Vento de areia

Sinto fome de pão com manteiga. Nada está no lugar certo. Círculos escuros, centro luminoso. O mar cinzento se confunde com o céu num risco verde-azul e. Acendo a luz para continuar a escrever. Aguardo, impaciente, a correspondência.

Amor não vai embora, apenas esvazia.  Morre. Um dia olhamos para ele, ou para ela, e dizemos: Preciso ir. E é um alívio, apenas um alívio. As despedidas deveriam ser limpas, e fáceis como fechar a porta. A cada um sua verdade. Porque no amor a queixa é sempre o outro. Palavras não explicam nada. Jean Cocteau escreve: “A maior obra prima da literatura é apenas um dicionário fora de ordem.” A desordem dá o sentido… No dicionário estão em ordem, segundo convenção universal, enquanto na obra de arte literária as palavras se agrupam segundo convenção individual – a convenção do artista, que as associa de acordo com seu código, e seu ritmo.  No entanto é preciso reduzir o sentimento a palavra. E elas tomam formas. Ou deformam-se, e atropelam… É o mundo lá de dentro que salta. Venta de dentro para fora.  E este vento altera a reserva dos Lobos Marinhos, derruba as torres da Guarita, avança nas areias tomadas por casebres em Itapeva.  O vento de areia avança, redesenha. Areia nos cavalos atados. Areia nas carrocinhas dos cabritos. O chalé fecha janelas, mas as redes, na varanda, se sacodem frenéticas. Carregamos o mundo inteiro. Imaginamos.  Assim mesmo a vida segue atrelada aos cadáveres

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