Fragmentos carta e outra carta

Sábado, 11 hs,  Torres, 1 de março de 2014.

Nasceu a neta carioca. Deslocamento. Angústia, depois excesso.Tempo restrito a ninar, observar, e me deslumbrar. Os bebês são fortes, frágeis, entregues, e autoritários. O calor me consome.

Volto a te escrever na temperatura amena e florida, recheada de amoras, e mimosas cheirosas, buganvílias. De Torres. Quero teu abraço, igual  ao que me deste no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagori. Quando estás perto tenho certeza que o tempo não me venceu. Fico saboreando a lembrança. Gotas de prazer. Fazes-me falta.

Em terra gaúcha soube da morte de Maria Coussirat Camargo. Aos noventa e oito anos. Imagino que guardou até o fim a enérgica posição de guardiã da obra, e do amor de/por Iberê. Cercou a exclusividade. Altruísmo evidente. Maria desenvolveu autoridade para determinar o que podia, ou não, ser feito. Assim vivem os artistas sob proteção dos escolhidos, e amorosos  companheiros.

Até que ponto o tiro que matou um homem foi determinante para o retorno ao Rio Grande do Sul. Penso em Iberê Camargo. Ou foi a doença?  Anoto, escrevo até a exaustão. Organizo. Sucesso dos carretéis, a valorização, a obra na vitrine. Como, exatamente, aconteceu? Investigo. Será que a prisão determina, fortifica? Histórias a serem contadas, ou esquecidas. Sinto saudades do amor. Teu abraço me conforta.

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“A Louise Colet

Quarta-feira, 11h, Croisset, 14 de outubro de 1846.

[…] Trabalha, medita, medita acima de tudo, condensa teu pensamento, sabes que os belos fragmentos não são nada. A unidade, a unidade, tudo aí está! O conjunto, eis o que falta a todos de hoje, tanto nos grandes quanto nos pequenos. Mil passagens bonitas, mas não uma obra. Cerra o teu estilo, faz um tecido mais leve que a seda e forte como uma cota de malha. Perdão por estes conselhos, mas queria dar-te-tudo que desejo para mim.”

In: Correspondance: première série (1830-1846). Nouvelle édition augmentée. Paris: Lous Conard, 1926. p.375-377.

Tradução de Roberto Acízelo Quelha de Souza, in Uma ideia moderna de literatura textos seminais para os estudos literários (1688-1922). Fragmento da correspondência entre Gustave Flaubert a Louise Colet

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