Prisão doméstica

A prisão doméstica, interna, no interior do corpo embaça olhar, curva ombros. Incham as pernas. A roupa não veste. Oculta. O corpo se enche de pregas, amolece. E o gosto da comida fica tomado pela gordura morna das frituras de todos os pastéis. Adoráveis! De carne, peixe, queijo, siri, goiabada. Será que tem pastel de salmão? Berinjela. A água com gosto de cano, metal, terra. Cerveja todos os dias. Vinho. Água mineral. Latinhas geladas. Ser prisioneira…Estar trancado, chaveado na mesmice. A carroça segue, e os dias amanhecem tão rápido como anoitecem sem estrelas. Reinventar o passo, segurar a luz entre as mãos, retomar a memória, memorizar. Ser livre. Brincar.  Despertar na insônia. Beber café e voltar para casa. Abraçar e salvar todos os bebês. Infância. Contar sem pensar no erro. Segredos. A vida numa narrativa frouxa, solta, leve e perigosa. Pecados, enganos, loucuras! É assumir a falta, olhar o desespero, a doença, inverter o tempo. Entrar no quarto que ventila por cima, e rir demais, muito. Bascular a basculante. E deitada no assoalho escutar música. A música esconde as melhores lembranças! Revistas chegam coloridas, abertas em visual lúdico. Ah! Se não fosse lúdico ler manchetes de jornal, e capazes jornalistas rasparem o sumo de flores para o perfume! Escrever na linha certa das palavras deixando a massa da pizza crescer… respeitar a noite. Ficar livre é acordar duas horas da manhã e ter o corpo alerta.  Abrir outras janelas. Escutar. Abraçar a árvore que se debruça exibida na minha janela, velho jacarandá, e o jambeiro. Prisão é não poder correr, não sentir dor, entorpecer. E chamada prisão doméstica é querer mais, mais vinho, mais camarões, mais massas feitas em casa, mais laranjas, mangas, carambola, pés descalço. Acordar em Recife, Taubaté, conhecer o general na outra festa e beijar. Ter casa em Miguel Pereira, Gravataí, Torres. Deixar o café esfriar na esquina, e correr pro banho de mar. Chão de taboa, bebê abrindo o olho. Paradoxo de prisão e liberdade? Não. Livre em quarto de poucos metros quadrados, livre numa sala de oito metros quadrado com varanda, com vasos floridos. Alumínio nas janelas. Livre em qualquer lugar. Pintar quadro com tintas, sem desenho, mexendo nos pincéis, pintar com os dedos, riscar. Ser músico! Colher flores. Massa da pizza crescendo. Beber o trabalho de abrir, rechear, e fazer peras flambadas. Dormir. Depois vem sempre dormir porque o outro sonho já é melhor. Venha o futebol! Vou dar o primeiro chute! Fantástico! Vou colar as figurinhas… Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro 2014 – Porto Alegre

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