Temperamentos ardentes

imagem020

 

Estas proximidades que me perturbam, assustam. Incomodam, e me transformam em esquizoide, ovelha, avestruz quem sabe? Fuga constante, medo inteiro de ser descoberta, exposta, de ser continuamente pessoa. Não quero, e ao mesmo tempo careço tanto! Tudo precisa passar pelo clandestino, o não visto,  não ostentado, e prazeroso, longo, profundo como aqueles amores que não foram. Enquanto leio Amós Oz estou no kibutz, no sofrimento dele, mas o que faço com o meu sofrer, com as lágrimas que não choram, com esta ignorância histórica, pálida e fria? E com  os meus amados juvenis… Todos presentes como o Jairo, por exemplo. Raiva do que não tive? Quero que o vazio salve. A cada um na sua vida, de forma diferente. Tenho olhos para os olhos castanhos dele. Pela casa da sua avó, os chás, a elegância da mãe. Os passeios de carro. Os encontros nas quermesses do Colégio Nossa Senhora das Graças. Por que não estou conversando com ele à beira do Guaiba? Estou presa no kibutz como se eu pudesse me corrigir desta nostalgia toda. Lembro-me dos pintores, escritores,  professores, artistas amados. Também dos livros, do fogo nas lareiras! Dos textos. Livros. Cartas. Do pudor, e depois a traição traída depois do velório. Do homem magro, magérrimo, abraço apertado. Buenos Aires, Búzios, Porto Alegre de casais enfeitiçados, e alegres. Acordei? Entre cartas, telegramas, e telefonemas. Amei avoada. Tão avoada como amei a pele mate, escura… A pele lisa, turca e enfeitiçada pelo físico amor. Ardente. Estou no kibutz a refazer o trajeto, o meu.

“[…] e intensa proximidade de homens e mulheres de temperamento ardente ainda me incomoda muito, depois de todos esses anos, e isso me constrange e envergonha.

Mas não sinto arrependimento. Isso não. Quase tudo que fiz na vida, fiz de coração aberto. O que então? Um laivo de estranheza, de saudade. Uma tristeza sem endereço. Como se isso também fosse o exílio. Sem um rio, sem uma floresta, sem os sons doa sinos. Que eu amava. Assim mesmo, sou capaz de fazer comigo mesmo um balanço frio, exato, um balanço histórico e também conceitual e também pessoal.” (p.237)

 

Que graça tem essas vidas, de quem cresceu entre os furacões da história, numa espécie de lugar-não lugar numa aldeia-não-aldeia, o rascunho de um país novo, sem avô e avó, sem uma antiga casa de família com paredes cheias de sulcos e o cheiro de gerações de mortos. Sem religião e sem rebelião e sem perambulações, talvez sem nenhum saudade. Sem nenhum objeto que veio de uma herança, nenhum medalhão, ou móvel, ou roupa, ou livro antigo. Nada.” (p.241)

imagem020Depois, numa espécie de concessão ditatorial, eles sorriem e lhe perguntam o que você acha. Antes que você abra a boca, eles já respondem a essa pergunta também, com tópicos e tudo, e lhe explicam que sua opinião não tem fundamento, porque a sua geração é superficial e tudo o mais – sem deixa-lo dizer uma só palavra, e lhe dão um xeque-mate depois de terem jogado sozinhos dos dois lados do tabuleiro e imobilizado suas peças porque você não tem peças, só tem problemas psicológicos, emocionais e no fim dizem que você ainda precisa estudar e que você ainda não está maduro. “(p.153)

Amós OZ – Uma Certa Paz

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s