FRANCISCA ASSIS de Castro

“Tentei refletir sobre o começo da minha história. Há coisas que não compreendo. Mas isso não significa nada. Posso prosseguir.” Malone Morre, Samuel Beckett

1.

Eu me chamo Francisca Assis de Castro. Nasci em Porto Alegre.

O quarto tem três portas – janelas. Duas abrem para o jardim, e a terceira, a preferida, mostra a casa do vizinho, seu Antônio. Uma cerca de madeira nos separa. O florido pessegueiro de jardim. Difícil a sintonia das pessoas! Conversas explicativas. Tédio. Lado a lado, mas solitárias. Na diferença, o inferno pessoal. Será o silêncio? Enlouquecemos, ou nos deixamos ficar na superficialidade para sentir apenas o hálito do outro… Este afeto morno que sopra quando alguém fala. Afeto morno.

Tenho o pé direito atrofiado. Alguém não tem generosidade, outro excessivo ciúme, aquele não tem mãe. Este perdeu a visão. Este outro não apreendeu a ouvir. Um quebra-cabeça demorado e paciencioso. O meu pé dói bastante. O que temos passa, e pela sua natureza efêmera, não possui valor. Assim, neste trajeto ansioso de buscar felicidade perco referencias. Prazer, quietude. Encontramos areia, sonhos que,  inadvertidamente, explodem como bomba. Estes esparsos e mornos pedaços a que chamamos memória se transformam em quebra-cabeça. Ou escrita compulsiva, ou fala incoerente, ou sono que não descansa. É preciso trabalhar. Exercer domínio porque o trabalho traz energia necessária para seguir em frente.

Albertina Maciel Souza, escritora gaúcha, publica seu primeiro livro:  Viagem pela Alma. Um experimento: escrever pressupõe disciplina. E agora, esvaziada, Albertina sente  a  solidão de estar, outra vez, com ela mesma. É preciso recomeçar. Explica. Bebemos o chá do bule vermelho. No fim da tarde volto às leituras e as ponderações. Ela retorna ao trabalho. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2014, de volta ao texto. E nunca chego ao fim, apenas continuo …

Tentei refletir sobre o começo da minha história. Há coisas que não compreendo. Mas isso não significa nada. Posso prosseguir.

“Então, ele lamentava não ter aprendido a arte de pensar, começando por dobrar o segundo e o terceiro dedos a fim de colocar o indicador sobre o sujeito e o dedo mínimo sobre o verbo, como seu professor de latim ensinava, e lamentava não ver sentido na babel de dúvidas, desejos imaginações e temores que lhe doíam na cabeça. E com menos força e coragem, ele também teria abandonado para sempre a possibilidade de vir, a saber, que tipo de ser ele era como iria viver, e viveria vencido, às cegas, num mundo louco, em meio a estranhos.”

Malone Morre, Samuel Beckett

 

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