Xico Stockinger e Garagem de Arte

saint michel melhorrrr nítidaRelendo Jens Peter Jacobsen, em Niels Lyhne. Pensei nas conversas com Xico Stockinger. Ele não escutava, mas lia os lábios e se comunicava com as pessoas. Olhos atentos, e o  mundo lhe interessava, sem limites. Os ouvidos de Xico Stockinger e o pensamento do professor de música:” O mais agradável eram os seus olhos, de cor gris, suaves e claros. Pelo movimento das pupilas podia-se notar que ela era um tanto surdo. O que não o impedia de ser um grande amante da música e um violinista apaixonado; os sons, dizia ele, não são apreendidos apenas pelo ouvido, todo o corpo ouve: os olhos, os dedos, os pés, e quando por acaso o ouvido falha, a mão sempre sabe, por uma estranha aptidão instintiva, encontra a nota correta. De resto, acrescentava, todos os sons audíveis são em última análise falsos. Quem, no entanto, possui o dom da música, tem no seu íntimo um instrumento invisível, ao pé do qual o mais rico stradivarius é uma espécie de tantã. Selvagem. É um instrumento da alma, em suas cordas vibram sons ideais, sobre essa base é que os grandes compositores criaram suas obras imortais. A música exterior, aquela que o sopro da realidade agita e que os ouvidos ouvem, é apenas uma lamentável imitação, uma tentativa balbuciante de exprimir o inexprimível; podia-se compará-la à música da alma, assim como uma estátua, modelada com as mãos, talhada a cinzel, medida, pode ser comparada ao maravilhoso sonho do escultor, que os olhos não vêem nunca e os lábios nunca podem louvar. “ (p.51, Cosac& Naify Edições, 2000. coleção Prosa do Mundo)

Ao escrever, sublinho lacunas. Lacunas que se transformam em metáforas.

O tempo de trabalhar na galeria  Garagem de Arte foi também tempo de metabolizar. Perdi amores, reconsiderei o passado. Embora tenha escrito/realizado com sucesso o o pequeno livro de memórias de  Stockinger, faltou empenho em seguir escrevendo e publicando. Tanta coisa que importava não foi dito. Necessárias, íntimas. Na inquietude do desconhecido, e da urgência de fazer, o vazio da incomunicabilidade / barreiras.  Esta memória mais íntima já seria outra escrita. Outro texto. Outra história.Outro livro. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2013

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