PATY DO ALFERES

“Um relato simples e sincero de sua vida, e não apenas o que ele ouviu da vida de outros homens; o mesmo tipo de relato que ele enviaria de uma terra distante a seus parentes; pois, se viveu com sinceridade, deve ter sido numa terra distante de mim. “(p.17) WALDEN de H.D. Thoreau

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Calor, também silêncio. As árvores acompanham um leve deslocamento de ar.  O verde cobre a montanha! Mata Atlântica invadida. A beleza se explica pela simplicidade. Sem pretensão o céu azul conversa com a copa das árvores.

Calor, tanto, muito calor. Este excessivo calor adormece o dia. Espaços abertos na mata: desenho do homem que se apossa da terra. Palmeiras, coqueiros exóticos. O jambeiro se apruma solitário seguindo uma poda de pinheiro. A terra se curva ao domínio, ao desejo, a cobiça. Como é o relato manso, sincero de uma vida? O que exatamente temos para contar que seja particular?

Porta-janelas escancaradas pro verde entrar. Elizabeth M.B. Mattos  Paty do Alferes RJ

 

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SONHEI sonhei com vocês

Sonhei com vocês. Sonhei com o frio. Com a casa, sonhei com vocês. Um mundo gelado, branco. Com portas e portas, casas brancas por dentro e por fora. Nós entre conversas. Aflição. Encontro. Sair e entrar de peças enormes, brancas. Pátios gelados, escorregadios. Teria, finalmente, ido ao encontro de vocês?  Seria verdade? Tu e a Tereza, os meninos, as meninas tuas e minhas. Sonhei muito. Sonhei. Acordei no calor, mas voltei a sonhar que estava na tua terra gelada Jan. Elizabeth M.B. Mattos -fevereiro – 2014 – Torres

“Sonho? Se você alguma vez tem dificuldade para dormir, é porque você está dentro/no sonho de alguém. Meus poemas nascem muito devagar. Se você quer praticar um pouco do sueco traduzo ao espanhol…”

PÅ STRANDEN

Det finns en strand i Altea.

Den har, tror jag, minst en jiljon små stenar

som legat där i eoner.

De trycker sig tätt intill varandra

och mottar i undergivet kollektiv

vågornas salt och skummande liv.

Jag tror de talar med varandra,

men vad de har att säga,

dränks av vågornas vind.

De har alla något gemensamt:

De är så runda och släta

som är min älskades kind.

EN LA PLAYA

Hay una playa en Altea.

Tiene, creo, un jillión de pedregulhos

que estan allí desde aeones..

Se prensan entre si, bien juntos

y reciben en submissión colectiva

el sal y espuma de las ondas.

Creo que se hablan entre si,

pero lo que dicen

se extingue por el rugido del viento.

Todas algo tienen en común:

Son redondas y tan suaves

Como es la mejilla de mi amor.
J a n

Prisão doméstica

A prisão doméstica, interna, no interior do corpo embaça olhar, curva ombros. Incham as pernas. A roupa não veste. Oculta. O corpo se enche de pregas, amolece. E o gosto da comida fica tomado pela gordura morna das frituras de todos os pastéis. Adoráveis! De carne, peixe, queijo, siri, goiabada. Será que tem pastel de salmão? Berinjela. A água com gosto de cano, metal, terra. Cerveja todos os dias. Vinho. Água mineral. Latinhas geladas. Ser prisioneira…Estar trancado, chaveado na mesmice. A carroça segue, e os dias amanhecem tão rápido como anoitecem sem estrelas. Reinventar o passo, segurar a luz entre as mãos, retomar a memória, memorizar. Ser livre. Brincar.  Despertar na insônia. Beber café e voltar para casa. Abraçar e salvar todos os bebês. Infância. Contar sem pensar no erro. Segredos. A vida numa narrativa frouxa, solta, leve e perigosa. Pecados, enganos, loucuras! É assumir a falta, olhar o desespero, a doença, inverter o tempo. Entrar no quarto que ventila por cima, e rir demais, muito. Bascular a basculante. E deitada no assoalho escutar música. A música esconde as melhores lembranças! Revistas chegam coloridas, abertas em visual lúdico. Ah! Se não fosse lúdico ler manchetes de jornal, e capazes jornalistas rasparem o sumo de flores para o perfume! Escrever na linha certa das palavras deixando a massa da pizza crescer… respeitar a noite. Ficar livre é acordar duas horas da manhã e ter o corpo alerta.  Abrir outras janelas. Escutar. Abraçar a árvore que se debruça exibida na minha janela, velho jacarandá, e o jambeiro. Prisão é não poder correr, não sentir dor, entorpecer. E chamada prisão doméstica é querer mais, mais vinho, mais camarões, mais massas feitas em casa, mais laranjas, mangas, carambola, pés descalço. Acordar em Recife, Taubaté, conhecer o general na outra festa e beijar. Ter casa em Miguel Pereira, Gravataí, Torres. Deixar o café esfriar na esquina, e correr pro banho de mar. Chão de taboa, bebê abrindo o olho. Paradoxo de prisão e liberdade? Não. Livre em quarto de poucos metros quadrados, livre numa sala de oito metros quadrado com varanda, com vasos floridos. Alumínio nas janelas. Livre em qualquer lugar. Pintar quadro com tintas, sem desenho, mexendo nos pincéis, pintar com os dedos, riscar. Ser músico! Colher flores. Massa da pizza crescendo. Beber o trabalho de abrir, rechear, e fazer peras flambadas. Dormir. Depois vem sempre dormir porque o outro sonho já é melhor. Venha o futebol! Vou dar o primeiro chute! Fantástico! Vou colar as figurinhas…

 

Saudade

Aquele sentimento que chega sufocando. Chega/passa por solidão doída…Do fundo do estômago, na garganta, pela boca. Plantada, adubada na lembrança floresce, e como floresce encanta… No encantamento se desdobra, e a saudade sai pelos poros, pinga no calor carioca deste fevereiro. Faz um volta no desejo ardido de querer guardar teu olhar lavado, azul. Faz ramas no quintal, entre os jacarandás da Vitor Hugo. Viaja. Derrama-se em Búzios. Ou foi Montevidéu? Não. Buenos Aires. A saudade vai, volta, e não fica. Esmaga a pessoa… Aquele já ter ido, ou será, ou que vai ser. É agora. Sempre esta saudade sem nome, você.

Protesto nublado

 

Não exatamente greve, ou radicalmente greve, grave. Mais vozes. O grito. Um não sei o que de manifesto conduzido. Protesto nublado. Sem trégua, novo. Carnaval sem samba. Correto. Lógico. Político. Sem ganho. Uma risada. Falta. Pedra, obstáculo. Ou excesso de chuva numa seca marcada pelo excesso do sol, pelo calor. Excesso. O não explicado do desmoronamento: árvores tombadas, barro, resíduos desconhecidos. Os ônibus não circulam, com ou sem catraca livre. Praça quieta. Sem ir e vir… Violência. Ainda temos o menino amarrado ao poste, sem roupa. Silêncio que grita. Compreendo. A greve obstrui o caminho percorrido, acabado. Cabelos ralos. Brancos. Calçamentos a serem refeitos. Túneis ou elevados?  Obsoleta greve. Manifestação? Não são tacapes, mas cruzes de madeira, paus para bater barracas. Eufemismo. Fotografe a cesta de frutas e legumes, sem sementes, com flores.  Notícia aberta, com moldura. Abraço a bebê rosada. Olhos abertos, espertos que já esperam. Tempo ao tempo de crescer. A menina no berço. Nas ruas os encapuzados…

 

Relato – retrato

Luz que invade a janela. Cor, cheiro e vozes. Atropelo, susto. Irritação, indignação. A correria, o assalto, mulher morta na calçada. A criança gritando. Dia de pânico, dois, ou três. Medo. Solução chegando, polícia, padre… O arco íris depois dos relâmpagos, raios daquela chuva grossa…rapariga de pé à janela DALI

‘Desgrenhada’ situação

Anos também envelhecem, passam no ritmo inquieto de últimos. Depois de interromper o ritmo de trabalho as coisas modificam o olhar, a fala, os gestos, como se fosse pesado estar de/em pé. Recolhem-se risadas, olhares. Cabelos brancos, desgrenhados, às vezes amarelados pelo descuido. Leitura lenta, em gotas. As costas doem. Rabisca, retoma o livro.

Faço uma nota pro amoras, escolho uma foto, um texto, outra história. Encho o pote com as frutinhas azuis. Encontro aquele vazio fácil do apesar de. Multiplicar tudo. Relatos coloridos de viagens, entre a neve e os museus. Comidas exóticas. Campos de flores. Viajar. E Torres em estado de calamidade pública… A chuva lavando, limpando, mas tormentosa. Choramos o vazio, este complicado tempo de excessos. Estou em Torres mais do que Porto Alegre. O Rio de Janeiro se necessário. Neste verão quente, mais quente, agora a chuva de assustar. Ruas lotadas, comércio esvaziado, e esta política falastrona de merda como diria Iberê se estivesse vivo. Nada funciona sabendo-se que tudo se agita em baixo de vergonhosos escândalos, e na calada do poder um excesso desmantelado. Um Brasil com espírito colonial de abuso, e sacanagens. Só imagem colorida. Divulgações explosivas. Inteligência desviada. E esta chuva meio ao calor de ferver.

Luiz Horácio

Miguel participando. Obrigada.   Luiz Horácio escreve sobre A valise do Professor: literatura japonesa.

“Em A valise do professor, o leitor estabelecerá um suave confronto com o vazio, o vazio fruto da solidão.

Mas se for para dizer que se trata de uma literatura feminista, favor acrescentar “diferente”.

Tsukiko, quase 38 anos, mistura o real e o imaginado, lembranças e reflexões. De repente encontra Harutsuma, seu professor de ensino médio, e passam a beber no bar de Satoru. O relacionamento é burocrático, frio. Assim, com sutilezas, Hiromi começa a mostrar costumes de seu Japão. Tsukiko e Harutsuma são dois seres solitários e temerosos de abandonar tal status. O professor, vale ressaltar, é bem mais velho que sua ex-aluna. Aqui a diferença de idade não chega a ser um problema, visto que solidão não costuma fazer distinção.

Continuei atrás dele contando as estrelas. Na décima quinta chegamos à rua onde nos separaríamos.

Tchau, acenei e, virando-se, ele repetiu tchau. Eu o segui com os olhos e depois continuei andando até em casa. No caminho contei vinte e duas estrelas, incluindo as pequenas.

O começo da relação é tenso, ao mesmo tempo, frio; logo descobrem pontos comuns, como a culinária. Várias vezes coincidem seus pedidos no bar de Satoru. Entre eles não há compromisso algum e às vezes desaparecem, mas voltam a se encontrar, sempre por obra do acaso.

Um tipo de relação aparentemente segura, livre de riscos de dependência, paixões e possíveis amores. Certo? Errado. Tsukiko — não vou atestar a paixão — passa a sentir algo mais forte pelo maduro professor. Sempre em companhia de sua valise.

A relação entre o professor, metódico, ríspido e seco, e Tsukiko, doce, delicada, um tanto intempestiva, é de uma riqueza incomum. Incomum porque simples, incomum porque não é fácil contar uma história simples e ao mesmo tempo profunda e repleta de significados — além do panorama do Japão, hábitos e costumes que Hiromi oferece ao leitor.

Afinal, minha vida é apenas isso. Andar sozinha por um caminho misterioso de uma ilha desconhecida, perdida de seu acompanhante, o professor, que eu acreditava conhecer, mas que de fato é para mim uma incógnita. Em uma situação assim, o jeito é ir beber. Dizem que as especialidades da ilha são os polvos, os haliotes e os grandes camarões. Vou comer montanhas de haliotes.

Volte ao começo deste texto, indispensável leitor. Repare que este aprendiz citou dois Prêmios Nobel, e agora me atrevo a anunciar para breve, muito breve, o terceiro: Haruki Murakami. Pode cobrar.”001 (15)