1943, óleo sobre tela, 50,1X46,1 cm

Imagem

Porto Alegre, 7 – 6 – 84

Cara Beth:

Era uma noite muito escura. Ao longe avistei um luzeiro: Santa Cruz do Sul. Pensei comigo: Beth mora numa estrela. Então passei silencioso, abafando os passos, para não acordar a princesa. A estrada, um lamaçal escorregadiço como sabão. À beira, no café, um magote de alemães beberrões e barulhentos. Gente boa, pacífica. Na carta pus junto o catálogo da exposição de Santa Maria. Um abraço afetuoso, o Iberê