Biombo japonês

A casa foi feita em blocos brancos sobrepostos. Sem jardim. Pedras polidas, arredondadas cobrem espaços, corredores e possíveis canteiros. Grandes aberturas. Aberturas rasgadas para áreas externas, vazias. Sem verde, ou flores. No interior, espaços definidos por cadeiras, mesas, prateleiras laqueadas de branco.  Biombo japonês, algumas almofadas. O espaço parece maior!  A claridade invade. Nenhum outro detalhe, não fosse aquele anjo de madeira, e as fotos, muitas fotos que se espalham pela parede. Bonito isso, como se a vida brotasse naquelas pessoas a vestirem trajes exóticos, e as crianças com aventais engomados. Retratados especialmente para marcar o tempo. Também fotos de jardins, outras casas. E o mar. O livro de imagens voltou, o texto de poucas linhas ilustra.

No apartamento do prédio ao lado, as janelas são menores, mas as duas portas da sacada se abrem para o sol. Estantes, estantes inteiras cheias de livros. Um armário grande pintado com figuras geométricas de diferentes formas e cores.  Duas poltronas antigas, orelhudas. Uma mesa redonda com diâmetro de um metro, suponho. Este apartamento tem um corredor – galeria que leva aos dormitórios. Pequenos quadros – retratos que não identifiquei, mas reconheci Danúbio Gonçalves. Uma aquarela urbana de Vitório Gheno, meninos soltando pandorga de Bianchetti. E o dorso de Glauco Rodrigues em tons de vermelho. Iluminados adequadamente. Obras de arte precisam de luz indireta para não danificar os trabalhos, e valorizá-los. Ambiente climatizado. Sem umidade. A parede não deve ter nenhum cano que leve água para banheiros ou cozinha.Estranho corredor de espelhos… Vários tamanhos, emoldurados de um lado, e o outro lado a parede é revestida de espelhos. Um túnel de reflexos.

Aqueles olhos espertos, redondos, uma boca expressiva, o cabelo puxado, sempre arrumado, unhas feitas, impecável ao acordar com a leve maquiagem, e a gentileza diária. Encantadora. Enquanto bebe o chá vermelho, aromatizado, fica folheando as revistas, passa os olhos minuciosamente pelo pequeno jornal, algum assunto bombástico?! A Guerra na Criméia, a morte de Alain Resnais, o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes joga lixo no chão! O lançamento da coleção Inverno, falta uma semana para terminar o Verão! Ah! Estes escandalosos filmes do Oscar. Ela levanta inquieta para se livrar daquilo tudo. As revistas ficam abertas. O jornal, metodicamente vai para o monte. Alguns hábitos, fazeres, estão cruelmente colados a pele. Levantar e esticar os lençóis. Bocejar, espreguiçar para que o dia se levante antes dela, nunca ao contrário. Reclamar deste ou daquele ruído, separar a roupa que deve ser passada. Outra vez senta na cadeira de orelhas. Pega um livro para ler, um dos que já leu porque a história é doce, romântica, e todo o amor entre eles justifica ter vivido, presa no casarão, rodeada pelos filhos. Naquela época o jardim tinha flores, o gramado era perfeito. A piscina estava limpa. Todos os finais de semana fazia-se longos passeios. Comia-se bem, embora fosse comedido, num ritual inglês com aperitivos, um drinque, uma conversa frívola qualquer sobre o fracasso de um romance local, uma traição, a voz debochado do filho para o pai comenta as liberdades da moça que mora na outra esquina. Os costumes constrangedores de uma modernidade, que seria então decadente. Hermínia concordava, alongava a explicação. E ambos ficavam satisfeitos com tanta compreensão mútua.

Lucinda não pretende ver nenhum dos filmes. Questão fechada. Não vai ao cinema. Sente-se em fuga! Como assistir passiva a televisão. Escolhe-se o programa adequado ao espírito do momento. VUPT passou o tempo.  Já   é hora do chá.

Afinal, a história é mesmo um grande monólogo. Preencher o silêncio, ponderar, perguntar, e  responder. Descrever. Ou escutar histórias de amor.

http://globotv.globo.com/rede-globo/mais-voce/v/mais-voce-conta-a-historia-de-medico-e-paciente-que-se-apaixonaram/3314379/

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