“Porto Alegre, 19 – 09 – 92.
Querida Beth,
O vento não sopra o pássaro não canta, o céu está mudo, e Beth não fala.
Não sei o motivo desse silêncio inquietante, como ele sempre é, seja de pessoa ou coisa. O sol nasce o sol morre, e eu e meus ciclistas continuamos numa caminhada sem fim. Para onde? A meta, o horizonte é uma linha de mentira.
Meu último quadro tem este título que vem de uma poesia de Fernando Pessoa: – “Tudo te é falso e inútil.” O passado, um montão de sucata envolto nas brumas da memória.
Fala Beth. Estou muito triste e deprimido.
Há mais de quinze dias que estamos sem motorista. Diz ele que está com catapora ou coisa parecida. Como estou com o braço direito meio travado, devido uma artrose ou outra porcaria qualquer trabalho com dificuldade, e não dirijo carro. Como vês estou preso. Não sei quando poderei por este bilhete no correio. […] vida difícil!
Abraços e muito carinho o Iberê.”
Iberê Camargo. Pintor gaúcho.
Acervo na Fundação Iberê Camargo. Porto Alegre. RS

