Analogias, associações

Trem noturno para Lisboa, o livro de Pascal Mercier desperta, alimenta inquietações:

“A vida não é aquilo que vivemos, é aquilo que imaginamos viver.”

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O autor tece, estabelece, costura novas, ou velhas leituras dando o fio, o motivo, o mote para as ditas inquietações que atravessam personagem, e afinal, a nós leitores. Não há como não seguir viagem com Gregorius.

Nossas vidas são os rios que escoam no mar aonde morrem diz Jorge Manrique na abertura do livro. “Nuestras vidas son los ríos que van a dar em la mar, que es el morir.” Ou  a epígrafe citada em francês, e traduzida. Michel de Montaigne, Ensaios, Segundo Volume, I. “Somos todos retalhos de uma textura tão disforme e diversa cada pedaço, a cada momento, faz o seu jogo. E existem tantas diferenças entre nós e nós próprios como entre nós e os outros.”

O estranhamento que sentimos ao tentar nos explicar, nos posicionar com o outro. Às vezes a dificuldade acelera o coração. O esforço é de tentar levantar uma enorme pedra… Suamos, movimentamos todos os nossos músculos, e desanimamos. A diferença, um abismo. Assim enquanto abrimos o livro já nos acordamos, e seguramos a idéia desta pluralidade e estranheza interior. A solidão. E já nos irmanamos através das constatações, as mesmas, em séculos, línguas, homens que seriam diferentes, mas sentem igual abismo uns entre os outros.

Fernando Pessoa também está lá somando, Livro do desassossego, anotações de 30/12/1932. “Cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmo. Por isso aquele que despreza o ambiente não é o mesmo que dele se alegra ou padece. Na vasta colônia do nosso ser há gente de muitas espécies e sentimentos diferentes.”

Leitura, um desafio a nos questionar. Não só Gregorius, mas nós todos nos perguntamos: e, se tivéssemos feito isto, não aquilo? Se não fosse assim poderia ter sido diferente? Esta decisão de fazer o que nunca pensamos, ou cogitamos de fazer parece um caminho sem volta. Esta decisão, este passo parece absolutamente definitivo, sem volta. A inalterabilidade da vida nos assegura a tranquilidade desejada. Será que desejamos mesmo estar neste lugar seguro, imutável? Como o tal emprego definitivo após um concurso público por exemplo, um mérito permanente, inalterável.

E o autor nos remete, início do livro, a Georges Simenon O homem que via o trem passar.  As alusões nos aquecem. Em todos, filósofos da vida, por todos as aloucadas e perfeitas decisões quando saímos do para sempre, para o talvez, o inseguro de todo deslocamento. A viagem que Ulisses empreendeu, e tantos retomamos… A loucura da guerra sem certeza, arriscamos, mas também conquistamos a dita liberdade. A leitura tem uma bomba que necessariamente explode dentro do leitor, e desarruma o que estava tão habilmente ordenado. Bombas que não são ao acaso. Livro aberto, leitura feita, e explosão. Bem, nunca saímos igual depois do livro lido. Como acontece com os deslocamentos ou de trem, ou de avião, ao volante de um carro, ou como passageiro. O deslocamento é uma transmutação.

O livro de Simenon, página sete, começa assim:

No que diz respeito a Kees Popinga, pessoalmente, cumpre admitir que, às oito da noite, ainda havia tempo, pois seu destino não estava decidido. Mas tempo de quê? E poderia ele fazer outra coisa senão o que ia fazer, persuadido, aliás, de que seus atos daquela noite não tinham maior importância que os de milhares de noites anteriores?

Teria dado de ombro se lhe houvessem dito que sua vida ia mudar bruscamente e que aquela fotografia sobre o aparador, em que aparecia de pé no meio da família, com uma mão pousada negligentemente no encosto de uma cadeira, seria reproduzida por todos os jornais da Europa.

Enfim, se tivesse procurado em si mesmo, pondo a mão na consciência, um grão de loucura latente que pudesse predispô-lo a um futuro tumultuado, não lhe teria ocorrido pensar em certa emoção furtiva, quase vergonhosa, que o assaltava quando via um trem passar, um trem noturno, de preferência, com as cortinas baixadas sobre o mistério dos passageiros.”

Mais adiante uma frase nos envolve: “Acaso não fazia quinze anos que era assim, que eles estavam assim, petrificados nas mesmas atitudes?”

Retomo ao nosso livro. Ao livre de Pascal Mercier. Fico a pensar como escolheu tal pseudônimo, por pensar, como filósofo usou Pascal? Mas Mercier? Como um merci, um obrigada? Empreender a aventura de ler leva a outro desafio, escrever. Retomo o livro como se fossem minhas as palavras:

“Acontece por vezes de eu ir à praia, sentindo a cabeça exposta ao vento que desejo gelado, mais do que conhecemos por aqui. Desejo que ele me esvazie de todas as palavras gastas, de todos os hábitos linguísticos esgotados, para que eu possa voltar com o espírito purificado, limpo das escórias daquele palavreado sempre igual. Mas na primeira oportunidade que tenho de falar alguma coisa, tudo volta. Preciso fazer alguma coisa, e preciso fazê-lo com palavras. Mas o quê?”

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O livro Trem noturno para Lisboa abre caminho transloucado, mas necessário, para o maravilhamento. A descoberta de outras vidas. A diferença, a diferença para cada um em particular, e assim ao final, a libertação. Liberdade, fidelidade a si mesmo. Discutir/ divagar ou pensar sobre esta possibilidade de ir, e deslocar-se, fechar a porta para um número de pessoas, abrir a porta para outro número de diferentes pessoas. Diferentes, mas humanamente iguais. Sofrimento, solidão. Ausência de amor, de interior. O oxigênio está na libertação, não nos grilhões de relacionamentos estagnados. Ou será a relação uma segurança como aquele emprego burocrata, necessário. Ou em tempo igual de si próprio, no aprimoramento como fez Gregorius como filólogo? Pegar o trem noturno, acordar noutra aventura, a mais séria de todas, a que nos revela e nos faz aceitar quem somos e depois  voltar? Queremos voltar como Ulisses voltou para Penélope? Mas só saberemos se desejamos voltar se entrarmos no trem, sem bagagem, apenas sendo nós mesmos.

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