Desafiando

Depois da dor, daquela dor dura e persistente, o corpo parou de suar. A cabeça afundou no travesseiro. A mulher enrolada nas cobertas, braços apertados ao corpo, ou presos, ou amolecidos… O volume humano na cama.  A cadeira de riscas geométricas ficou menor, a mesa abarrotada de livros, papéis, e caixas completou o desalinho. Desordem. No chão vestido, meias, sapatos virados. O quarto foi mudando de cor:  azul, violeta, depois vermelho. Finalmente o perfeito da noite. Ruídos da rua sobem pelos degraus com a velocidade natural do som; entram lentos, comovidos. Janelas se fecham mansas. Ela não acordou no dia seguinte, apenas no meio da tarde do outro dia. A dor desafiando, pretensiosa, com pompa.  Eugênia se conformou. Olhou para os comprimidos, o copo vazio, levantou medindo os passos. Abriu janelas pro vento fresco. O rosa, o branco, o amarelo das folhas se dobraram… Tempo enganoso. É preciso medi-lo com relógios, badaladas, números. O sentimento se acomoda no medo. Ela não sabe por que está ali tão cansada! Não há motivo. Apenas sentiu a dor, tomou o remédio, e se entregou. Elizabeth M.B. Mattos – 2013 PORTO ALEGRE

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